DOM · 18 OUT 2026Assine
O Liberal 80 anos

CÍRIO DE NAZARÉ 2026

Romaria da Acessibilidade transforma fé em espaço de pertencimento no Círio

Procissão de 1,45 quilômetro reúne pessoas com deficiência e mobilidade reduzida em um percurso adaptado, com pontos de apoio, recursos de acessibilidade e atuação de voluntários e profissionais

Jéssica Nascimento

8 de outubro de 2026 às 14:25

Para quem vive com deficiência ou mobilidade reduzida, participar do Círio de Nazaré pode significar enfrentar barreiras que vão muito além da distância percorrida. Calçadas irregulares, falta de estrutura, excesso de pessoas e dificuldades de comunicação podem transformar um momento de fé em uma experiência de limitações. É para romper parte dessas barreiras que a Romaria da Acessibilidade foi criada: uma procissão de 1,45 quilômetro planejada para que pessoas com diferentes necessidades possam expressar a fé com mais autonomia, segurança e pertencimento.

A iniciativa nasceu da união de dez entidades e representatividades ligadas às pessoas com deficiência. O projeto foi apresentado à Diretoria da Festa de Nazaré, que passou a apoiá-lo a partir de 2023. Desde então, a romaria se consolidou como um espaço de participação e também de visibilidade para a população com deficiência dentro da programação do Círio.

Um percurso pensado para diferentes ritmos

A terapeuta ocupacional Adeline Oliveira, integrante da comissão litúrgica e de acessibilidade comunicacional da Romaria da Acessibilidade, explica que a estrutura começa na escolha do próprio trajeto. O percurso foi planejado para ser o mais próximo e arborizado possível, além de contar com pontos de apoio distribuídos ao longo do caminho.

Nesses locais, os participantes encontram água, cadeiras e espaços para descanso, além de profissionais preparados para oferecer diferentes formas de atendimento. A proposta é respeitar o ritmo e a funcionalidade de cada romeiro.

Adeline Oliveira.
Adeline Oliveira. (Foto: Igor Mota | O Liberal)

“1,5 km não é muita coisa. Mas, a nossa Romaria tem uma duração ideal, em que as pessoas vão no seu ritmo, na sua funcionalidade presente”, explica Adeline.

A acessibilidade, porém, não se limita à estrutura física. A organização também incorporou recursos de acessibilidade comunicacional. No trio elétrico, onde são conduzidas as orações e os cânticos, há intérpretes de Libras e profissional responsável pela audiodescrição ao vivo do percurso.

“A nossa programação toda é pensada também voltada para a acessibilidade comunicacional”, afirma a terapeuta ocupacional.

A participação de pessoas com deficiência na própria organização e condução da romaria é outro elemento central da iniciativa. Segundo Adeline, elas não estão apenas entre os participantes, mas também ocupam funções na condução do cerimonial e da programação litúrgica.

Fé com autonomia e segurança

A criação da romaria responde a uma necessidade que, para quem participa, é concreta: poder viver a fé sem que a deficiência seja transformada em impedimento.

Gleuciane Simão, de 39 anos, tem deficiência visual e participa da Romaria da Acessibilidade desde a primeira edição. Comunicadora e integrante de um ministério de música, ela recorda que a ideia de uma procissão voltada a pessoas com deficiência e idosos já havia passado por sua cabeça anos antes.

Gleuciane Simão e Zilvandro Mendes.
Gleuciane Simão e Zilvandro Mendes. (Foto: Igor Mota | O Liberal)

Ela conta que, em 2010, ao participar de grandes procissões, começou a questionar por que não havia um espaço específico que considerasse as necessidades desse público. Por isso, quando soube da criação da romaria, recebeu a notícia como uma realização.

“Quando recebi essa notícia, foi assim, uma graça, uma graça divina”, conta.

A relação de Gleuciane com a fé também está ligada à própria história de vida. Ela nasceu no interior do Pará e teve catarata diagnosticada ainda aos dois meses de idade. O tratamento exigiu que a família deixasse Tomé-Açu e buscasse atendimento em Belém.

Depois de sucessivos procedimentos e complicações, ela perdeu a visão. A experiência, no entanto, não a afastou da participação religiosa. Ao contrário, a fé permanece presente na rotina, na comunicação com a comunidade e na música.

Quando o Círio também é memória de família

Para Gleuciane, o Círio não representa apenas uma manifestação religiosa. É também uma memória construída com a família e marcada por momentos de dificuldade e esperança.

Ela lembra que começou a acompanhar o Círio em 2004 e chegou a participar da Grande Procissão, aproximando-se da corda. A experiência, porém, também revelou as dificuldades enfrentadas por quem possui limitações de mobilidade ou necessita de condições específicas de acessibilidade.

“Cheguei bem perto da corda. E era um sufoco grande. Então, o Círio representa muito para mim. Tanto minha vida quanto minha família”, relata.

A devoção também ganhou força durante um período delicado vivido pelo marido, que sofreu uma fratura na perna. Segundo Gleuciane, naquele momento, as orações a Nossa Senhora estavam associadas ao pedido pela recuperação dele.

“O Círio representa muito mais porque é a minha família também”, resume.

Uma procissão que também comunica

A experiência da Romaria da Acessibilidade mostra que inclusão não depende apenas de permitir a presença das pessoas com deficiência, mas de criar condições para que elas participem efetivamente.

A audiodescrição, por exemplo, permite que pessoas com deficiência visual tenham informações sobre o que acontece durante o percurso. A interpretação em Libras amplia o acesso às mensagens para pessoas surdas. Os espaços de descanso e os pontos de atendimento consideram as necessidades de quem não consegue acompanhar uma caminhada prolongada.

Há ainda adaptações pensadas para pessoas com sensibilidades específicas. Adeline cita como exemplo uma mudança no toque do sino da igreja durante o dia da romaria.

(Foto: Igor Mota | O Liberal)
(Foto: Igor Mota | O Liberal)

“No dia da Romaria, o sino não traz todas as badaladas, ele badala uma vez e pronto, justamente para não impactar sensorialmente em pessoas com sensibilidade auditiva”, explica.

Para ela, iniciativas como essa sinalizam uma mudança de percepção dentro da própria comunidade religiosa.

“A acessibilidade e a inclusão é dever de todos, não só dessa comissão, especificamente, que organiza”, afirma.

Entre barreiras físicas e atitudinais

Apesar dos avanços, a organização reconhece que ainda existem obstáculos para que a participação das pessoas com deficiência seja ampliada no Círio.

Um dos principais desafios está fora do controle direto da organização da romaria: as condições das ruas e calçadas. A acessibilidade arquitetônica do espaço urbano pode determinar se uma pessoa conseguirá chegar, circular e participar com autonomia.

“O primeiro desafio está na questão da acessibilidade física arquitetônica”, aponta Adeline.

Há também uma barreira menos visível, mas igualmente importante: a atitudinal. Para a integrante da comissão, ainda é necessário ampliar a compreensão da sociedade sobre a importância de construir espaços verdadeiramente acessíveis.

“Ao mesmo tempo que a gente tem muitas pessoas que acolhem, outras pessoas não entendem, não compreendem a importância de ter uma romaria acessível para as pessoas”, afirma.

Pertencimento que ultrapassa o percurso

Entre os participantes está também Zilvandro Mendes, de 44 anos, marido de Gleuciane. Técnico em Segurança do Trabalho e estudante de Direito, ele tem baixa visão e é renal crônico. Há 18 anos realiza hemodiálise e, desde a primeira edição, participa da Romaria da Acessibilidade.

A presença na procissão, para ele, está diretamente ligada à devoção a Nossa Senhora e ao significado que o Círio possui para o Pará.

“Eu participo da Romaria desde o início. Desde a primeira Romaria eu venho participando”, conta.

Quando fala sobre o significado do Círio, Zilvandro resume a experiência em palavras que traduzem a dimensão religiosa da manifestação para os participantes.

“O Círio para mim é tudo o que representa a Nossa Senhora no nosso Estado. Representa para mim o Círio. É graça, é bênção. É tudo que há de divindade”, disse.