Hoje, durante uma conversa com a editora do meu livro, ouvi uma frase que me fez parar: “Ninguém se importa com sua história triste.” Minha primeira reação foi discordar. Como não se importar? Pensei nas noites em que ninguém viu o choro, nas perdas que não tiveram explicação, nas marcas que a gente aprende a carregar sem fazer barulho.
Depois, entendi que a frase não precisava ser lida como desprezo. Talvez fosse um convite a olhar para o que fazemos com o que vivemos. Aquilo que nos atravessou pode não despertar em outra pessoa a mesma intensidade. Não porque nossa dor seja pequena, mas porque ninguém esteve exatamente no nosso lugar.
Essa conversa veio num momento especial: estou revisitando minha história para transformá-la em livro. E percebi que não quero apenas reunir acontecimentos que me feriram, como se a soma de tantas dificuldades fosse suficiente para explicar quem sou. Quero encontrar a mulher que existiu entre um episódio e outro: a que teve medo, fez escolhas, errou, insistiu, mudou de ideia e encontrou razões para continuar.
É fácil, sem perceber, fazer do sofrimento o centro da narrativa. Contamos o que nos fizeram, quem nos deixou, aquilo que perdemos. Às vezes contamos porque precisamos de escuta; outras, porque ainda esperamos que alguém reconheça o estrago que causou. Há dores que precisam ser nomeadas, e procurar acolhimento não nos torna fracos. Mas o reconhecimento que não chega não pode ser a condição para que retomemos a própria vida.
Tenho aprendido que inteligência emocional não é enfeitar o passado com lições bonitas. Há coisas que nunca deveriam ter acontecido. É conseguir olhar para elas sem deixar que respondam por nós a todas as perguntas do presente. O que eu quero agora? O que ainda faz sentido? Quanto de mim ficou esperando uma desculpa, uma explicação, um gesto que talvez nunca venha?
A frase continua me provocando. Não concordo que ninguém se importe, pois conheço o valor de quem escuta e permanece. Mas entendi que minha história não precisa provocar pena para ter valor. Precisa ser verdadeira e deixar espaço para tudo o que sou além das feridas.
Então devolvo a pergunta que nasceu daquela conversa: se tirássemos da sua história tudo o que fizeram contra você, o que ainda teria para contar sobre quem você é?
Espero que encontre sonhos, escolhas, afetos, coragem e até contradições. Porque ninguém deveria ser conhecido apenas pelo pior que viveu, nem mesmo por si próprio.
Talvez nossa maior responsabilidade não seja fazer o mundo compreender o quanto sofremos, mas não permitir que aquilo que nos aconteceu seja tudo o que temos a dizer sobre nós.*

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