Existe uma distância dolorosa que a geografia não mede nem pode mensurar. É o espaço que vai da poeira escaldante do deserto da Judeia e das águas correntes do Rio Jordão até a umidade fria de uma cela na fortaleza de Maqueronte — a prisão do governo de Herodes Antipas, tetrarca da Galileia e da Peréia. Ali, entre o sol e a sombra, medeia a distância exata que separa a certeza da dúvida humana.
João Batista não era um observador distante da fé. Ele foi o mesmo homem que viu os céus se abrirem e ouviu a voz do Pai celestial declarar a filiação divina de Cristo.
No entanto, viu sua convicção estremecer ao som duro de grades que se fechavam e lhe retiravam a voz que pregava no deserto. O evangelista Mateus registrou a força daquele primeiro momento:
“Jesus foi da Galileia ao rio Jordão para que João o batizasse. João, porém, tentou impedi-lo. “Eu é que preciso ser batizado pelo senhor”, disse ele. “Então por que vem a mim?” Jesus respondeu: “É necessário que seja assim, pois devemos fazer tudo que Deus requer”. E João concordou em batizá-lo. Depois do batismo, enquanto Jesus saía da água. Naquele momento, os céus se abriram, e ele viu o Espírito de Deus descendo como pomba e pousando sobre ele. Então, uma voz dos céus disse: ― “Este é o meu Filho amado, em quem tenho prazer.” (Mateus 3:13-17)
Naquele rio, a fé parecia uma rocha inquebrantável ou uma brasa que nunca se apaga mesmo sob torrentes, aquelas correntes de água rápidas, fortes e devastadoras.
Afinal, naquele rio que se tornou sagrado ao receber o Deus Filho, João estava frente a frente com Jesus — exatamente o primo que lhe fez saltar no ventre da mãe, Isabel, naquela histórica visita da jovem Maria:
“(...) Quando Maria saudou a prima, o menino de Isabel saltou no seu ventre e Isabel ficou cheia do Espírito Santo.” (Lucas 1:41)
Mas, às vezes, a vida tem um jeito próprio de desmanchar nossas solidez. Como todo ser humano falível — e apesar da nossa nobreza de origem, marcada desde o princípio das coisas: “Então disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” (Gênesis 1:28) — até mesmo João Batista vacilou. E vacilou como um principiante da fé.
No calabouço de Herodes, o profeta, que preparou os caminhos do Senhor, viu suas expectativas desmoronarem. Ele não parecia mais aquele homem que teve a felicidade de baixar o Messias nas águas e ouvir a voz de Deus ungindo o Filho amado.
No escuro da cela, a dúvida cobrou seu preço. João queria uma resposta e mandou perguntar diretamente ao homem que falava com tanta sabedoria de um filósofo, mas principalmente andava fazendo milagres e encantando multidões:
“João, que estava na prisão, ao ouvir falar daquilo que Cristo andava a realizar, mandou os seus discípulos perguntar-lhe: ‘És tu aquele que havia de vir ou devemos aguardar outro?’ Jesus disse-lhes: ‘Voltem para João e contem-lhe o que estão a ouvir e a ver: cecos veem e coxos andam, leprosos são curados, surdos voltam a ouvir, mortos regressam à vida e os pobres ouvem o evangelho. Feliz é aquele que não se escandaliza em mim.’” (Lucas 7:18-23)
A questão central desse episódio histórico é profundamente filosófica. João Batista aguardava o libertador que ceifaria a injustiça com fogo e poder político. Deparou-se, porém, com o pacificador: o cordeiro manso que curava feridas em silêncio, acolhia os marginalizados e, sem erguer uma única espada, enfrentava as estruturas religiosas e políticas, os poferes de sua época.
Essa é a contradição que revela a própria essência da alma quando confrontada com a dor e com o medo. A dubiedade de João nasce do choque inevitável entre o Deus que nós idealizamos para solucionar nossas urgências materiais e o Deus que se revela na realidade, no Seu próprio tempo. O profeta da voz do deserto descobriu que ter ouvido a voz dos céus não imuniza o peito contra o desespero terreno.
Não é diferente do que vivemos hoje. A humanidade contemporânea continua a encarar as mesmas grades invisíveis da existência. Vivemos encarcerados em nossos medos, perdas e desilusões, exigindo que a fé seja um amuleto para nos livrar dos incômodos e garantir respostas imediatas.
Quando o milagre esperado não chega e a vida nos impõe o silêncio divino, nossa reação imediata é perguntar se escolhemos o caminho certo. Mas a fragilidade de João Batista, em vez de assustar, funciona como um bálsamo. Saber que o maior entre os nascidos de mulher duvidou valida a nossa própria humanidade.
Do ponto de vista teológico, a resposta de Jesus fundamenta-se no cumprimento das profecias de Isaías (Is 35:5-6; 61:1). Do ponto de vista filosófico, portanto, existencial, ela nos ensina que a verdade sobre Deus não se aprende por especulação intelectual ou exigências de poder, mas pela observação dos fatos que reordenam a realidade e trazem sentido à fragilidade humana.
Jesus desloca a validação da fé das teorias sobre o poder para a experiência da vivência real do amor e do cuidado com o vulnerável.
E é por isso que a advertência final — "Feliz é aquele que não se escandaliza em mim" — toca o coração do problema. O escândalo surge quando a nossa razão limitada tenta enquadrar o sagrado.
A verdadeira maturidade espiritual e filosófica reside em acolher o mistério como ele se revela, e não como gostaríamos de controlá-lo.
Ao olhar para a hesitação de João, compreendemos que a dúvida não é a negação da fé, mas o seu movimento mais sincero. É no reconhecimento da nossa pequenez que a confiança se fortalece e nos ensina a amar o Criador pelo que Ele é — e não apenas pelo que esperamos que Ele faça.
MORAIS, OJC. PhD em Democracia e Direitos Humanos (IGC/CDH, instituto associado à Universidade de Coimbra e à FDUC através de protocolos de cooperação institucional.).Doutor em Direito (com ênfase ao princípio da proteção social) pela puc/sp; Mestre em Direito pela UFPA, e Acadêmico Perpétuo da APL, da APLJ, da APJ e da ABDSS. Escritor brasileiro.
