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O Liberal 80 anos
Denis Farias

DENIS FARIAS

Denis Farias é Advogado, Especialista em Direito Eleitoral, Professor, Consultor Jurídico, Data Protection Officer, Vice-Presidente do Instituto Brasileiro de Direito Partidário, Membro da Comissão Nacional de Direito Eleitoral do Conselho Federal da OAB.

Denis Farias

Janela da (In)fidelidade partidária

Denis Farias

19 de março de 2026 às 17:42

A fidelidade partidária e a janela partidária, são temas centrais para entender a dinâmica dos partidos políticos nas eleições, pois influenciam diretamente a estabilidade das instituições e a própria lógica da representação democrática. A fidelidade partidária surge da ideia de que o mandato obtido nas eleições proporcionais, como os de deputados e vereadores, não pertencem apenas ao candidato eleito, mas também ao partido político que viabilizou sua eleição. 

O entendimento foi consolidado pelo Tribunal Superior Eleitoral, que definiu que, no sistema proporcional brasileiro, o voto dado ao candidato também fortalece a legenda, contribuindo para a conquista de cadeiras no Legislativo. 

Quando um parlamentar abandona o partido pelo qual foi eleito, pode ocorrer a chamada infidelidade partidária, situação que pode levar à perda do mandato. Esse entendimento foi regulamentado pela Resolução nº 22.610/2007 do TSE, que estabeleceu o procedimento para a perda de mandato em caso de desfiliação sem justa causa. 

A regra busca evitar o chamado “troca-troca partidário”, prática que durante muitos anos marcou a política brasileira e gerava instabilidade nas bancadas legislativas. Entretanto, o próprio sistema reconhece que a política é dinâmica e que conflitos internos ou mudanças ideológicas podem justificar a saída de um parlamentar de sua legenda. 

Contudo, há hipóteses de justa causa para a desfiliação, como a grave discriminação política pessoal, mudança substancial no programa partidário ou fusão de partidos. Entre essas hipóteses, destaca-se a chamada janela partidária. Prevista no artigo 22-A da Lei nº 9.096/1995, a janela partidária consiste em um período de 30 dias, em ano eleitoral, durante o qual parlamentares eleitos pelo sistema proporcional podem trocar de partido sem perder o mandato. 

Trata-se de um mecanismo criado para equilibrar duas forças fundamentais da democracia: a estabilidade partidária e a liberdade política dos representantes. Na prática, a janela ocorre cerca de seis ou sete meses antes das eleições e costuma provocar intensa movimentação nos bastidores da política. Deputados e vereadores avaliam alianças, buscam partidos com maior viabilidade eleitoral e reorganizam suas estratégias para a disputa seguinte. 

Nessas eleições, o período ocorreu entre 5 de março e 3 de abril, permitindo que deputados federais, estaduais e distritais migrassem de legenda sem risco de perder seus mandatos. Esse momento evidencia um paradoxo da política brasileira. De um lado, a fidelidade partidária busca fortalecer os partidos e garantir coerência ideológica. 

De outro, a janela partidária abre espaço para rearranjos políticos que podem redefinir o equilíbrio de forças no Parlamento. A fidelidade partidária preserva a lógica coletiva dos partidos, enquanto a janela partidária reconhece que a política, como a própria democracia, está em constante transformação.

Denis Farias é advogado especialista em Direito Eleitoral.