A devoção a Nossa Senhora de Nazaré ultrapassa os limites da Basílica Santuário de Nazaré e dos dias que antecedem o Círio de Belém. Durante todo o ano, a Imagem Peregrina percorre cidades, paróquias, hospitais, empresas e outros espaços onde é solicitada pelos devotos. Criada na década de 1960 para substituir a imagem original nas atividades externas, a réplica autorizada passou a conduzir as principais manifestações ligadas ao Círio e, ao longo de mais de 55 anos, tornou-se também um símbolo da presença da Rainha da Amazônia em diferentes regiões.
A dimensão desse percurso aparece nos números mais recentes da Diretoria da Festa de Nazaré. Entre 1º e 19 de junho de 2026, a Imagem Peregrina realizou 386 visitas, sendo uma em Minas Gerais, 14 no Mato Grosso, 285 no Pará, 15 em Pernambuco, 20 no Rio de Janeiro e 51 em São Paulo. O circuito, porém, não se limita ao território brasileiro. Segundo a organização do Círio, a imagem já esteve em Portugal e nos Estados Unidos e, em 2026, passou uma semana na Guiana Francesa, ampliando ainda mais o alcance da devoção.
Uma imagem criada para preservar a original
A Imagem Peregrina surgiu a partir da necessidade de preservar a peça original de Nossa Senhora de Nazaré. De acordo com Antonio Sousa, diretor-coordenador do Círio de Nazaré 2026, a imagem histórica participava das celebrações, mas o desgaste provocado pelo tempo levou à decisão de criar uma réplica destinada às atividades externas.

“Com o desgaste do tempo, foi verificado criar uma imagem que foi colocada de peregrina”, explicou Antonio Sousa.
A nova imagem foi concebida com características próprias, incluindo traços amazônicos, relacionados à região em que a devoção está inserida. Desde então, ela passou a ser conduzida nas procissões, visitações e demais eventos ligados ao Círio que acontecem fora da Basílica.
Uma peregrinação que dura o ano inteiro
A agenda da Imagem Peregrina não termina com o encerramento do Círio. As solicitações chegam durante todo o ano e envolvem diferentes tipos de espaços e celebrações. Em 2025, segundo Antonio Sousa, foram quase 900 localidades visitadas.
“A imagem peregrina vai em várias solicitações que nós temos. A imagem peregrina já, ano passado, visitou quase 900 localidades, entre empresas, hospitais, paróquias, cidades, municípios, outros países, outras capitais”, declarou.
No Pará, a procura é especialmente ampla. Segundo a Diretoria da Festa, quase todos os municípios paraenses solicitam a presença da Imagem Peregrina. A tradição também se consolidou em outras regiões, inclusive em municípios que passaram a realizar seus próprios Círios de Nazaré.
Do Pará ao exterior
A peregrinação alcança diferentes partes do país. Antonio Sousa citou Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo e diversos estados do Nordeste entre os destinos já visitados. Em São Paulo, há municípios do interior que recebem a imagem todos os anos e mantêm celebrações próprias dedicadas a Nossa Senhora de Nazaré.
Fora do Brasil, a Imagem Peregrina já esteve em Portugal e nos Estados Unidos. Em 2026, chegou também à Guiana Francesa, onde permaneceu durante uma semana.
“Dos países que foram, que foi Portugal e Estados Unidos, tivemos agora um território da França que foi na Guiana Francesa, este ano, passou uma semana lá”, informou Sousa.
Viagens planejadas e acompanhamento permanente
A peregrinação da imagem segue critérios específicos. As solicitações precisam partir das estruturas da Igreja nos locais que desejam recebê-la. Conforme explicou Antonio Sousa, são considerados o responsável pela igreja, o pároco, o bispo ou o arcebispo da localidade.
“Quando é feita a solicitação para a gente, primeiro é ver de onde vem essa solicitação. Se for de outros lugares, a gente tem que ver a questão via a igreja, quem é o titular da igreja, o pároco, o bispo, o arcebispo da localidade”, explicou.
A logística envolve uma equipe formada por sacerdote, integrantes da Diretoria da Festa e membros da Guarda de Nazaré. A imagem é transportada em um case próprio e permanece em local considerado seguro durante os deslocamentos e as visitas.
Também cabe a quem solicita a visita arcar com os custos relacionados à viagem, como passagem e hospedagem, além de garantir as condições necessárias para receber e guardar a imagem. Antes de cada deslocamento, são avaliados os locais onde ela ficará, será guardada e poderá ser exposta.
“A pessoa que solicita custeia tanto a passagem, como a hospedagem, como o local onde a imagem vai visitar”, informou Sousa.
Durante todo o período em que está fora de Belém, a Imagem Peregrina permanece sob acompanhamento. A vigilância é feita pela Guarda de Nazaré ou pela própria diretoria, garantindo acompanhamento contínuo durante as viagens e permanências nos destinos.

Quatro imagens, uma mesma devoção
A história da chamada Imagem Peregrina envolve, na verdade, quatro imagens distintas. Segundo o artista visual e pesquisador Vitor Souza Lima, a primeira é a Imagem do Achado ou Imagem Original, encontrada por Plácido no século XVIII e atualmente preservada no Glória da Basílica Santuário de Nazaré. É a peça histórica que permanece protegida e participa apenas de momentos específicos da programação do Círio.
A segunda é a Imagem do Colégio Gentil Bittencourt, pertencente às religiosas da Congregação das Filhas de Sant’Ana.
“A escultura passou a ser utilizada nas procissões no lugar da original, embora não haja segurança sobre a data exata em que isso ocorreu”, disse o pesquisador.
Durante muito tempo, considerou-se 1926 como o início desse uso, mas Vitor encontrou registros que apontam para a presença da imagem em atividades ligadas ao Círio pelo menos desde 1917 e até uma referência de 1860 a uma imagem destinada ao “trânsito ou círio”.
Em 1968, foi encomendada na Itália uma nova réplica, mais próxima das características da Imagem Original. A primeira tentativa, porém, apresentou um manto triangular esculpido sobre a cabeça, provavelmente por influência de uma gravura usada como referência. Essa primeira réplica nunca foi utilizada no Círio de Belém e posteriormente foi doada à cidade de Bragança, onde ainda participa das duas principais romarias do Círio local.
A segunda tentativa deu origem à imagem esculpida por Giacomo Vicenzo Mussner, que chegou a Belém em 1969 e acabou sendo utilizada nas romarias daquele mesmo ano.
“É essa escultura que, décadas mais tarde, passou a ser conhecida como Imagem Peregrina, especialmente a partir dos anos 2000, quando começou a realizar uma agenda cada vez mais ampla de visitas a instituições, cidades e outros estados”, explicou.
Vitor ressalta ainda que atualmente existe uma outra réplica da imagem de 1969, utilizada para atender à intensa agenda de viagens e visitas, evitando o desgaste da peça histórica. Assim, o pesquisador considera mais preciso falar em uma sequência de imagens — a Original, a do Colégio Gentil, a primeira réplica e a réplica de 1969 — do que afirmar que existiram várias “Imagens Peregrinas” ao longo da história.
Para Vitor, essas réplicas cumprem uma função de preservação e, ao mesmo tempo, de continuidade da devoção. “As réplicas são apenas uma ponte espiritual para a Verdadeira Mãe de Nazaré”, resume.
