À frente da Arquidiocese de Belém em um dos períodos mais emblemáticos da história do Círio de Nazaré, Dom Júlio Endi Akamine vive a missão de conduzir espiritualmente uma celebração que ultrapassa fronteiras e mobiliza milhões de pessoas. Em entrevista exclusiva ao Grupo Liberal, o arcebispo Metropolitano afirma que o Círio só pode ser compreendido plenamente a partir da fé cristã e da Palavra de Deus, ressaltando que a maior manifestação religiosa da Amazônia é, antes de tudo, uma celebração do mistério da salvação.
Ao longo da conversa, ele fala sobre a força da devoção mariana, a identidade amazônica, o papel da comunicação e deixa uma mensagem de preparação espiritual para todos que vão participar da festividade.
A responsabilidade de conduzir o Círio
Dom Júlio afirma que assumir a Arquidiocese de Belém trouxe uma responsabilidade que vai muito além da organização das celebrações. Segundo ele, a missão exige aprofundamento espiritual, estudo e oração.
"Não tem como a gente celebrar bem o Círio sem a Palavra de Deus. Não é somente uma festa de diversão ou de encontro das famílias. Tudo isso pode acontecer, mas esta não é a natureza do Círio", afirmou.
O arcebispo explica que a preparação envolve pesquisas teológicas, meditação bíblica e uma intensa vida de oração.
"Tenho que preparar as pregações, os retiros, os temas, revisar os textos. Tudo isso me obriga a uma oração mais prolongada e a um estudo mais pormenorizado. É uma obrigação, mas também um privilégio, porque com isso a gente cresce", destacou.

A força da Mãe que reúne multidões
Para Dom Júlio, a principal razão que faz o Círio reunir pessoas de diferentes gerações, histórias e até religiões está na figura materna de Nossa Senhora de Nazaré.
"Todos nós estamos ligados à mãe. Essa experiência está nas fibras mais profundas do nosso coração e da nossa alma", explicou.
Ele ressalta que Maria ocupa um lugar central no plano da salvação e representa também o modelo da Igreja.
"Nossa Senhora é o protótipo da Igreja. Ela é o modelo da Igreja", declarou.
Segundo o arcebispo, outro aspecto decisivo é o caráter comunitário da fé cristã.
"A salvação não é um assunto individualista. Deus não salva individualmente. Deus salva formando um povo para si. O Círio de Nazaré é uma expressão muito visível e muito forte deste mistério da salvação", ressaltou.
A fé concreta do povo amazônico
Ao comentar as milhares de promessas e demonstrações de devoção vistas todos os anos nas procissões, Dom Júlio destaca uma característica marcante da religiosidade amazônica.
"O povo amazônico é muito concreto na sua relação com Deus. São as necessidades do dia a dia: emprego, casa, doença, saúde, família", observou.
Segundo ele, é essa fé concreta que explica o esforço dos promesseiros.
"As pessoas fazem sacrifícios, vêm a pé, chegam com feridas nos pés, caminham quilômetros de joelhos porque desejam a graça de Deus nas situações concretas da vida", detalhou.
Fé que transforma a cultura
Além da dimensão religiosa, o Círio também é reconhecido como patrimônio cultural e símbolo da identidade amazônica. Para o arcebispo, fé e cultura são inseparáveis.
"Uma fé que não se encarna na cultura, uma fé que não produz cultura, é uma fé superficial", afirmou.
Ele explica que a evangelização acontece quando a mensagem cristã transforma as pessoas e, consequentemente, toda a sociedade.
"O Evangelho precisa penetrar e transformar a cultura por dentro. Não é um verniz colocado sobre as pessoas. É uma transformação profunda", explicou.
A herança da fé entre gerações
Dom Júlio também destaca o papel do Círio na transmissão da fé entre pais, filhos e netos. Para ele, a devoção mariana ajuda a construir uma identidade compartilhada.
"Se não cria uma identidade, a fé não se transmite de uma geração para outra", afirmou.
Na avaliação do arcebispo, a devoção a Nossa Senhora faz parte da própria formação cultural do Brasil.
"Mesmo aqueles que não são católicos, de alguma forma, a devoção à Nossa Senhora marca a identidade brasileira", acrescentou.
Participar de longe também é viver o Círio
Questionado sobre quem acompanha o Círio pela televisão, rádio ou internet, Dom Júlio afirma que a experiência pode ser igualmente profunda, desde que exista preparação espiritual.
"Pode ser uma participação plena e, às vezes, até com mais fruto, desde que haja essas disposições interiores", disse.
Ele reforça que a preparação antecede qualquer experiência significativa.
"Nada que seja importante na vida da gente acontece sem uma boa preparação", enfatizou.
O Círio continua durante todo o ano
Para a Igreja, o encerramento das procissões não significa o fim da experiência espiritual do Círio.
Segundo Dom Júlio, o tema escolhido para cada edição orienta a caminhada dos fiéis ao longo dos meses seguintes.
"O tema dá a direção da celebração do Círio e ajuda a prolongá-lo durante todo o ano, até o próximo Círio", explicou.
Comunicação a serviço da verdade
Ao comentar a trajetória da TV Liberal, que completou 50 anos em 2026, e do jornal O Liberal, que celebra 80 anos, o arcebispo destacou a importância dos meios de comunicação na cobertura da festividade.
Segundo ele, a principal contribuição do jornalismo é oferecer informação ética, verdadeira e de qualidade.
"Informar as pessoas é algo essencial", afirmou.
Ele defende que a cobertura do Círio deve ir além do registro dos acontecimentos.
"É preciso levantar informações corretas, integrais, profundas e transmiti-las de maneira compreensível", pontuou.
Um convite para entrar no mistério do Círio
Na mensagem dirigida aos profissionais do Grupo Liberal e ao público que acompanha a cobertura da festividade, Dom Júlio fez um convite para que todos procurem compreender o sentido mais profundo da celebração.
"Primeiramente, uma palavra de agradecimento pelo trabalho realizado. E um convite para que não permaneçam somente no evento, mas procurem se aprofundar também no mistério", declarou.
Segundo ele, o Círio revela a presença de Deus na vida cotidiana.
"É a presença do eterno na nossa temporalidade, de Deus caminhando conosco nas dificuldades, no trabalho e na vida concreta", refletiu.
Preparação espiritual é a principal mensagem
Ao encerrar a entrevista, Dom Júlio reforçou que a preparação espiritual é o caminho para viver plenamente o Círio de Nazaré.
"Nada de grande a gente consegue fazer sem uma boa preparação", ressaltou.
Inspirando-se na própria história da salvação narrada na Bíblia, ele afirma que Deus também preparou a humanidade ao longo do tempo.
"A mensagem que deixo é que todos se preparem espiritualmente. Vale a pena. Assim, sairemos transformados do Círio de Nazaré", concluiu.