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CÍRIO 2026

Pequenos devotos expressam grande fé durante Romaria das Crianças

A procissão oficial do Círo de Nossa Senhora de Nazaré chega à 34ª edição neste domingo (18)

Lívia Ximenes e Dilson Pimentel

17 de outubro de 2026 às 19:00

Inspirados pelo pai, garotos seguem os passos na Guarda de Nazaré destinada a crianças e adolescentes, a Guarda Mirim

Inspirados pelo pai, garotos seguem os passos na Guarda de Nazaré destinada a crianças e adolescentes, a Guarda Mirim ( Foto: Foto: Igor Mota | O Liberal )

A Romaria das Crianças, uma das procissões oficiais do Círio de Nossa Senhora de Nazaré, reúne milhares de pequenos devotos há 36 anos. Nos Carros dos Anjos, crianças vestidas com roupas brancas e asas carregam a fé na Rainha da Amazônia, passada de geração em geração. Enquanto isso, na Guarda Mirim de Nazaré, elas, junto a adolescentes, expressam o amor a Maria por meio do serviço voluntário. Em 2026, o cortejo ocorre neste domingo (18), uma semana após a Procissão Principal.

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Os empresários Roberta Azevedo, de 34 anos, e Fernando Azevedo, de 44 anos, são devotos de Nossa Senhora e instruem os filhos no mesmo caminho. Pais de Fernando Azevedo Filho, de 7 anos, e Pedro Azevedo, de 2 anos, o casal passou por uma perda gestacional antes dos meninos nascerem — e a dor que surgiu tornou-se combustível da fé, fortalecida a cada dia.

“Fernandinho é promesseiro junto comigo. No segundo domingo de outubro, a gente entra de joelho, agarrado em uma imagem de Nossa Senhora, que compõe o altar do quartinho dele. Foi uma promessa que eu fiz para Nossa Senhora após várias ameaças de perda da gestação dele”, conta Roberta.

Roberta com o caçula, Pedro, nos braços, ao lado do marido, Fernando, e do filho mais velho, Fernandinho
Roberta com o caçula, Pedro, nos braços, ao lado do marido, Fernando, e do filho mais velho, Fernandinho (Foto: Igor Mota | O Liberal)

Confiança em meio ao medo

Antes de engravidar de Fernandinho, Roberta esperava por Laura. Emocionada, ela diz que a filha foi devolvida a Deus e, na gestação do menino, estava cercada por medo. Apesar do temor, a empresária confiou em Nossa Senhora e pediu pela intercessão.

A médica que acompanhava a gravidez informou a Roberta que, possivelmente, não haveria evolução, devido à primeira perda. “A gente tinha investigado e a gente descobriu um tumor no ovário esquerdo, no qual eu precisava fazer a retirada para poder tentar uma nova gestação. Quando eu finalizei os processos de exames para marcar a cirurgia, eu descobri que estava grávida dele e aí foi que eu entreguei para Deus e para Nossa Senhora”, lembra.

Quando estava de 37 semanas, considerado o início do 9° mês gestacional, Roberta teve pré-eclâmpsia. Uma das características da condição é o aumento da pressão arterial, o que provoca riscos à mãe e ao bebê. Em meio aos riscos de morte, a empresária se voltou a quem lhe atendeu em outros momentos.

“Eu, novamente, recorri à intercessão dela [de Nossa Senhora] e prometi para ela que, se o meu filho nascesse bem, saudável, eu iria, enquanto ele tivesse idade, pelo menos até os 10 anos, entrar com ele na Praça Santuário de joelhos. A gente faz isso até hoje”, explica.

Entrega total

Roberta conta que, após a perda de Laura, guardou alguns itens do enxoval no guarda-roupas e, junto a eles, deixou uma boneca do tamanho de bebê feita em cera, adquirida enquanto comprava a decoração do Círio. Na quarta-feira antecedente à Romaria das Crianças, ela ninou Fernandinho para o cochilo da tarde e acabou caindo no sono. O então momento de descanso foi o início de um despertar.

“Eu sonhei com uma criança. Certamente, naquele período, ela teria, aproximadamente, três anos de idade. Seria a idade que a Laura tinha. Essa criança correu em direção a mim, me abraçou e me chamou de mãe. Quando eu levantei a vista, eu vi Nossa Senhora. Nossa Senhora disse para mim que eu tinha que entregar ela de todo o meu coração para Deus”, afirma.

A empresária diz que não entendeu o sonho e nem lembrava da boneca. Ao compartilhar com o marido, ele apontou que havia um significado. Apesar do incômodo que sentia, Roberta não sabia o que fazer: “Na minha cabeça, no meu coração, eu já tinha aceitado ter devolvido ela para Deus.”

“Eu sei que um filho não substitui o outro, mas eu tinha ali o Fernandinho. Como eu costumo dizer, ele foi o meu primeiro milagre. Eu acredito que Deus tenha mandado ele para mim para me confortar, porque eu me questionei várias vezes o que eu poderia ter feito até descobrir a causa da perda”, fala.

A família é devota de Nossa Senhora de Nazaré e testemunha milagres
A família é devota de Nossa Senhora de Nazaré e testemunha milagres (Foto: Igor Mota | O Liberal)

Novamente, Roberta sonhou com a mesma menina e Nossa Senhora. Assustada e chorosa, ela questionou Deus sobre o que deveria fazer. Então, a resposta veio: a mãe, desprenteciosamente, encontrou a boneca de cera e sentiu que deveria colocá-la em um carro de promessas da Romaria das Crianças, como símbolo da entrega total.

Roberta decidiu que vestiria o filho mais velho de anjo e levaria a boneca. Ao final da procissão, ela deixou as roupas e a bebê de cera no carro de promessas na Praça Santuário.

“E, assim, todos os anos eu fiz. Quando teve a pandemia, eu fiz o aniversário dele no tema do Círio, porque ele também é de outubro. Vesti ele de promesseiro e de anjo, guardei a roupa. Quando tudo voltou ao normal, eu cumpri com o meu propósito”, ressaltou.

Em 2024, Pedro nasceu dois dias após a Procissão Principal da festa nazarena, em 15 de outubro. Devido ao pós-parto, Roberta não levou Fernandinho à Romaria das Crianças, mas os padrinhos garantiram que o propósito seria cumprido.

“Ano passado, eu vesti o Pedrinho de anjinho, trouxe a bonequinha de cera e, quando chegou no final da procissão, eu entreguei. Esse ano, nós já estamos nos preparando para fazer a mesma coisa de novo. Enquanto Deus me permitir, eu vou cumprir com esse meu propósito, que é uma forma de ter sempre a memória da minha filha viva entre nós”, conta.

De geração em geração

Há cinco anos, o engenheiro civil André Bordalo, de 49 anos, entrou para a Guarda de Nossa Senhora de Nazaré. Em 2023, ele recebeu um novo convite: ser diretor da Guarda Mirim, destinada a crianças e adolescentes de 6 a 16 anos. O chamado de Maria, como diz André, se estendeu ao restante da família.

“Automaticamente, ela [Nossa Senhora] me chamou e conduziu para chamar os meus filhos para a Guarda Mirim. Claro, nada por obrigação. Eles, na hora, aceitaram. Isso me emocionou muito, porque tem que ser uma coisa espontânea”, afirma.

André é pai dos gêmeos André Bordalo Filho e Davi Bordalo, de 16 anos, e do caçula Lucas Bordalo, de 15 anos. Junto à esposa, a administradora Renata Ribeiro, de 42 anos, o diretor vive dias de devoção, carinho e amor a Nossa Senhora. A família participa ativamente de ações da igreja.

“A gente tem que estar aqui por ela [Nossa Senhora], para servir, para se dedicar. Jesus se sacrificou por nós, então nós temos que fazer esse sacrifício”, aponta.

O diretor da Guarda Mirim explica que a atuação deve ser ao longo de todo o ano, não apenas durante o Círio. Em missas, romarias e procissões, sejam em Belém ou municípios do interior do Pará, os guardas devem acompanhar. A missão evangelística é a todo momento.

Após a entrada na Guarda de Nazaré, a família tornou-se mais unida, segundo o diretor: “A gente está mais tempo juntos, está fazendo coisas de pai e filhos. Isso é o que eu aprendi com os meus pais e a gente está, agora, tentando transmitir para eles, nesse mundo muito difícil que é hoje. A gente trabalha para unir a família, sob as bênçãos de Nossa Senhora e Jesus.”

Profunda gratidão

André expressa profunda gratidão a Deus ao ver André Filho, Davi e Lucas seguindo os passos que foram ensinados. O encontro com a Sagrada Família, para ele, é um ponto crucial, onde surge o desejo pleno de ser exemplo aos filhos. O diretor se emociona ao mencionar que toda ação dos meninos é espontânea e por querer próprio.

“Quando eu não estou em Belém ou viajando por algum motivo, eles pedem para a avó, para a tia levar eles para missas. Eles fazem parte e já se envolveram em outras atividades. Eles foram, fizeram, buscaram e aceitaram o chamado. Poderiam não querer, mas eles querem”, fala.

Além das missas, o trio também participa de atividades evangelísticas na escola, em retiros e em eventos na capital paraense e fora do estado. “Isso, para nós, é gratificante. É nosso exemplo. A gente quer fazer isso e eles estão seguindo, graças a Deus”, destaca André.

André Filho, André, Lucas e Davi se dedicam ao voluntariado durante todo o ano
André Filho, André, Lucas e Davi se dedicam ao voluntariado durante todo o ano (Foto: Igor Mota | O Liberal)

Seguindo o exemplo

Lucas, o caçula dos três, considera o voluntariado do pai e dos irmãos inspirador. André Filho e Davi já são supervisores, ou seja, cuidam dos menores e orientam os demais durante programações.

“Eu pretendo um dia ser supervisor e ser diretor da Guarda Mirim. Então, eu já consigo ter um exemplo de como é, como vai ser quando eu for, se Deus quiser. Eu já aprendo como é. Vejo eles fazendo, vejo eles trabalhando e vou aprendendo”, diz.

Para Lucas, o que o motiva a seguir firme é ver a família trabalhando em equipe: “Tem uma harmonia. Nós já nos conhecemos, é mais fácil de organizar, de conversar. A oração, também, fica mais íntima, mais ambiente familiar.”

Davi explica que, fora da quadra nazarena, os Guardas Mirins servem nas comunidades pertencentes à Basílica. Junto aos pais e irmãos, o garoto trabalha voluntariamente na Comunidade São Brás. Entre as atividade, está o auxílio durante a comunhão.

“Dentro do Círio, a gente ajuda no isolamento, no proceder da procissão. No Círio das Crianças de Santa Maria, a gente serve mais intensamente, faz o isolamento tanto dos de fora, de outras comunidades, quanto dos meninos da nossa”, detalha.

A preparação para o serviço é feita antecipadamente, com reuniões específicas para cada tópico, de acordo com Davi. Cuidado com crianças neurodivergentes ou que têm limitações físicas é um dos temas abordados, além da atenção com os perigos da rua e oferta de sombra, alimento e água aos pequenos.

André Filho fala que uma das vantagens de ser da Guarda Mirim é a proximidade com o ser católico. Por meio do grupo, as crianças e adolescentes pertencentes motivam umas às outras a seguirem na fé, com orações, terços, procissões e missas.

“Para mim é muito bom porque eu sinto que estou fazendo alguma coisa, que estou servindo a Nossa Senhora nas missas, na adoração e, principalmente, na procissão. A gente vê que a gente está fazendo parte de uma coisa importante, grande”, ressalta.

Ver outros meninos da mesma idade se dedicando ao serviço voluntário é inspirador para André Filho. O garoto é grato a Deus por ser parte da Igreja Católica e demonstra satisfação em atuar desde a adolescência no voluntariado para Maria.

Como ser parte da Guarda Mirim

Para ser parte da Guarda Mirim de Nossa Senhora de Nazaré é necessário ter entre 6 e 16 anos e ser batizado na Igreja Católica. A cada dois anos, o grupo abre inscrições para o curso de Aspirante da Guarda Mirim, pré-requisito essencial para ser considerado membro. A formação dura dois meses.

Após a conclusão e cumprindo todas as condições, como não faltar no curso, o aluno torna-se oficialmente Guarda Mirim. A próxima turma será aberta em 2028, com divulgação oficial no perfil do Instagram da Guarda de Nazaré (@guardadenazare).

Sobre a Romaria das Crianças

Décima procissão oficial do Círio 2026, a 34ª Romaria das Crianças é realizada neste domingo (18), em Belém. Todos os anos, a romaria reúne milhares de crianças, famílias e idosos em homenagem à Rainha da Amazônia. “A Romaria das Crianças é a procissão mais doce do Círio. É ali que muitos pequenos vivem o primeiro encontro com Nossa Senhora de Nazaré, vestidos de anjo, no colo dos pais ou de mãos dadas com os avós", disse Mário Tuma Jr., diretor de Procissões da DFN.

"Cada criança que acena para a berlinda carrega a fé de uma família inteira e é a garantia de que essa devoção vai continuar por muitas gerações. Preparamos tudo com muito carinho para que a manhã seja de alegria e segurança, e pedimos aos pais que mantenham as crianças sempre por perto, hidratadas e protegidas do sol”, afirmou.

A saída é às 8h da Praça Santuário, logo após a missa das 7h, presidida por Dom Julio Endi Akamine, Arcebispo Metropolitano de Belém. O trajeto segue pela avenida Nazaré, travessa 14 de Março, avenida Governador José Malcher e travessa Dr. Moraes, retornando à avenida Nazaré e à Praça Santuário, em um total de 3,7 km. A previsão é de cerca de duas horas de caminhada.

A Imagem Peregrina é conduzida no carro da Romaria das Crianças, com decoração de Paulo Morelli, acompanhada pelos quatro Carros dos Anjos, ícones da grande procissão do Círio, e por barcas com crianças da Guarda Mirim de Nazaré. Também participam crianças de projetos sociais da Basílica Santuário, além de escolas e paróquias.

A estimativa de público é de cerca de 350 mil pessoas, entre crianças e adultos, especialmente idosos. A primeira edição da Romaria das Crianças aconteceu em 21 de outubro de 1990, com cerca de 1.500 participantes. A romaria é organizada por uma comissão formada pela DFN, pela catequese, pela Pastoral da Acolhida e pela Guarda de Nazaré, formada em 2025.