Quando outubro se aproxima e Belém começa a mudar o ritmo para receber o Círio de Nazaré, uma preparação silenciosa também ganha força dentro de conventos, escolas, comunidades e casas religiosas. Antes de ocupar as ruas, muitas religiosas vivem a festividade a partir da oração, das peregrinações, da acolhida aos fiéis e de atividades de evangelização.
Para a irmã Maria Rejiane da Mata Dias, da Companhia das Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo, o Círio não pode ser resumido a um único dia. A experiência, segundo ela, é construída ao longo de um período de preparação que envolve a vida comunitária e a espiritualidade.

“O Círio, ele não é um dia, né? Mas é uma construção”, explica.
Essa construção começa nas peregrinações, nas visitas à Basílica de Nossa Senhora de Nazaré e nos momentos de oração que antecedem a grande procissão. Nas escolas mantidas pela congregação, a preparação também faz parte da rotina, aproximando estudantes da dimensão religiosa e cultural da festividade.
É uma preparação que, para as religiosas, nasce da própria espiritualidade mariana vivida durante todo o ano.
Maria como inspiração para o serviço
A devoção mariana ocupa um lugar particular na história das Filhas da Caridade. A congregação tem uma relação histórica com Nossa Senhora das Graças, cuja aparição a Catarina Labouré, em 1830, marcou a espiritualidade da Companhia.
“Então, pra nós, os nossos fundadores nos consagraram a Maria como única Mãe da Companhia”, conta a irmã Rejiane.

Por isso, participar do Círio também significa reafirmar essa relação com Maria. A devoção a Nossa Senhora de Nazaré, para a religiosa, não se limita à expressão de fé durante a festividade. Ela se relaciona diretamente com a vocação e com a disposição diária para servir.
A religiosa estabelece essa relação a partir do “sim” de Maria. Assim como a jovem de Nazaré respondeu ao chamado de Deus, as consagradas procuram renovar diariamente o compromisso com sua missão.
“Com Maria, a gente aprende a dizer sim todos os dias pra nossa missão de servas”, afirma.
Esse serviço se manifesta em diferentes áreas: na educação, na saúde, nas pastorais e na atuação junto à Igreja e à sociedade.
Uma casa aberta aos peregrinos
Durante o período mais intenso do Círio, a missão das religiosas também passa pelo acolhimento. As casas da congregação recebem peregrinos que chegam a Belém para participar das festividades.
São pessoas que procuram hospedagem e apoio durante os dias de maior movimento. Nesse contexto, gestos aparentemente simples assumem uma importância especial. Entre eles está a distribuição de água aos peregrinos.
“Penso que a nossa casa é um local que acolhe e se dispõe a ajudar. Principalmente com a doação de água, que é o que a gente precisa muito nesse período”, relata a irmã Rejiane.
A proximidade com a cidade e com a manifestação religiosa também produz, entre as religiosas, um sentimento de pertencimento.
“Estarmos em Belém é um diferencial muito grande”, afirma. Para ela, viver na capital paraense durante o Círio significa estar inserida em uma experiência coletiva de fé que toma conta da cidade.
O Círio também entra na escola
Nas instituições de ensino ligadas à congregação, a festividade ganha uma dimensão própria. Os estudantes são convidados a participar de momentos de oração, reflexão e caminhada.
Na sexta-feira que antecede o Círio de Belém, a escola realiza sua própria caminhada. Logo pela manhã, estudantes e integrantes da comunidade escolar saem pelas proximidades da instituição, rezando, cantando e refletindo sobre o tema do Círio daquele ano.
A iniciativa aproxima crianças e adolescentes da tradição paraense, mas também procura apresentar a dimensão religiosa da festividade.
A caminhada escolar é, dessa maneira, uma extensão da missão educativa das religiosas: formar não apenas estudantes, mas pessoas capazes de reconhecer no serviço ao outro uma dimensão concreta da fé.
Uma lembrança do primeiro Círio
Entre tantas experiências vividas ao longo dos anos, uma permanece especialmente viva na memória de irmã Rejiane. Foi em 2004, quando ela ainda era irmã do seminário e participava de seu primeiro Círio.
Ao observar as famílias que seguiam juntas para a procissão, ela ouviu uma frase que a marcou. Uma família explicou que estava ali para agradecer.
“Nós viemos agradecer e não viemos pedir nada, porque nós somos uma família de fé”, lembra.
O testemunho chamou sua atenção porque contrariava uma percepção comum sobre as motivações dos devotos. Para aquela família, estar no Círio não era apenas pedir uma graça. Era agradecer pela própria experiência de fé.
Havia crianças e adolescentes entre os peregrinos. Para a religiosa, aquela cena representava também a transmissão da fé entre gerações.
A família que caminha junta pelas ruas de Belém torna-se, nesse sentido, uma espécie de testemunho vivo de uma devoção que não se encerra em uma geração. Crianças crescem acompanhando os pais, aprendendo orações, cantos e gestos que fazem parte da experiência do Círio.
Uma fé que se transforma em serviço
Na tradição vicentina, a devoção e o serviço ao próximo estão profundamente relacionados. Para a irmã Rejiane, pertencer à família de São Vicente de Paulo significa assumir uma disposição permanente para servir.
Esse princípio atravessa também o trabalho desenvolvido na educação.
A orientação dada aos estudantes é que a formação profissional nunca deve afastá-los das pessoas mais vulneráveis. Seja como médicos, professores ou em qualquer outra profissão, eles são incentivados a compreender o trabalho também como uma forma de serviço.
“Eu não preciso de dinheiro pra dizer que eu vou ser um bom profissional. Eu preciso ter muito amor no coração”, afirma.
Nesse ensinamento, a figura de Maria aparece novamente como referência. A escola procura ajudar os estudantes a olhar para Jesus e compreender, a partir da fé cristã, a presença de Maria como mãe.
Devoção que aponta para a missão
O mês do Círio também coincide com um período de forte significado para a Igreja Católica: o mês missionário. Para a irmã Rejiane, essa coincidência ajuda a compreender a dimensão da devoção mariana.
Ser devoto de Maria, segundo ela, significa reconhecer que a figura de Nossa Senhora conduz os fiéis a Jesus e, a partir dele, à missão.
“Maria nos conduz a Jesus”, resume.
