De tempos em tempos, chegam filmes que animam nosso amor pelo cinema e demonstram seu potencial artístico e criativo. Entre tantos filmes maravilhosos dos anos 1980, Ran (foto), de Akira Kurosawa, tornou-se um dos meus filmes prediletos dessa década e de toda a história do cinema. Sou um admirador absoluto da obra de Kurosawa e, antes de Ran, já tinha assistido a diversos filmes geniais de sua autoria, como Viver (1952), Os Sete Samurais (1954) e Rashomon (1950), graças ao cineclube da Associação Paraense dos Críticos de Cinema (APCC).
Depois, de modo arrebatador, assisti a Dersu Uzala (1975) na inauguração do Cinema 1 e, definitivamente, ficou evidente que eu estava diante de um gênio da sétima arte. Em 1980, assisti a Kagemusha A Sombra do Samurai e percebi a amplitude de sua visão como artista.
Esses filmes, e outros que assisti posteriormente, revelaram-me o olhar humanista de Kurosawa sobre o ser humano, a partir de temas universais que o cercam, como honra, violência, poder, injustiça, ambição, responsabilidade, solidariedade e fragilidade humana. Mesmo em filmes que se passam em outras épocas e apresentam narrativas históricas, existe uma expressiva reflexão sobre o presente.
Em Ran, de 1985, lançado no Cinema 2, foi possível compreender a maturidade de Kurosawa ao criar uma obra de arte a partir de uma poderosa adaptação de Rei Lear, de William Shakespeare. O diretor lança uma reflexão excepcional sobre a humanidade e seus tortuosos caminhos de existência, a partir da história de um senhor feudal que divide seu domínio entre os três filhos, desencadeando uma tragédia familiar marcada pela traição e pela luta pelo poder.
Combinando tradições japonesas com uma leitura ocidental, Kurosawa entrega, nesta obra, um dos maiores exemplos de perfeição fílmica, estética e temática, desenvolvendo e ampliando suas características de elaboração de uma linguagem marcada pela composição rigorosa do quadro, pelo movimento de câmera, pela montagem e pelo uso expressivo do clima e da paisagem. A imagem frequentemente comunica aquilo que os personagens não dizem.
Além disso, as reflexões propostas pelo diretor, que surgem em cada fala, diálogo e expressão do filme, revelam sua interpretação sobre a dificuldade humana em alcançar o perdão, a misericórdia e a solidariedade e sobre para onde essa dificuldade poderá levar a humanidade.
Dessa maneira, em Ran, Kurosawa atingiu uma perfeição que encanta e emociona os espectadores, desde a extraordinária interpretação de Tatsuya Nakadai, uma das maiores do cinema, até a fotografia e a trilha sonora. O final do filme, com o personagem cego, sem direção, à beira de um abismo, é antológico e conclui com perfeição uma das maiores obras-primas do cinema.
Ran está em exibição no Cine Líbero Luxardo, em cópia restaurada em 4K. Aproveite esta oportunidade cinéfila para assistir ou rever um dos maiores filmes da história do cinema.
Viva Akira Kurosawa!
Roda de Cinema homenageia Abbas Kiarostami
O Centro de Estudos Cinematográficos (CEC) realiza, no dia 5 de outubro, às 18h30, na Casa das Artes, mais uma edição da Roda de Cinema, desta vez dedicada ao grande cineasta iraniano Abbas Kiarostami, com o tema “O Cinema Poético de Abbas Kiarostami”. A entrada é gratuita. Esta ação de cultura de cinema terá minha apresentação ao lado do pesquisador paraense Gabriel Darwich, em uma homenagem a um dos grandes mestres do cinema mundial, cuja obra se caracteriza pela dimensão poética, humanista e contemplativa.
Kiarostami transformou situações simples do cotidiano em experiências cinematográficas de grande força estética e filosófica. Filmes como Onde Fica a Casa do Meu Amigo?, Close-Up, E a Vida Continua..., Através das Oliveiras, Gosto de Cereja e O Vento nos Levará revelam seu interesse pela infância, pelas relações humanas, pela paisagem, pelo silêncio e pelas fronteiras entre realidade e ficção.
A Roda de Cinema do CEC pretende destacar a singularidade de sua filmografia e estimular o público a conhecer ou revisitar seus filmes, reconhecendo o legado de um diretor que fez do cinema uma experiência profundamente humanista e reflexiva.
Gabriel Darwich é autor do livro “Quando a vida não cabe em telas: uma ética do estranhamento no cinema de Abbas Kiarostami”, que terá novo lançamento antes da realização da Roda de Cinema. Não perca!
Dicas da semana
Ran de Akira Kurosawa, Mirrors nº 3 de Christian Petzold, Três Vezes Adeus de Isabel Coixet (Cine Líbero Luxardo).
O Deserto Vermelho de Michelangelo Antonioni. Com Monica Vitti, Richard Harris. Homenagem a Michelangelo Antonioni e Monica Vitti (Cineclube SINDMEPA. Terça-feira, dia 6/9. Horário: 19h. Entrada gratuita).
