Para quem participa sobre duas rodas, o Círio de Nazaré também se vive no movimento. Bicicletas e motocicletas ganham espaço entre as diferentes formas encontradas pelos devotos para expressar a fé, agradecer pelas graças recebidas e pedir proteção para os caminhos que ainda serão percorridos. No meio das ruas de Belém, a devoção se manifesta em pedais, encontros, sorrisos e abraços entre pessoas que muitas vezes não se conhecem, mas compartilham o mesmo sentimento.
Há 12 anos, a pedagoga Ana Hage, de 53 anos, participa da Ciclo Romaria. A cada edição, ela encontra na bicicleta uma maneira de agradecer a Nossa Senhora de Nazaré pelas bênçãos recebidas durante o ano. A experiência, porém, vai além do deslocamento pela cidade: é também um momento de acolhimento, convivência e renovação da fé, herdada desde a infância em uma família católica.

A fé que acompanha cada pedalada
Ana participa todos os anos da Ciclo Romaria e considera a experiência uma pequena forma de retribuir as graças que recebe. Para ela, estar entre os ciclistas durante o Círio é uma maneira de falar sobre Nossa Senhora, compartilhar a devoção e agradecer.
“Como ciclista, eu participo do Círio de Nazaré há 12 anos. Eu participo todo ano da Ciclo Romaria. Isso é uma forma de agradecer para Nossa Senhora de Nazaré todas as graças que nós recebemos durante o ano”, afirmou.
A relação com a bicicleta também acrescenta uma dimensão particular à experiência. Acostumada a pedalar pela cidade e por outros lugares ao longo do ano, Ana sabe dos riscos enfrentados por quem utiliza esse meio de transporte. Por isso, durante a romaria, o pedido de proteção também acompanha o agradecimento.
“A gente sabe que é perigoso o trânsito para o ciclista. Então a gente tem que pedir para Nossa Senhora nos abençoar na nossa saída e nos trazer de volta para nossas casas de segurança”, disse.
A oração, nesse contexto, se mistura ao próprio ato de pedalar. Cada quilômetro percorrido passa a representar também uma entrega, um pedido e uma forma de gratidão.
Quando a cidade se transforma
Durante a Ciclo Romaria, Ana percebe uma mudança no ambiente e, principalmente, na maneira como as pessoas se relacionam. O encontro entre ciclistas cria uma espécie de comunidade momentânea, em que desconhecidos rapidamente passam a compartilhar histórias e sentimentos.
“É uma maneira também de a gente se comunicar com as outras pessoas, ter um acolhimento, porque você como ciclista, participar, a cidade muda, fica tudo mais bonito”, declarou.
O acolhimento, para ela, é mútuo. O simples contato entre pessoas durante o percurso cria novas relações e reforça a sensação de pertencimento à celebração.
“Você não conhece a pessoa, mas daqui a algum instante você já está conversando, você já está querendo saber por que ela está ali, e é muita emoção”, contou.
A experiência também chama a atenção pela inclusão. Ana observa entre os participantes pessoas com deficiência que, mesmo diante das dificuldades, encontram maneiras de participar pedalando.
“O que eu vejo assim são as pessoas, algumas pessoas que têm alguma deficiência, e mesmo assim elas conseguem participar pedalando, participando da Ciclo Romaria”, revelou.

Três ou quatro horas que parecem pouco
A emoção atinge um dos pontos mais fortes no momento em que os ciclistas estão próximos da Basílica de Nazaré, especialmente na saída da romaria. Para Ana, é difícil traduzir em palavras o que sente ao estar perto da imagem de Nossa Senhora.
“A emoção que a gente tem, eu ainda não tenho como... Mas é muita emoção, é muita emoção de a gente estar ali pertinho dela”, afirmou.
Segundo ela, a intensidade da experiência faz com que as três ou quatro horas de duração da Ciclo Romaria pareçam insuficientes diante de tudo o que o devoto gostaria de agradecer.
“Como eu te falei, a Ciclo Romaria dura umas três, quatro horas, e isso é tão pouco para a gente agradecer. É muita emoção, é muita emoção”, declarou.
A chegada tranquila à frente da Basílica representa, para Ana, o resultado de uma caminhada que envolve fé e entrega.
“Tudo envolve emoção, você poder participar e poder chegar com tranquilidade aqui na frente da Basílica, e é uma doação que você faz, uma doação de fé e prosperidade para Nossa Senhora”, disse.
Uma devoção aprendida em família
A relação de Ana com o Círio não começou sobre uma bicicleta. A devoção a Nossa Senhora de Nazaré acompanha sua vida desde a infância e foi construída dentro de casa, a partir do exemplo dos pais.
“De forma geral, no Círio eu participo desde criança, porque a minha fé com Nossa Senhora começou em casa, de vir com uma família católica. Os meus pais são católicos, e eu aprendi com eles a amar o Círio, Nazaré e Nossa Senhora”, contou.
Ao longo dos anos, essa fé assumiu diferentes formas de participação. Além da Ciclo Romaria, Ana acompanha a Trasladação e integra a Pastoral da Acolhida durante a Semana do Círio, recebendo os romeiros que chegam à Basílica.
Assim, a bicicleta tornou-se mais uma maneira de viver uma devoção que já atravessa gerações. A tradição permanece, mas encontra novos caminhos para se expressar.
Novas formas de viver uma tradição
As procissões sobre duas rodas mostram que a devoção ao Círio pode ocupar diferentes espaços sem deixar de lado sua essência. Pedalar, participar de grupos, encontrar outros devotos e percorrer as ruas de Belém tornam-se maneiras contemporâneas de manifestar uma fé construída a partir de antigas tradições.
Para Ana, a ciclo romaria reúne justamente esses elementos: agradecimento, proteção, convivência e acolhimento. Mais do que uma atividade esportiva, o percurso é compreendido como uma experiência espiritual.
“Participar do ciclo e falar de Nossa Senhora é muita emoção, porque eu sou católica, a minha família é uma família católica”, afirmou.
