Da varanda de um apartamento, uma criança observa a passagem de Nossa Senhora de Nazaré ao lado dos pais. A cena fica guardada na memória. Anos depois, já adulto, aquele menino passa a morar justamente em um dos edifícios que margeiam o percurso do Círio. O que antes era um desejo distante se transforma em uma experiência que, todos os anos, mistura lembranças, saudade, fé e gratidão.
É assim que o turismólogo Carlos Figueira vive o Círio desde 2021, quando passou a morar no edifício Manoel Pinto da Silva, no centro de Belém. Da sacada, ele acompanha a passagem da berlinda e também recebe familiares e amigos para um dos momentos mais aguardados do ano.

Mas a história de Carlos com o Círio começou muito antes de ele ter uma varanda com vista para a procissão.
Quando criança, ele costumava ir à Praça da República com o irmão e os pais para ver Nossa Senhora passar. Uma lembrança, em especial, atravessou os anos: o choro da mãe diante da berlinda.
“Quando a santinha passava, eu era criança e minha mãe, quando eu olhava para ela, chorava copiosamente. E eu ficava sem entender o porquê daquilo”, lembra.
Naquele momento, Carlos via apenas a imagem de Nossa Senhora em meio às flores. Não compreendia a intensidade daquela emoção. O tempo, porém, tratou de dar outro significado à cena.

Hoje, ele diz entender o que havia por trás das lágrimas da mãe:
“Hoje eu sei o porquê daquele choro. Minha esposa até diz: ‘Carlos, tu já vai chorar?’. Quando começam as reportagens do Círio se aproximar, eu digo: ‘Eu não tenho como me conter, porque é muito forte’.”
Quando a casa entra no caminho do Círio
Para quem acompanha o Círio pelas telas, a procissão pode parecer uma grande multidão, uma berlinda ornamentada e milhares de pessoas seguindo pelas ruas. Para quem está em Belém, porém, a experiência ganha outras dimensões.
Carlos descreve a transformação que começa a ser percebida no próprio edifício dias antes da procissão.
“Uns quinze dias antes, você começa a sentir outro clima. O cheiro de maniçoba exala aqui nos corredores do prédio, o trânsito, o clima é outro. A energia é uma coisa impressionante”, descreveu.
A varanda, então, deixa de ser apenas parte da casa. Torna-se ponto de encontro entre o morador e uma tradição que atravessa gerações.

Assistir à passagem da berlinda daquele lugar, para ele, é uma experiência difícil de traduzir em palavras.
“É algo ao mesmo tempo muito forte. O coração dispara aceleradamente. Quando ela vem se aproximando, é um mix de emoção, de alegria, mas é o mesmo de amor. E de gratidão”, contou.
A gratidão também está relacionada à consciência da passagem do tempo. Carlos sabe que o privilégio de estar ali é, para ele, algo que precisa ser vivido intensamente.
“Hoje eu posso estar aqui dando essa entrevista para você, amanhã eu não sei se estarei aqui. Mas eu procuro viver cada momento”, disse.
Uma tradição que mudou de endereço
A relação de Carlos com o Círio também é marcada pela mãe. Antes de morar no Manoel Pinto da Silva, ele acompanhava as peregrinações coordenadas por ela na Pedreira. Depois da morte dela, em 2015, ele assumiu uma espécie de continuidade desse legado.
Quando chegou ao edifício, descobriu que as peregrinações não estavam sendo realizadas. As moradoras mais antigas sentiam falta da tradição. “Eu disse: ‘Como não vai ter? Vamos organizar isso sim’.”
Desde então, Carlos passou a coordenar as peregrinações no prédio. Em 2026, chega à quinta edição, levando a novena e a evangelização aos apartamentos.
A iniciativa faz com que a devoção não se limite ao dia da grande procissão. O Círio passa a ocupar também os corredores, apartamentos e espaços de convivência do edifício.
É uma maneira de manter viva uma herança familiar e, ao mesmo tempo, criar novas memórias entre os moradores.
A varanda como lugar de celebração
No dia do Círio, a casa de Carlos também recebe familiares e amigos. Não há convite formal nem protocolo.
“Podem vir”, diz ele à esposa. “Tem a maniçoba, tem o pato, tem o creme de cupuaçu.”
A mesa farta faz parte da celebração, mas há um momento em que a atenção de Carlos se volta completamente para a rua.
Ele espera pela passagem da berlinda. No ano passado, foram utilizados cerca de 20 quilos de papel picado. Para 2026, a intenção é aumentar a quantidade.
“É um momento tão especial de celebrar a vida, de confraternizar com as famílias, com os amigos, e de externar a minha gratidão eterna por Nossa Senhora”, disse.

A celebração ganha contornos próprios na sacada. Máquinas de papel picado, canhões de serpentinas e balões são preparados para o instante em que a berlinda estiver diante do prédio.
Quando chega o momento, a varanda se transforma. “Eu fico enlouquecido”, conta, entre risos.
O espetáculo chama a atenção de quem está no prédio e também dos romeiros que acompanham a procissão na rua. Os aplausos vindos de baixo aumentam ainda mais a emoção.
“É uma energia muito forte. É lindo. É algo assim que eu me realizo, e cada ano eu quero fazer mais bonito”, contou.
O balé dos periquitos
Entre tantas lembranças acumuladas nas sacadas do Manoel Pinto da Silva, uma delas ocupa um lugar especial.
Foi no primeiro Círio depois da pandemia. Carlos e a esposa estavam na varanda quando a berlinda se aproximava, vindo da avenida Presidente Vargas em direção à Nazaré.
De repente, uma revoada de periquitos apareceu.
Segundo Carlos, as aves voaram diante da sacada e se aproximaram da berlinda, repetindo o movimento algumas vezes. “Parecia que eles tinham ensaiado um balé”, recorda.
Para ele, aquela cena ganhou um significado especial. “Eles estavam anunciando a entrada triunfal de Nossa Senhora em Nazaré”, declara.
Independentemente da interpretação que cada pessoa possa dar ao episódio, a imagem ficou registrada na memória de Carlos como um daqueles acontecimentos que parecem feitos para acompanhar uma história de fé.
“Eu nunca vou me esquecer. Foi algo assim da natureza que brotou”, relembra.
Uma mãe que continua presente
Há ainda outra presença que acompanha Carlos durante o Círio: a mãe.
Ela não está mais fisicamente ao lado dele para assistir à passagem da berlinda. Morreu em 2015. Mas sua memória permanece associada a praticamente todos os momentos dessa relação com Nossa Senhora de Nazaré.
Foi ela quem o levou para acompanhar as peregrinações. Foi ela quem o incentivou a participar de uma campanha da Diretoria da Festa de Nazaré para escolher devotos que fariam parte de um cartaz.
Carlos escreveu sobre o amor, a devoção e a fé que sente por Nossa Senhora de Nazaré — a quem chamou de “Senhora das Florestas, dos Rios e Igarapés”, “Rosa do Guamá”, “Mãe do Grão-Pará” e “Rainha da Amazônia”.
Ele acabou selecionado. Seu rosto apareceu ao lado da imagem de Nossa Senhora.
A mãe estava presente no lançamento do cartaz.
Carlos se recorda do instante em que o painel foi revelado e os rostos começaram a aparecer.
“Ela era uma das incentivadoras: ‘Mande, você vai sair no cartaz’. E, quando foi descerrando o cartaz, a gente procurando, e estava lá eu.”
A lembrança torna a experiência ainda mais significativa.
Hoje, quando a berlinda se aproxima da sacada, Carlos não celebra apenas a passagem de Nossa Senhora. Celebra também a memória da mulher que lhe ensinou a viver aquele momento.
“Eu só lamento uma coisa: de não ter fisicamente a minha mãe aqui. Mas eu acredito que, na época do Círio, ela está por aqui, sim, porque eu sinto isso”, admitiu Carlos.