No caminho do Traslado, as muitas expressões da fé na Virgem de Nazaré

Primeira das procissões oficiais marca o encontro da mãe de Jesus com os filhos

Victor Furtado

Das 12 romarias oficiais do Círio de Nazaré, o Traslado para Ananindeua é uma das mais pecualiares. Ao contrário das demais, em que os devotos seguem a padroeira dos paraenses, é a Imagem Peregrina que vai ao encontro da população. E por onde passa ela recebe homenagens e agradecimentos. Há quem faça essas homenagens acompanhando a procissão a pé ou de bicicleta. São as muitas expressões da fé do paraense pela Virgem de Nazaré que se vê ao longo dos 47 quilômetros que compreendem a primeira grande procissão nazarena, com aproximadamente 10 horas.

Desde muito cedo as pessoas buscam o melhor lugar para aguardar a passagem da berlinda que traz a imagem da Virgem de Nazaré. (Igor Mota / O Liberal)

A emoção já começa por quem trabalha na procissão. Justamente por se tratar de uma romaria longa, desafiadora e que deixa muitos devotos bem próximos da Imagem Peregrina. Um dos que declaram mais emocionados nesse momento é o superintendente da Polícia Rodoviária Federal (PRF), Franklin Santos. É da corporação a missão de coordenar a procissão e conduzir a imagem há 30 anos, quase o mesmo tempo que ele tem como servidor.

"Essa procissão começou com um Gol duas portas. E olha a estrutura que tem hoje. Entrei para a PRF em 1994. Acompanhei todos os anos. Só em 2017 que perdi. Para mim, é muito importante, gratificante e um privilégio estar perto da nossa santinha", disse Franklin.

Desde o início da manhã, vários fieis - corredores e ciclistas - aguardavam o início do Traslado. Enquanto uns descansavam para a maratona que iriam enfrentar, outros se alimentavam ou faziam suas preces. Cada um se preparando a sua maneira. Longe da Basílica Santuário, quem apenas aguardava a passagem da imagem buscava o melhor lugar. Quando o barulho dos fogos começava a ser ouvido, a reação quase sempre era a mesma: "Corre que lá vem ela!".

Uma das homenagens mais tradicionais — considerada como uma das mais emocionantes pela Diretoria da Festa — é a do Hospital Ophir Loyola. (Igor Mota / O Liberal)

Uma das homenagens mais tradicionais — considerada como uma das mais emocionantes pela Diretoria da Festa — é a do Hospital Ophir Loyola. Pessoas em tratamento oncológico ganham um espaço especial e privilegiado para ver a Imagem Peregrina e receber uma bênção. 

Antônia Souza era só emoção ao lado da filha, Maria Maikelly. "Ela está em tratamento. Melhorou, mas depois teve uma recaída e tivemos de começar tudo de novo. Mas a fé em Nossa Senhora é muito importante em nossas vidas. É ela que nos renova e nos dá força para enfrentar as batalhas", desabafou Antônia, com os olhos banhados em lágrimas. Maikelly apenas sorria, com a resignação que a mãe traduz como uma lição de força e resistência.

Antônia Souza era só emoção ao lado da filha, Maria Maikelly, que faz tratamento oncológico no Hospital Ophir Loyola. As duas assistiram emocionadas à passagem da berlinda com a Imagem de Nossa Senhora em frente ao HOL (Victor Furtado / O Liberal)

Pacientes em tratamento oncológico ganham um espaço especial e privilegiado para ver a Imagem Peregrina e receber uma bênção durante a parada em frente ao Hospital Ophir Loyola. (Igor Mota / O Liberal)

A pista expressa da Almirante Barroso se tornou o frontstage mais disputado na manhã desta desta sexta-feira. Servidores públicos, moradores das áreas residenciais ao longo da via, comerciantes e militares se organizavam, em ritmo acelerado, para ver a passagem da berlinda que conduz a Virgem de Nazaré.

Pacientes em tratamento oncológico ganham um espaço especial e privilegiado para ver a Imagem Peregrina e receber uma bênção durante a parada em frente ao Hospital Ophir Loyola. (Igor Mota / O Liberal)

Outra homenagem tradicional que já tem 18 anos ocorre no viaduto do Coqueiro, já no município vizinho de Ananindeua. Uma chuva de papel picado e de balões é lançada do alto enquanto a imagem da santa passa sob a estrutura.

Quem deu início a essa homenagem foi João Messias. Começou tímido, com alguns balões e papéis picados que cabiam num saco de tamanho médio. A ideia conquistou outras pessoas e houve tempo em que a prática reunia quase 400 pessoas sobre o viaduto. Mas os órgãos de segurança consideravam arriscada essa aglomeração e decidiram evitar.

Outra homenagem tradicional que já tem 18 anos ocorre no viaduto do Coqueiro, no município de Ananindeua (Igor Mota / O Liberal)

"Já teve muito mais gente. Mas, ainda assim, trazemos 4 mil balões e 50 quilos de papel picado. A gente vive pedindo para santa. Pede, pede, pede. Mas uma hora a gente precisa agradecer por tudo. Esse é o momento", contou seu Messias, que não gosta do discuso de que o Círio é o "Natal do paraense". "Natal é só 25 de dezembro, dia do nascimento de Jesus Cristo. O Círio é de Nossa Senhora de Nazaré e só", criticou.

Perto da Unama da BR-316, durante quase toda a existência do Traslado, a Casa Espírita Cabocla Yacira — um terreiro de Umbanda, Candomblé e Mina Nagô — faz uma homenagem ecumênica a Nossa Senhora de Nazaré. No sincretismo religioso — algo que tira parte da identidade da crença, mas ajuda outras pessoas compreenderem —, a Virgem é representada por Mamãe Oxum, a orixá mãe do amor e das águas. Com tambores e cânticos, as homenagens são feitas e os romeiros são acolhidos com água e bombons (açúcar para repor as energias).

"Quem começou essa tradição foi meu avô. A religião é diferente, mas Deus é um só. Aprendemos com Jesus, Oxalá, a amar ao próximo. Levamos isso para os terreiros. O Círio é uma oportunidade de mostrar que Nossa Senhora de Nazaré, Mamãe Oxum, é mãe de todos nós. Protetora da água doce, das gestantes, das crianças e dos jovens. E pedimos justamente por nossos jovens e para que haja mais amor no mundo", disse Rita Souza, irmã da líder do terreiro. O nome de missão dela é Ya Jedê Ossun.

Círio
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