O Círio de Nazaré transforma Belém todos os anos. Durante a festividade, a cidade se enche de promessas, homenagens, gestos de fé e demonstrações de solidariedade. Mas, para além das ruas tomadas pelos romeiros e dos dias de procissão, existe uma outra dimensão da devoção que acontece silenciosamente durante todo o ano: o cuidado com quem precisa.
Em espaços ligados à Basílica Santuário de Nazaré, ações sociais atendem diferentes públicos e transformam a fé em trabalho cotidiano. São projetos voltados para idosos, crianças, adolescentes e também para a qualificação profissional e a valorização de colaboradores.
Há nove anos atuando nas obras sociais da Basílica, César Lima é supervisor de Projetos Sociais da Unidade Nazaré. Segundo ele, o trabalho tem como base o Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos, previsto na política de assistência social. Na Unidade Nazaré, um dos públicos atendidos é o de pessoas idosas.
“Eu penso que não se restringe somente à religião católica. O Círio, apesar de ser essa grandiosidade toda, agrega todas as religiões hoje em dia”, afirma César.
A diversidade religiosa, segundo ele, não impede que o espaço seja construído a partir de valores como acolhimento, respeito e cuidado.
Quando o silêncio vira solidão
Entre os idosos atendidos pela Unidade Nazaré, muitos vivem sozinhos. Alguns perderam a convivência cotidiana com familiares; outros enfrentam situações de afastamento ou abandono.

A consequência pode ser o isolamento social. “A depressão, a solidão abatem”, resume César.
É nesse ponto que o projeto procura atuar. Mais do que oferecer atividades, a proposta é criar um espaço de convivência, no qual os idosos possam estabelecer relações, participar de ações coletivas e sentir-se pertencentes a um grupo.
O atendimento inclui acompanhamento psicológico e social, além das atividades desenvolvidas pelos educadores.
Há dança, música, teatro e artes manuais.
São atividades que, além de ocupar o tempo, ajudam a reconstruir vínculos e criar uma rotina de encontros.
Segundo César, o impacto desse convívio pode ser percebido na própria reação dos participantes. Alguns chegam a demonstrar tristeza quando estão doentes e não conseguem comparecer.

“Eles se sentem até tristes quando estão doentes e não podem participar aqui do projeto”, disse.
Dona Inês e a transformação pelo acolhimento
Entre as histórias que marcaram a equipe está a de Dona Inês.
Quando chegou à Unidade Nazaré, ela apresentava, segundo César, um quadro grave de depressão e estava emocionalmente muito fragilizada.
O caminho de recuperação foi construído pouco a pouco, por meio do convívio e das atividades oferecidas pelo projeto.
Hoje, Dona Inês é presença constante.
“Ela hoje, por exemplo, é uma que nunca falta. Ela sempre se faz presente aqui nas nossas atividades”, conta César.
A história dela ajuda a mostrar uma característica fundamental do trabalho: a transformação não acontece necessariamente por meio de uma grande ação isolada. Pode começar com uma conversa, uma atividade, uma dança, uma música ou simplesmente com a possibilidade de estar entre outras pessoas.
Para a equipe, o acolhimento também significa olhar individualmente para cada participante.
“Temos esse olhar sensível em tratar cada um desses idosos”, explica César.
Uma rede que vai além da terceira idade
A Unidade Nazaré é apenas uma das frentes do Núcleo de Projetos Sociais da Basílica Santuário (NUPS).
A rede também inclui a Unidade São Rafael, em Ananindeua, que atende jovens de 6 a 17 anos; a Unidade Sorena, no bairro da Cremação, também voltada para essa faixa etária; e a Unidade Casulo, destinada a adolescentes de 13 a 17 anos.
Na Unidade Nazaré, além do grupo da pessoa idosa, são desenvolvidos projetos de qualificação profissional e valorização do colaborador.
Cada público possui necessidades específicas, mas há um princípio que atravessa as diferentes iniciativas: o fortalecimento de vínculos.
O trabalho é realizado por uma equipe multidisciplinar, formada por profissionais da coordenação e supervisão, assistentes sociais, psicólogos, educadores sociais e pedagogo social.
No grupo da pessoa idosa, essa estrutura permite acompanhar as atividades e as necessidades dos participantes de maneira integrada.
“Essa equipe multifuncional que interage é muito importante para que você perceba o resultado hoje do nosso trabalho”, afirma César.
A solidariedade que permanece depois do Círio
Durante o período do Círio, a disposição para ajudar costuma ganhar visibilidade. Campanhas, doações e ações beneficentes mobilizam devotos e visitantes que chegam a Belém.
Para César, porém, o desafio é transformar essa sensibilidade passageira em compromisso permanente.
É nesse ponto que entram iniciativas como as mantidas pelo Núcleo de Projetos Sociais e pela Associação de Devotos de Nossa Senhora de Nazaré (ADENAZA).
Os projetos dependem também da participação de pessoas que conhecem o trabalho e decidem contribuir para sua continuidade.
“O fiel, o visitante que realmente tem a sensibilidade em perceber que existem veículos que ajudam a tornar eficaz o nosso trabalho através do social”, diz César.
A lógica é fazer com que a emoção provocada pelo Círio não termine quando a berlinda deixa as ruas.
A solidariedade pode continuar no cotidiano, na forma de uma doação, do apoio a um projeto ou da disposição de conhecer uma realidade que muitas vezes permanece invisível.
Fé que acolhe
Embora os projetos estejam vinculados a uma instituição católica, César destaca que o atendimento não é restrito aos católicos.
O espaço de convivência recebe pessoas de diferentes religiões. A dimensão espiritual pode fazer parte da experiência, mas o trabalho social é construído sobre o acolhimento e a convivência.
Para César, a própria atmosfera do Santuário contribui para despertar essa sensibilidade.
“Eu acredito que seja isso. Eu acho que a sensibilidade de cada um em relação a essa necessidade social de acolher o próximo.”
Essa sensibilidade, na visão dele, é individual. Algumas pessoas chegam ao espaço já movidas pelo desejo de ajudar; outras conhecem os projetos durante o caminho. Em comum, está a possibilidade de transformar intenção em ação.