Lenda da cobra grande no Círio atiça imaginário popular em tempos de pandemia

Sem festejos religiosos, a serpente vai se mexer e afundar Belém, dizem as lendas

Dilson Pimentel

“Minha filha, se não tiver Círio a Cobra Grande vai mexer e Belém vai afundar”. É o que dona Raimunda Ribeiro Cantão Viana costumava dizer para a filha, Raimunda Moreira Viana. Reza a lenda que, quando a grande serpente se movimentar, a capital paraense será inundada pelas águas da Baía do Guajará.

Essa história atiça o imaginário popular, segundo o qual uma grande cobra dorme entre a Basílica de Nazaré e a Catedral Metropolitana (Sé), exatamente no trajeto da procissão do Círio. E pode, a qualquer momento, se mexer, e causar a inundação da cidade. Por causa da pandemia do novo coronavírus, não serão realizadas, este ano, as tradicionais procissões em homenagem à padroeira dos paraenses. E, com isso, a lenda (se a Cobra Grande, ou Boiúna, se mexe, Belém estremece) ganha mais força nessa época. 

'Eu acredito na lenda'


Dona Raimunda, a mãe, já é falecida. Raimunda, a filha, tem 68 anos, nasceu em Mocajuba, no interior do Pará, e vende coco perto da Catedral Metropolitana de Belém. Dona Raimunda tem 40 anos de profissão. “Eu conheço a história da cobra debaixo da igreja da Sé. A cabeça tá aqui e o rabo tá lá na outra igreja [Basílica]. Se a cobra se mudar, Belém estremece e cai”, contou.

Dona Raimunda, que trabalha em frente à Sé: "eu acredito"  (Igor Mota / O Liberal)

Minha filha, se não tiver Círio a Cobra Grande vai mexer e Belém vai afundar”. É o que dona Raimunda Ribeiro costumava dizer para a filha, Raimunda Moreira. “Conheço a história da cobra debaixo da Sé. A cabeça tá aqui e o rabo tá lá na Basílica. Se a cobra se mudar, Belém estremece e cai”, conta. “Eu acredito sim na cobra. Se não tiver o Círio, pode remexer. E afundar Belém. Anos e anos, no tempo da minha mãe, ela sempre dizia isso. Não é mentira. É verdade. Isso muitos falam. Nossa Senhora deu as bençãos a todos nós. Amo minha virgem de Nazaré”

A vendedora de coco disse, sim, acreditar na lenda. “Eu acredito sim na cobra. Se não tiver o Círio, pode remexer. E afundar Belém. Anos e anos, no tempo da minha mãe, ela sempre dizia isso. Não é mentira. É verdade. Isso muitos falam”, contou.

Mas a fé de dona Raimunda é maior que a lenda e ela acredita que a padroeira dos paraenses não irá permitir que isso ocorra. “Nossa Senhora de Nazaré deu as bençãos para todos nós. E tudo o que eu falo pra ela eu alcanço a minha vitória. Eu amo ela de coração. Eu peço a minha benção de coração. Amo minha virgem de Nazaré”.

No entanto, fica uma pontinha de desconfiança. “Pode ser que sim, pode ser que não. Só Nossa Senhora e Deus é que vão saber”, afirmou. “Vou rezar muito mesmo, porque amo Jesus e minha Virgem de Nazaré de coração. E isso nunca vai acontecer. Nossa Senhora é tudo por nós. E tenho uma fé muito forte”.

Serpente está entranhada no imaginário, diz professor


O professor Marcos Zanotti Rosi é mestrando em educação da Universidade do Estado do Pará (UEPA), da linha de saberes culturais e educação a Amazônia. Ele diz que, a princípio, a cobra grande é vista por nós como uma força da natureza, mas uma força mais voltada para o lado destrutivo.

“Só que nós devemos, antes, entender sobre as mitopoéticas que circundam a forma da cobra grande vão pra além desse aspecto destrutivo dela. Se você pegar um histórico desses mitos de serpente, nós vemos que a cobra era, logo na antiguidade, uma deusa primordial da terra, era a veneração do próprio poder terrestre e do próprio poder da água”, diz Zanotti.

“Nós temos, aqui, uma imagem que descende, ao longo das eras, de um patamar de divindade para um patamar de bestialidade ou monstruosidade, por assim dizer. No entanto, para nós ela assume a qualidade de  uma encantaria dos nossos rios amazônicos”, acrescenta o pesquisador.

Sobre essa cobra que habita Belém, conta-se que, até hoje, essa cobra vive nas entranhas da cidade, estando sua cauda nos porões da igreja da Sé e a cabeça sob o altar da Basílica. “Dizem que a cobra é tão grande que o percurso que ela faz (sob a terra), pelos encanamentos da cidade, é o mesmo percurso que faria a procissão do Círio. Então, devido à sua extensão, ela assume em nosso imaginário uma figura grandiosa, de temor, medo e admiração por alguns estudiosos das mitopoéticas amazônicas”.

Sé: na confluência da crença popular com a fé (Igor Mota / O Liberal)

Quando Belém sacudiu nos anos 1970


Acredita-se que, uma vez, na década de 1970, houve um tremor de terra na cidade e os habitantes locais juram que tinha sido a cobra da Basílica, ou a da Sé, que havia despertado. “A serpente está entranhada em nosso imaginário amazônico, ribeirinho e caboclo. E essa cobra grande, em específico, transcende a esse mito da serpente gigantesca e vai se associar aos aspectos religiosos do Círio”, conta Marcos Zanotti.

Por exemplo: outro símbolo ofídico que há dentro da procissão seria a imagem da corda. Esse símbolo nos lembra o corpo da serpente que percorre a cidade de Belém na frente da Virgem de Nazaré.

“É como se os romeiros que estivessem segurando a corda, com seus pés, punissem a serpente embaixo deles, como castigo pelo pecado original de Eva. O pecado bíblico. Essa figura vai se associar a esses elementos que a Igreja Católica incorporou à procissão ao longo dos anos”, pondera Zanotti.

Antigamente, pelo o que se conta, a imagem da Virgem de Nazaré, era carregada por carruagens movimentada por tração bovina. A corda foi instalada anos depois. “Depois dessa imagem da serpente na corda, temos também a imagem da serpente na própria Igreja. A Virgem de Nazaré seria, portanto, a virgem redentora deste pecado original. Ou seja, ela que pisa a cabeça da serpente”, diz o professor da Uepa.

“Temos aqui uma figura de uma forma de dominação. É como se estivéssemos representando a força que a fé cristã exerce sobre os nossos mitos, as nossas poéticas indígenas e que há muito tempo foram sobrepujadas pela religião católica”, completou. Marcos Zanotti disse que essa imagem da serpente, quando trazemos ela para essa ótica do homem católico, essa visão ocidental, a serpente, que antes era um símbolo de veneração pela potência, criadora e imortal que ela tem, porque a cobra, na sua fisiologia mítica, é imortal porque troca de pele.

No Círio, romeiros 'pisam' na cobra grande


“Seria justamente isso. Essa quebra com o pensamento com a crença antiga de que a serpente seria não uma divindade, mas a causadora dos males da humanidade. Uma curiosidade: uma das competências que a serpente tem é a ligação do elemento terra com o elemento ar, uma vez que ela fica ereta para o bote e, assim, se conecta com as potências celestes. Se perceber bem, a nossa cobra grande paira sobre a cabeça dos fiéis durante o Círio na sua forma estética mais conhecida que é a cobra de miriti, em cores mais vibrantes e nos desenhos mais diversos”, avalia Marcos Zanotti.

Ele disse que existe uma crença baseada no nosso imaginário coletivo de que, se um dia o Círio não acontecer, a cobra poderia se mexer e Belém estremeceria novamente. “Mas não existe um teórico que afirme isso. Isso está impregnado no nosso imaginário. A imagem da corda copia essa grande serpente e está vinculada à imagem do romeiro que pisa o corpo da serpente durante o longo percurso do Círio”.

Zanotti pondera sobre as metáforas da tradição: “Uma vez que essa prática de pisar essa serpente, castigá-la não aconteça, a cobra um dia despertaria. No entanto, não há uma teoria sobre isso,  é mais questão de imaginário coletivo está associação à imagem desse castigo que é sofrido pela serpente anualmente", diz o pesquisador.

“A serpente está entranhada em nosso imaginário, ribeirinho e caboclo. Essa cobra grande transcende o mito da serpente gigantesca e vai se associar aos aspectos religiosos do Círio”, pondera o pesquisador Marcos Zanotti. "Outro símbolo ofídico da procissão é a corda. Nos lembra o corpo da serpente que percorre Belém na frente da Virgem de Nazaré. É como se os romeiros que estivessem segurando a corda, com seus pés, punissem a serpente embaixo deles, como castigo pelo pecado original de Eva. O pecado bíblico. Essa figura vai se associar a esses elementos que a Igreja Católica incorporou à procissão ao longo dos anos”

A corda: tradição do Círio e metáforas do imaginário popular (Igor Mota/ Arquivo O Liberal)

 

 

"Mesmo não tendo Círio, a Nazinha vai passear, de uma forma ou de outra, pela cidade de Belém. E a cobra grande vai continuar dormindo, pois é a única coisa que sabe fazer. Até porque as serpentes passam mais tempo dormindo que acordadas. Se um dia ela se mexer, ou não, compete ainda à gente esperar", diz Marcos Zanotti. "Não vai ser porque o Círio não acontecerá no seu formato tradicional que a cobra vai despertar ou que a cobra deixará de existir. Isso não prova ou justifica. Mas ela vai continuar viva, com certeza, no nosso imaginário amazônico”.

Por sua vez, o historiador Michel Pinho observa que essa questão faz parte do lendário da Amazônia. “Mas essas questões relacionadas ao Círio e à Cobra Grande não são exclusivas de Belém. O que é novidade é essa história que você apontou, de que, se não houver Círio, a Cobra Grande vai se mexer e Belém vai ruir. Isso é perfeitamente cabível dentro de uma oralidade que se modifica a cada contexto. Não seria novidade se alguém relesse a lenda da cobra grande e do Círio a partir da ausência da procissão deste ano. Não tem nenhuma novidade. Isso faz parte da própria dinâmica da história oral”.

Basílica: no 'rabo' da grande lenda do Círio (Ivan Duarte / Arquivo O Liberal)
Círio
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