SAB · 10 OUT 2026Assine

CÍRIO DE NAZARÉ 2026

Projeto social mantém viva solidariedade do Círio durante todo o ano

Mantidos por iniciativas ligadas à Basílica Santuário, projetos sociais atendem crianças, adolescentes, idosos e trabalhadores e mostram que a solidariedade pode permanecer para além dos dias de procissão

Jéssica Nascimento

9 de outubro de 2026 às 08:32

O Círio de Nazaré transforma Belém todos os anos. Durante a festividade, a cidade se enche de promessas, homenagens, gestos de fé e demonstrações de solidariedade. Mas, para além das ruas tomadas pelos romeiros e dos dias de procissão, existe uma outra dimensão da devoção que acontece silenciosamente durante todo o ano: o cuidado com quem precisa.

Em espaços ligados à Basílica Santuário de Nazaré, ações sociais atendem diferentes públicos e transformam a fé em trabalho cotidiano. São projetos voltados para idosos, crianças, adolescentes e também para a qualificação profissional e a valorização de colaboradores.

Há nove anos atuando nas obras sociais da Basílica, César Lima é supervisor de Projetos Sociais da Unidade Nazaré. Segundo ele, o trabalho tem como base o Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos, previsto na política de assistência social. Na Unidade Nazaré, um dos públicos atendidos é o de pessoas idosas.

“Eu penso que não se restringe somente à religião católica. O Círio, apesar de ser essa grandiosidade toda, agrega todas as religiões hoje em dia”, afirma César.

A diversidade religiosa, segundo ele, não impede que o espaço seja construído a partir de valores como acolhimento, respeito e cuidado.

Quando o silêncio vira solidão

Entre os idosos atendidos pela Unidade Nazaré, muitos vivem sozinhos. Alguns perderam a convivência cotidiana com familiares; outros enfrentam situações de afastamento ou abandono.

(Foto: Wagner Santana | O Liberal)
(Foto: Wagner Santana | O Liberal)

A consequência pode ser o isolamento social. “A depressão, a solidão abatem”, resume César.

É nesse ponto que o projeto procura atuar. Mais do que oferecer atividades, a proposta é criar um espaço de convivência, no qual os idosos possam estabelecer relações, participar de ações coletivas e sentir-se pertencentes a um grupo.

O atendimento inclui acompanhamento psicológico e social, além das atividades desenvolvidas pelos educadores.

Há dança, música, teatro e artes manuais.

São atividades que, além de ocupar o tempo, ajudam a reconstruir vínculos e criar uma rotina de encontros.

Segundo César, o impacto desse convívio pode ser percebido na própria reação dos participantes. Alguns chegam a demonstrar tristeza quando estão doentes e não conseguem comparecer.

César Lima.
César Lima. (Foto: Wagner Santana | O Liberal)

“Eles se sentem até tristes quando estão doentes e não podem participar aqui do projeto”, disse.

Dona Inês e a transformação pelo acolhimento

Entre as histórias que marcaram a equipe está a de Dona Inês.

Quando chegou à Unidade Nazaré, ela apresentava, segundo César, um quadro grave de depressão e estava emocionalmente muito fragilizada.

O caminho de recuperação foi construído pouco a pouco, por meio do convívio e das atividades oferecidas pelo projeto.

Hoje, Dona Inês é presença constante.

“Ela hoje, por exemplo, é uma que nunca falta. Ela sempre se faz presente aqui nas nossas atividades”, conta César.

A história dela ajuda a mostrar uma característica fundamental do trabalho: a transformação não acontece necessariamente por meio de uma grande ação isolada. Pode começar com uma conversa, uma atividade, uma dança, uma música ou simplesmente com a possibilidade de estar entre outras pessoas.

Para a equipe, o acolhimento também significa olhar individualmente para cada participante.

“Temos esse olhar sensível em tratar cada um desses idosos”, explica César.

Uma rede que vai além da terceira idade

A Unidade Nazaré é apenas uma das frentes do Núcleo de Projetos Sociais da Basílica Santuário (NUPS).

A rede também inclui a Unidade São Rafael, em Ananindeua, que atende jovens de 6 a 17 anos; a Unidade Sorena, no bairro da Cremação, também voltada para essa faixa etária; e a Unidade Casulo, destinada a adolescentes de 13 a 17 anos.

Na Unidade Nazaré, além do grupo da pessoa idosa, são desenvolvidos projetos de qualificação profissional e valorização do colaborador.

Cada público possui necessidades específicas, mas há um princípio que atravessa as diferentes iniciativas: o fortalecimento de vínculos.

O trabalho é realizado por uma equipe multidisciplinar, formada por profissionais da coordenação e supervisão, assistentes sociais, psicólogos, educadores sociais e pedagogo social.

No grupo da pessoa idosa, essa estrutura permite acompanhar as atividades e as necessidades dos participantes de maneira integrada.

“Essa equipe multifuncional que interage é muito importante para que você perceba o resultado hoje do nosso trabalho”, afirma César.

A solidariedade que permanece depois do Círio

Durante o período do Círio, a disposição para ajudar costuma ganhar visibilidade. Campanhas, doações e ações beneficentes mobilizam devotos e visitantes que chegam a Belém.

Para César, porém, o desafio é transformar essa sensibilidade passageira em compromisso permanente.

É nesse ponto que entram iniciativas como as mantidas pelo Núcleo de Projetos Sociais e pela Associação de Devotos de Nossa Senhora de Nazaré (ADENAZA).

Os projetos dependem também da participação de pessoas que conhecem o trabalho e decidem contribuir para sua continuidade.

“O fiel, o visitante que realmente tem a sensibilidade em perceber que existem veículos que ajudam a tornar eficaz o nosso trabalho através do social”, diz César.

A lógica é fazer com que a emoção provocada pelo Círio não termine quando a berlinda deixa as ruas.

A solidariedade pode continuar no cotidiano, na forma de uma doação, do apoio a um projeto ou da disposição de conhecer uma realidade que muitas vezes permanece invisível.

Fé que acolhe

Embora os projetos estejam vinculados a uma instituição católica, César destaca que o atendimento não é restrito aos católicos.

O espaço de convivência recebe pessoas de diferentes religiões. A dimensão espiritual pode fazer parte da experiência, mas o trabalho social é construído sobre o acolhimento e a convivência.

Para César, a própria atmosfera do Santuário contribui para despertar essa sensibilidade.

“Eu acredito que seja isso. Eu acho que a sensibilidade de cada um em relação a essa necessidade social de acolher o próximo.”

Essa sensibilidade, na visão dele, é individual. Algumas pessoas chegam ao espaço já movidas pelo desejo de ajudar; outras conhecem os projetos durante o caminho. Em comum, está a possibilidade de transformar intenção em ação.