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Marco Antônio Moreira

Coluna assinada pelo presidente da Associação dos Críticos de Cinema do Pará (ACCPA), membro-fundador da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (ABRACCINE) e membro da Academia Paraense de Ciências (APC). Mestre e Doutor em Artes (PPGARTES) pela UFPA, professor do Curso de Cinema e Audiovisual da UFPA, coordenador-geral do Centro de Estudos Cinematográficos (CEC), crítico de cinema e pesquisador.

Cineclubismo em tempos de algoritmos

Marco Antonio Moreira
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Em tempos em que muitas vezes não escolhemos diretamente o que queremos ouvir, ler, assistir e perceber amplamente no mundo, especificamente no mundo da arte, é necessário, cada vez mais, adquirir autonomia cultural para ampliar o acesso a tantas obras artísticas que desenvolveram as artes e o próprio mundo para, finalmente, termos o direito de compreender a diversidade presente em cada pensamento de cada artista. No caso do cinema, entendo que é necessário estudar e se informar cada vez mais para perceber, de modo expressivo, a história do cinema como uma trajetória construída por meio de muitos inconformistas que não se contentaram em seguir regras ou normas mercadológicas ou artísticas.

Por isso, o conceito cineclubista, ou seja, o da diversidade, da curiosidade e do aprendizado cinematográfico, é essencial para continuarmos amando o cinema por sua intensa possibilidade artística, humana, humanitária, solidária e interpretativa de lidar com o mundo. Nesse sentido, gostaria, mais uma vez, de evidenciar o conceito cineclubista que tanto prezo, para estimular o leitor a procurar frequentemente sua autonomia cultural cinematográfica, seja nos cinemas, no streaming ou em qualquer plataforma audiovisual e, claro, na programação dos cineclubes.

Recentemente, assisti a filmes que reforçaram este meu chamamento cinéfilo, como, por exemplo, Sangue e Areia, de Rouben Mamoulian; A Piscina, de Jacques Deray; Culpado por Suspeita, de Irwin Winkler; Possessão, de Andrzej Żuławski; e O Enigma de uma Vida (foto), de Frank Perry.

Esses filmes, realizados em diferentes décadas, impressionam estética e tematicamente, compartilhando pensamentos e fazeres cinematográficos repletos de ideias e conceitos que respeitam a inteligência do espectador, tornando-o ativo em relação ao que está assistindo e provocando constantes interpretações e reflexões sobre suas histórias.

Possessão é um dos filmes mais provocadores que assisti, e revê-lo foi uma grande satisfação cinéfila, a partir de uma história que, aparentemente, é sobre a crise de relacionamento de um casal. Sangue e Areia é o cinema clássico de Hollywood com toda a sua competência narrativa que, mesmo após tantos anos, cativa o espectador pela sua inteligência em cada cena. A Piscina confirma o talento de Romy Schneider e Alain Delon em uma trama afetiva que envolve outros temas de maneira criativa, desde o roteiro até a direção.

O Enigma de uma Vida mostra, com perfeição narrativa, a história de um homem supostamente feliz em busca de reencontros e afetos que não são mais viáveis após sua trajetória pessoal e profissional. E Culpado por Suspeita reafirma a extensão criativa do clássico cinema americano a partir de uma história vivida por um roteirista americano em busca de sua liberdade de expressão e criação nos Estados Unidos dos anos 1950.

Todos esses filmes, e muitos outros, podem nos fazer refletir sobre nossas escolhas cinematográficas em pleno período de algoritmos, que muitas vezes são bem-vindos, mas que também devem provocar a necessidade imperativa de que aquilo que assistimos seja guiado por outros critérios, envolvendo o conceito cineclubista de diversidade, criatividade, estudo e compromisso com a magnitude da arte cinematográfica.

Pensando nisso, desejo boas sessões de filmes aos leitores, com muita autonomia cultural cinematográfica, para que se possa perceber, afinal, que o cinema é uma arte em desenvolvimento e que deve ser apreciada de modo cada vez mais autoral e artístico.

Mostra A Cinemateca é Brasileira: Da Comédia ao Drama

Esta importante mostra de cinema, que valoriza e estimula o conhecimento da história do cinema brasileiro, continua em exibição em Belém até o dia 28/9, com uma programação imperdível e filmes restaurados com entrada gratuita. Assistir a esta mostra é valorizar o cinema brasileiro e também a Cinemateca Brasileira, que há muitos anos realiza um trabalho essencial para a preservação do audiovisual brasileiro. A mostra está em exibição no Auditório Eneida de Moraes, no Palacete Facíola, em uma ação do Museu da Imagem e do Som do Pará (MIS-PA).  

ACCPA

Depois do sucesso da Sessão Cult Debate da Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA) com O Rio de Clarice, no cine Alexandrino Moreira, o próximo debate da ACCPA será em parceria com o Cine Líbero Luxardo, com um filme superespecial: a obra-prima Ran, de Akira Kurosawa, em cópia restaurada em 4K. Vale conferir no dia 1º/10, após a sessão das 18h30.

Dicas da semana

O Rio de Clarice. Filme baseado em contos de Clarice Lispector (A Bela e a Fera, Amor, Feliz Aniversário, Preciosidade e Mal-estar de um Anjo) (Cine Alexandrino Moreira)

Mirrors nº 3 de Christian Petzold, Pequenas Criaturas de Anne Guimarães, Três Vezes Adeus de Isabel Coixet, Gonzaguinha da maior liberdade de Susanna Lira (Cine Líbero Luxardo).

Manhandled de Allan Dwan. Com Gloria Swanson. Homenagem ao cinema silencioso. Acompanhamento musical ao vivo com Paulo José Campos de Melo (Cineclube SINDMEPA. Terça-feira, Dia 28/9. Horário: 19h. Entrada gratuita).

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