Cláudia Raia fala sobre carreira, maternidade e o segredo do eterno namoro com o marido

Lorena Filgueiras

Cláudia Raia é multifacetada. Com mais de 40 anos de carreira, a artista começou a carreira já nas passarelas. Era grandona para a pouca idade – o que lhe valeu a autocrítica de “desengonçada”. Puro engano. Começou a dançar e encontrou a primeira de suas vocações: a ponta da sapatilha. Estudou fora do Brasil, voltou e aos 17 anos, estreou na TV ao lado de Jô Soares, em um quadro do programa “Viva o Gordo”. O riso fluía facilmente com ela; a interpretação era natural. Daí Cláudia surpreendeu de novo, no papel de Tancinha, na novela Sassaricando e deixou os telespectadores impressionados com sua interpretação do presidiário trans (quando o termo sequer era usado) Tonhão. As facetas de Cláudia Raia são inúmeras e muito surpreendentes. Atualmente, está no ar, na novela “Verão 90”, em que vive Lidiane, uma ex-atriz pornô pouco conformada com o ostracismo e que tenta, a qualquer custo, projeção por meio da filha, Manuzita (vivida pela atriz Isabelle Drummond) – o que lhe rende cenas engraçadíssimas, muito espirituosas. Na vida real, Cláudia é igualmente bem humorada, feliz e de bem com a vida. E ela não para! Como empresária e gestora cultural, vive com um pé no palco e já se planeja para sair em turnê com o marido, o ator Jarbas Homem de Mello. E foi meio que assim, sem parar, mas com uma enorme disposição em nos atender e com o sorrisão característico no rosto, que ela conversou conosco sobre carreira, maternidade, a perda recente da mãe e sobre o casamento (“um eterno namoro”) com Jarbas.  

Cláudia Raia e o marido Jarbas (Tato Belline)

Troppo + Mulher: A Lidiane é maravilhosa e te sinto muito à vontade no papel. Quanto tens dela? E quanto a Lidiane tem de ti?
Cláudia Raia: Eu estou realmente muito à vontade com esta personagem. Me apaixonei por Lidiane no momento em que a conheci. E desde então, aceitei o desafio que é trazer ela à vida com todos os seus tons, suas nuances. Quando recebemos um personagem, vamos procurar no nosso repertório quais partes vão ser componentes daquela pessoa que está nascendo. E o ofício do ator é esse: juntar vários retalhos e dar a eles a cara de uma outra pessoa. É um trabalho artesanal mesmo. Com Lidiane, não foi diferente. Ela tem de mim uma vivacidade, uma vontade de ver as coisas acontecerem. Ela tem as referências (risos). Porque o sotaque, os trejeitos... Tudo isso é inspirado em pessoas reais, que eu conheço e amo. É uma forma de prestar minha homenagem. O jeito como ela fala "tudo bom", por exemplo, é uma referência a Tata Werneck. O sotaque dela vem dos meus filhos, da minha assessora. É uma loucura. E acho que somos apaixonadas: pela vida, por viver e pelos filhos. Não exercemos a maternidade da mesma forma, mas somos apaixonadas e queremos sempre o melhor para nossos filhos.

T+M: Inclusive, a Lidiane é uma mãe (à maneira dela) muito sensacional. Eu me divirto muito com as cenas dela! Seus filhos nasceram neste meio e te pergunto: eles têm inclinação artística? Acreditas que um deles (ou ambos) serão artistas?
CR: Não sei. Eu jamais os obrigaria a seguir qualquer caminho que não fosse aquele que eles queiram. Eles cresceram no meio artístico, claro, mas nunca houve uma pressão para que seguissem a carreira. Enzo é empresário, faz um trabalho lindo na Dadivar, uma startup de tecnologia que promove arrecadação de fundos a serem doados a projetos sociais. E a Sophia ainda está se descobrindo, descobrindo seu caminho. E eu estou aqui para orientar e apoiar os dois.

T+M: Vi uma entrevista sua, sensacional, em homenagem ao dia das mães, em que você fala como a maturidade a preparou para a maternidade e, depois que você deu à luz seus dois filhos, você acabou “adotando” muitos outros/outras filhos/as. Daí li também que você congelou óvulos – há chances de você ser mãe novamente? Se sim, como seria mamãe Cláudia Raia nos tempos atuais?
CR: Sim, há chances. Penso na possibilidade de ser mãe novamente e achei que seria interessante ter a opção dos óvulos congelados. Ainda não tenho uma data, um prazo. A mulher de 50 anos de hoje não é aquela mulher de 50 de 30 anos atrás. Estamos no nosso melhor momento, no auge. Tive um exemplo disso. Quando nasci, minha mãe tinha 44 anos. E isso foi há 52 anos. Tudo é possível. Eu sou muito realizada com Enzo e Sophia. Mas encararia de coração aberto ser mãe de novo. Sei que passar por essa experiência hoje seria diferente. A maturidade traz uma segurança, uma tranquilidade muito grande. E isso interfere também na maneira como exercemos a maternidade. Já ter passado por essa experiência linda duas vezes também muda a forma como encaramos. A maneira como lidar com a criança... Tudo isso é diferente. 

T+M: Você há pouco tempo se despediu da sua mãe, Odete. Era perceptível que vocês tinham uma relação incrível, de irmãs, confidentes. Qual o maior ensinamento (ou os mais importantes) que ela legou para você?
CR: Minha mãe é minha grande inspiração. Ela sempre me incentivou a buscar os meus sonhos, a realizá-los, a ser independente e ir atrás do que eu quisesse. Ela sempre esteve ao meu lado, me orientando, apontando o caminho e abrindo espaço para eu fosse quem eu quisesse ser, para que eu errasse, aprendesse com os erros, levantasse e seguisse em frente. Acho que esse ensinamento é tão valioso. Isso é uma prova de amor tão grande: você dar liberdade para o outro se tornar a melhor versão de si mesmo. Isso eu levo sempre comigo.   

T+M: Diz-se muito que, hoje, os cinquenta [anos] são os novos 40 – o que melhorou em ti e para ti com o passar do tempo?
CR: Como disse, a mulher de 50 anos de hoje não é aquela mulher de 50 de 30 anos atrás. Estamos no nosso melhor momento. Mulheres de 50 estão no seu auge, estabilizadas financeiramente, afetivamente e, mais do que isso, experientes, sábias. Eu costumo dizer que hoje vivo no modo econômico. Sei definir o que merece minha atenção, não tenho mais aquele ímpeto de fazer tudo ao mesmo tempo, no sentido de assumir compromisso que talvez me desgastem ou algo que poderia ser resolvido em outra hora. Continuo fazendo tudo que quero, me divido para dar conta de tudo que planejo, e não é pouco coisa. Mas sei quais são minhas prioridades, o que merece minha atenção e em qual momento. Isso é algo que se conquista vivendo e estando muito aberta e atenta. 

T+M: Falando em passar o tempo, vi que a Lidiane vai repaginar o visual completamente! Rica, mais fina e com novos looks – como tem sido essa expectativa? O que podemos esperar pra ela? Preferes o visual ‘pantera’ dela ou a nova fase rica?
CR: Estou ansiosa para que o público veja essa nova Lidiane. Já comecei a gravar. É interessante como o cabelo e o figurino fazem toda diferença. Não posso adiantar nada. Será que Lidiane também vai agir diferente? Como será essa nova fase? Tem que continuar acompanhando "Verão 90" para saber de tudo (risos).

Cláudia Raia (Tato Belline)

 

T+M: Aliás, as tuas cenas com a Manuzita são hilárias e maravilhoasas – a química com a Isabelle foi imediata?
CR: Foi imediata. Fico impressionada de como nos demos tão bem. Isabelle é uma jovem tão comprometida com o ofício, uma excelente atriz, dedicada. Ela é um grande presente que "Verão 90" me deu, e já levei para a vida. Ela é também minha filhota do coração, já entrou para a família. Temos um cumplicidade, um amor e um carinho muito grandes fora de cena. Isso transborda e chega na TV, com as personagens. O público percebe.

T+M: Entrevistei o Jarbas há alguns meses, durante o espetáculo Chaplin, e ele se derreteu ao falar de ti. Disse que és uma trabalhadora abnegada da cultura e disse ainda que ele bloqueia um dia na agenda de vocês, para que possam se curtir. Te pergunto, como é trabalhar pela cultura do país no cenário atual?
CR: Acho que agora mesmo é que não podemos parar. Arte é tão importante. Arte é uma maneira de apreendermos nossa realidade, refletir sobre ela e, a partir daí, transformá-la. Arte é um meio de preservação e transmissão da nossa cultura. Arte é a nossa história. Arte diz tanto sobre a gente. E não podemos abrir mão de nós mesmos, jamais. Então, é o momento de seguir em frente, fazendo o que acredito e continuar trabalhando firme para arte e cultura no país. 

“A verdade é que escolhemos diariamente continuar dividindo essa caminhada. E essa escolha envolve aprender a ceder, aprender a falar o que é importante, a ter transparência, confiança... E a se divertir no processo”

T+M: Quais teus planos para o futuro?
CR: Muitos (risos)! Para o futuro mais imediato, é um musical de comédia estrelado por mim e pelo Jarbas, "Conserto para dois", com um texto delicioso da Ana Toledo. Nossa ideia é viajar o Brasil com esse espetáculo, algo que já planejamos há um tempo.

T+M: Por fim, já que é edição especial do dia dos namorados: qual é o segredo de uma relação feliz?
CR: Relação feliz não tem segredo. É um comprometimento das duas partes. No meu caso e do Jarbas, temos muitos interesses em comum, trabalhamos juntos e adoramos isso... Ou seja, dividimos muitos gostos e interesses. Mas ter coisas em comum e amar são os primeiros passos para estar junto. A verdade é que escolhemos diariamente continuar dividindo essa caminhada. E essa escolha envolve aprender a ceder, aprender a falar o que é importante, a ter transparência, confiança... E a se divertir no processo. Uma relação feliz, para mim, é aquela que tem seus dias bons e seus dias mais complicados também, claro. Mas, mesmo nesses dias e nesses momentos, a gente escolhe seguir junto porque é mais bonito, o caminho fica mais leve!

O Liberal
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