Você lembra onde caiu? Ou estava tão preocupado em se levantar que não percebeu o que deixou para trás?
Tenho pensado nas experiências que não deixam marcas visíveis, mas mudam silenciosamente nossa maneira de viver. Continuamos trabalhando, cuidando das pessoas, cumprindo compromissos e mantendo uma rotina aparentemente normal. Talvez você nem consiga identificar quando isso começou. Lembra apenas que era mais espontâneo, fazia planos com entusiasmo, confiava com menos receio e encontrava prazer em coisas que hoje parecem distantes.
E me pergunto quantas dessas mudanças foram escolhas e quantas nasceram da necessidade de nos proteger. Uma pessoa que gostava de reunir amigos começa a preferir o isolamento. Alguém que expressava seus sentimentos passa a guardar tudo para si. Aos poucos, nos acostumamos com essas versões de nós mesmos. Chamamos de maturidade o que talvez seja medo, de independência o que pode ser dificuldade de confiar e de tranquilidade aquilo que, em alguns casos, é apenas ausência de expectativas.
É claro que nem toda mudança esconde uma ferida. Crescer também significa rever prioridades. Mas existe uma diferença entre deixar algo para trás porque já não faz sentido e abandonar aquilo de que gostamos porque temos medo de sofrer novamente. Continuamos conquistando reconhecimento, estabilidade e tantas coisas pelas quais lutamos e até sentimos orgulho da nossa trajetória, mas isso não impede que exista uma saudade difícil de explicar. Não necessariamente de alguém ou de algum lugar, mas de quem éramos antes de determinadas experiências.
Acredito que uma parte importante da inteligência emocional esteja em reconhecer essas mudanças sem condenar nossa própria história. Nem tudo que nos feriu poderia ter sido evitado, e existem situações que ultrapassam nossas forças naquele momento. O que merece atenção é perceber como essas experiências continuam influenciando nossas decisões, mesmo quando acreditamos que já ficaram para trás. Talvez você tenha aprendido a suportar tanto que já não percebe quando precisa de acolhimento.
Não precisamos recuperar exatamente a pessoa que fomos. Algumas mudanças nos fizeram bem. Outras, porém, merecem ser questionadas, principalmente quando percebemos que já não escolhemos pelo que desejamos, mas pelo que tememos. Por isso, deixo uma pergunta que também faço a mim mesma:
Você realmente superou o que viveu ou apenas aprendeu a organizar sua vida para não correr o risco de sentir aquela dor novamente? Pense em algo que você fazia com prazer e deixou de fazer. Pode ser dançar, viajar, encontrar amigos, demonstrar carinho ou realizar um projeto que sempre desejou.
Tente lembrar quando isso mudou. Você perdeu o interesse ou alguma experiência fez com que aquilo deixasse de parecer seguro? Se ainda existe vontade, talvez seja hora de experimentar novamente, mesmo que aos poucos. Não para voltar a ser quem era, mas para descobrir o que ainda faz sentido para você.
E gostaria que levasse uma pergunta desta leitura: Se o medo de reviver o passado não estivesse presente, o que você faria de diferente hoje? Talvez a resposta revele algo que você vem adiando há muito tempo. Porque o lugar onde você caiu faz parte da sua história, mas não precisa continuar sendo o lugar de onde você enxerga o mundo.
Patrícia Caetano
patymops@gmail.com
@soupatriciaccaetan

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