Entre embarcações enfeitadas, sirenes, homenagens e milhares de olhares voltados para as águas, a fé do povo paraense ganha um cenário singular durante o Círio Fluvial. Há 39 anos, a Marinha do Brasil participa efetivamente da procissão, conciliando a tradição religiosa com uma complexa operação de segurança para garantir que a imagem peregrina de Nossa Senhora de Nazaré percorra os rios da Amazônia em segurança.
Uma missão que começa muito antes da procissão
A atuação da Marinha durante a Romaria Fluvial vai além do acompanhamento das embarcações. De acordo com o Capitão de Corveta (T) Hebert Bruno da Cunha França, Chefe do Departamento de Segurança do Tráfego Aquaviário da Capitania dos Portos da Amazônia Oriental (CPAOR), a missão tem como prioridades a segurança da navegação, a preservação da vida humana e a prevenção da poluição hídrica.
“O objetivo maior da Marinha do Brasil durante a Romaria Fluvial é garantir a segurança da navegação, a salvaguarda da vida humana e a prevenção da poluição hídrica”, explicou.
A preparação para o evento começa meses antes. Reuniões, planejamentos, briefings e debriefings fazem parte de uma operação que envolve diferentes instituições. Segundo França, órgãos de segurança, Corpo de Bombeiros, Polícia Militar, Polícia Civil, Defesa Civil, SAMU e Exército Brasileiro atuam em parceria com a Marinha para que a procissão transcorra dentro dos parâmetros estabelecidos.

“Quando se trata de qualquer evento nas águas, tem um nível de complexidade bem diferenciado. Então, são meses de planejamento, de reuniões”, destacou.
Embarcação autorizada é sinônimo de segurança
Para os romeiros que acompanham a procissão pelas águas, um dos principais cuidados começa antes mesmo do embarque. Apenas embarcações inscritas na Capitania dos Portos podem participar oficialmente da Romaria Fluvial.
A identificação é feita por meio de bandeiras distribuídas durante o período de inscrição. Para o passageiro, observar a presença desse símbolo é uma medida simples, mas fundamental.
“O principal fator de segurança que o passageiro devoto que vai participar da Romaria deve ter é verificar se essa embarcação está com essa bandeira”, orientou o capitão de corveta.
A medida assegura que a embarcação passou pelas verificações necessárias e atende às exigências estabelecidas pelas normas da autoridade marítima.
Uma tradição que se consolidou nas águas
O Círio Fluvial teve início em 1986 e, no ano seguinte, a Marinha passou a participar de maneira mais efetiva da romaria. Em 2026, a instituição chega à 39ª edição com uma presença que se tornou parte da própria tradição da procissão.
O momento mais simbólico da participação da Marinha acontece a bordo do Navio Hidroceanográfico Garnier Sampaio, responsável por conduzir a imagem peregrina de Nossa Senhora de Nazaré.
Utilizado nessa missão desde 1999, o navio acumula 27 anos de história ligada ao Círio Fluvial. Para a tripulação, receber a imagem é considerado um momento especial.
“Ele tem o privilégio de receber a imagem peregrina de Nossa Senhora de Nazaré. A gente que tem contato com o comando, a tripulação desse navio, percebe que para eles também é um momento único em suas carreiras”, declarou França.
Nossa Senhora recebida com honras
O embarque da imagem peregrina segue um protocolo especial da Marinha. A imagem é recebida a bordo pela mais alta autoridade da instituição presente no local e recebe tratamento protocolar equivalente ao destinado a um chefe de Estado.
“Ela é equiparada como se estivesse recebendo um chefe de Estado, então há esse cuidado, isso é previsto nas nossas normas”, explicou o capitão de corveta.
Depois de embarcada, a imagem é conduzida para um espaço especial na proa do navio, onde permanece em posição de destaque durante o percurso. Uma guarda de honra acompanha a imagem ao longo da derrota entre Icoaraci e a Escadinha, permitindo que os fiéis nas margens e nas demais embarcações possam vê-la.

A bordo, também participam altas autoridades da Marinha, incluindo almirantes de esquadra, além de autoridades civis cuja presença é coordenada pelo Comando do 4º Distrito Naval.
Fé que também emociona quem trabalha na operação
Para quem atua na organização e na segurança da romaria, a experiência ultrapassa a dimensão profissional. Paraense e integrante da coordenação operacional do evento, França afirma que acompanhar a passagem da imagem é também uma experiência de fé e emoção.
“Eu acho que a palavra seria, acho que, um privilégio. É uma missão que a gente cumpre com um empenho um pouquinho diferenciado. Nós estamos falando de fé”, afirmou.
Ele contou que, em alguns momentos, precisa controlar a própria emoção durante o trabalho.
“Eu, particularmente, como paraense, desde cedo a gente se identifica com esse evento. Eu trabalho ali na coordenação operacional da Romaria Fluvial e, por vezes, eu tenho que me controlar, por conta da emoção”, relatou.
Para o militar, a presença da Marinha no Círio representa uma oportunidade de compartilhar com a população uma das maiores manifestações religiosas e culturais do país.
“É um privilégio, uma satisfação enorme a Marinha estar há tantos anos podendo, junto com o povo paraense, abraçar esse evento de fé”, destacou.
Os rios como caminho de fé e identidade
Mais do que uma procissão religiosa, o Círio Fluvial também revela a relação profunda entre a população amazônica e os rios. Para milhares de ribeirinhos, as águas são parte da rotina, do trabalho, da mobilidade e da própria identidade cultural.
A Marinha aproveita a realização da romaria para fortalecer ações de conscientização, orientação e educação junto a essas comunidades. Entre os trabalhos desenvolvidos está a prevenção de acidentes de escalpelamento, que afetam principalmente populações ribeirinhas.
França explicou que a própria criação da Romaria Fluvial ajudou a aproximar os moradores das comunidades das celebrações do Círio.
“A própria Romaria Fluvial nasceu também com esse ideal de trazer o ribeirinho próximo desse evento de fé”, informou.
Segundo ele, incluir a população ribeirinha na manifestação religiosa é essencial para que o Círio reflita a diversidade e a realidade amazônica.
“Então, a gente sempre aproveita esse momento para potencializar essas ações de orientação com os nossos ribeirinhos, para que eles sempre se sintam inseridos como atores importantes para a nossa realidade”, destacou.
Segurança e emoção no mesmo percurso
Entre o trabalho técnico de fiscalização, o planejamento operacional e a emoção diante da imagem de Nossa Senhora de Nazaré, a Marinha ocupa um papel que se tornou indissociável da Romaria Fluvial.
Enquanto o Garnier Sampaio conduz a imagem peregrina pelas águas, uma grande operação acompanha o cortejo para garantir que a fé possa se manifestar com segurança. Em meio à imensidão dos rios amazônicos, a procissão une tradição, cultura, religiosidade e a relação histórica do povo paraense com as águas.
Para a Marinha, garantir a segurança desse encontro entre fé e rios significa também participar de uma das expressões mais marcantes da identidade amazônica.