Lembro de, ainda criança, assistir ao seriado MacGyver. Eu ficava fascinada com sua capacidade de transformar um clipe, um pedaço de arame ou fita adesiva em soluções improváveis. O improviso era seu maior talento. Na ficção, quase sempre dava certo. Na vida real, nem sempre.
A gambiarra faz parte da nossa cultura. Nasce da criatividade, da necessidade e, muitas vezes, da falta de recursos. É o papel que firma a cadeira, a fita isolante que protege o fio, o balde sob a torneira que insiste em pingar. Em muitos momentos, ela resolve. O problema começa quando o improviso deixa de ser temporário e passa a substituir o conserto.
Percebi que fazemos exatamente isso com a vida. Criamos gambiarras emocionais para evitar o que exige coragem. Escondemos a tristeza atrás de um sorriso, adiamos conversas importantes, normalizamos relacionamentos desgastados e acreditamos que o tempo resolverá problemas que, na verdade, dependem de uma decisão.
Toda gambiarra tem prazo de validade. Ela não elimina a causa do problema; apenas adia suas consequências. E, quando falha, o prejuízo costuma ser maior do que teria sido se o reparo tivesse acontecido na hora certa.
A mesma lógica aparece nas empresas que resistem às mudanças até serem vencidas pela crise, nas famílias que aprendem a conviver com o silêncio, nas amizades mantidas apenas pelo hábito e nas pessoas que tratam sintomas, mas ignoram a origem de suas dores. O que não é resolvido na raiz dificilmente permanece firme.
Nossa sociedade valoriza soluções rápidas. Queremos respostas imediatas para problemas complexos. Mas nem a vida, nem os relacionamentos, nem o caráter se fortalecem com improvisos. Estruturas sólidas exigem manutenção, coragem e disposição para enfrentar aquilo que está quebrado.
Jesus contou a parábola de duas casas que pareciam iguais. A diferença só apareceu quando veio a tempestade. A construída sobre a rocha permaneceu de pé; a edificada sobre a areia desabou. O problema nunca foi a chuva, mas o alicerce.
Talvez essa seja a pergunta que todos deveríamos fazer de tempos em tempos: em quais áreas da minha vida estou construindo sobre a rocha e em quais estou apenas fazendo gambiarras? MacGyver nos ensinou que o improviso pode salvar uma emergência. A vida, porém, ensina que ninguém constrói uma história inteira sobre remendos.
Porque toda gambiarra tem seu limite. Mais cedo ou mais tarde, ela cede. E somente a verdade, o cuidado e a coragem de enfrentar a origem dos problemas são capazes de construir uma vida que permaneça firme quando as tempestades chegarem.
PATRÍCIA CAETANO
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