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CÍRIO DE NAZARÉ 2026

Guarda de Nazaré: uma missão de fé, proteção e tradição que atravessa gerações

Criada em 1974 para contribuir com a organização do Círio, instituição reúne homens que encontram no serviço à Nossa Senhora de Nazaré uma missão que começa na procissão e se estende para a vida

Jéssica Nascimento

8 de outubro de 2026 às 15:10

Nas ruas de Belém, durante as romarias do Círio de Nazaré, a multidão acompanha a imagem de Nossa Senhora, a corda avança e a Berlinda percorre o caminho cercada por milhares de devotos. Entre a emoção dos promesseiros e a complexidade da procissão, homens uniformizados cumprem uma missão que exige disciplina, preparo e, sobretudo, fé. São os Guardas de Nazaré, uma das instituições tradicionais ligadas à realização do Círio.

Criada em 8 de novembro de 1974, a Guarda de Nazaré nasceu de uma iniciativa do então pároco da Basílica de Nazaré, padre Giovanni, em parceria com Nelson Ribeiro, coordenador do Círio à época. A proposta era formar um grupo de homens ligado à comunidade paroquial para contribuir com a cadência e a organização da procissão, em um contexto no qual o ritmo do cortejo era conduzido principalmente pelos militares. Cinco décadas depois, a instituição mantém como uma de suas principais responsabilidades a proteção da imagem de Nossa Senhora de Nazaré e a segurança e fluidez das romarias.

Uma guarda criada para servir

Quando chegou ao Brasil, o padre Giovanni passou a observar atentamente a dinâmica do Círio. Segundo Carlos Renan Silva, diretor de Comunicação da Guarda de Nazaré, o religioso percebeu que havia espaço para uma atuação pastoral mais próxima da condução da procissão.

“Ele percebe as movimentações, ele chega um ano antes, ele percebe as movimentações do Círio, como funcionava. E no outro ano ele novamente vê essa análise e vê que a corda, a procissão como um todo, era ditada pelo ritmo dos militares”, explicou.

A percepção levou à criação de um grupo formado por homens que já tinham ligação com a paróquia, incluindo esposos e filhos de pessoas que frequentavam a Basílica de Nazaré.

Carlos Renan Silva - Diretor de Comunicação da Guarda de Nazaré.
Carlos Renan Silva - Diretor de Comunicação da Guarda de Nazaré. (Foto: Ivan Duarte)

“Ele sentia a ausência de um movimento pastoral ali, de certa forma dando a cadência da procissão. E aí ele decide fundar um grupo de homens, pessoas que já frequentavam a paróquia, ou esposos, filhos de pessoas que frequentavam a Basílica, para justamente dar início a essa missão”, afirmou Renan.

A Guarda nasceu, portanto, com uma finalidade diretamente relacionada ao Círio: contribuir para que a procissão pudesse avançar de maneira organizada. Ao longo dos anos, essa missão se consolidou e passou a envolver também a proteção da imagem e o apoio à organização das romarias.

Entrar na Guarda exige formação

A entrada na Guarda de Nazaré não ocorre apenas pelo desejo de vestir o uniforme e participar da procissão. Há requisitos e um processo de formação destinado aos candidatos.

Para ingressar, é necessário ter mais de 18 anos, ser católico e ter recebido ao menos o sacramento do batismo. O candidato também precisa ser apresentado por um integrante da instituição que tenha pelo menos dois anos de participação na Guarda. Esse membro passa a ser o padrinho do novo aspirante.

“Esse guarda lhe apresenta na Guarda de Nazaré e você se inscreve para o curso de aspirantes da Guarda de Nazaré”, informou Renan.

A formação dura aproximadamente três meses e ocorre aos sábados à tarde. O conteúdo busca preparar o candidato não apenas para a atividade durante o Círio, mas para compreender a dimensão religiosa da missão que pretende assumir.

“É feito formação espiritual e formação sobre aquilo que é a questão da liturgia, a história da Igreja, o magistério, e um pouco aprofundando cada vez mais esse aspirante, esse candidato da Guarda de Nazaré dentro da fé católica”, declarou.

A preparação, assim, combina conhecimento e espiritualidade. Antes de atuar na multidão, o aspirante passa por um processo que procura fortalecer sua compreensão sobre a fé que sustenta a instituição.

Entre a fé e a responsabilidade nas ruas

Durante o Círio, a atuação da Guarda de Nazaré ocorre em meio a uma operação de grandes proporções, que envolve também a Diretoria da Festa, forças de segurança e diferentes estruturas responsáveis pela realização das romarias.

Renan compara a complexidade da organização a uma “operação de guerra”. Nesse cenário, cabe à Guarda contribuir para que o cortejo mantenha seu fluxo e avance com segurança.

“O Círio de Nazaré é uma verdadeira operação de guerra. Junto ainda com os militares, com as forças de segurança, a Guarda de Nazaré e a Diretoria da Festa tentam, de certa forma, dar uma fluidez à procissão”, disse.

A atuação inclui a organização da corda, dos carros e da Berlinda, além do trabalho de proteção das imagens de Nossa Senhora de Nazaré.

“É de responsabilidade para a Guarda de Nazaré essa proteção da imagem peregrina, bem como da imagem original de Nossa Senhora de Nazaré”, afirmou.

Durante as romarias, os guardas formam cordões de isolamento ao redor da Berlinda e em pontos relacionados à corda, buscando criar condições para que os devotos possam acompanhar a passagem da imagem.

“A gente tenta ao máximo dar fluidez e segurança a todos aqueles que vêm devotar a Virgem de Nazaré aqui em Belém do Pará”, declarou Renan.

Um serviço que passa de pai para filho

A tradição da Guarda de Nazaré também se constrói dentro das famílias. O exemplo de pais, avôs, tios e outros parentes desperta em novas gerações o desejo de assumir a mesma missão.

Renan conhece essa experiência pessoalmente. Antes de se tornar Guarda de Nazaré, acompanhava o tio, que já integrava a instituição. O caminho começou ainda na Guarda Mirim e posteriormente levou à Guarda Adulta.

“O meu tio já era Guarda de Nazaré, eu vim acompanhando ele, ingressei na Guarda Mirim, depois galguei para a Guarda Adulta de Nazaré”, revelou.

Essa transmissão de valores, segundo ele, acontece principalmente pelo exemplo. O serviço prestado pelos guardas desperta nos mais jovens o desejo de participar e perpetuar a devoção.

“Não seria diferente. De certa forma, a nossa devoção se transborda por meio do serviço e nada mais arrasta do que o exemplo”, disse.

Para Renan, é justamente a observação cotidiana da dedicação dos guardas que ajuda a explicar a presença de famílias inteiras na instituição. Filhos, netos e sobrinhos encontram nos familiares uma referência de serviço e fé.

“É um pouco desse exemplo, do serviço, da mansidão, do querer estar à disposição do próximo, que acaba, de certa forma, conquistando o coração de tantas pessoas para que venham fazer parte da Guarda de Nazaré”, afirmou.

Quando a paixão dá lugar à perseverança

O primeiro contato com a Guarda costuma ser marcado pela emoção. O desejo de servir, participar do Círio e vestir o uniforme produz, segundo Renan, um entusiasmo imediato. Mas é a permanência ao longo dos anos que revela a profundidade da missão.

“Eu acredito que entrar na Guarda de Nazaré é fácil. É muito fácil porque você está ali com aquele ardor, aquele calor do coração, de fato: ‘eu quero servir no meu primeiro Círio, eu quero estar ali com o meu uniforme’”, contou.

Com o tempo, porém, a relação com a instituição deixa de ser apenas a paixão pelo momento da festa e passa a fazer parte da vida cotidiana.

“Depois existe muito mais beleza quando essa paixão passa. É a beleza da perseverança, de você, no seu dia a dia, entender que a sua missão perpassa muito além do santuário, muito além das missões”, declarou.

Esse sentimento de pertencimento ajuda a explicar a longevidade de muitos integrantes. Há guardas que permanecem por décadas na instituição, acompanhando diferentes gerações e momentos do Círio.

“Isso faz com que muitos de nós permaneçam por mais de 20, 30 anos. Nós temos guardas que têm basicamente o tempo de fundação da Guarda e estão na Guarda, como é o exemplo do senhor João, que está desde o começo”, revelou.

Uma missão que ultrapassa a procissão

Para quem veste o uniforme da Guarda de Nazaré, o serviço não termina quando a Berlinda chega ao destino ou quando a multidão se dispersa. A missão, na visão de Renan, produz efeitos que alcançam a vida pessoal, familiar e espiritual de cada integrante.

A perseverança nasce, segundo ele, dos frutos percebidos ao longo da caminhada e do sentimento de pertencimento construído com o passar dos anos. É uma experiência em que devoção e serviço caminham juntos.

“De fato, para a gente, os frutos da nossa missão acabam nos fazendo perseverar cada vez mais”, afirmou.

Assim, entre cordas, Berlinda, multidões e longas jornadas pelas ruas de Belém, a Guarda de Nazaré preserva uma missão iniciada em 1974. A instituição que nasceu para ajudar a conduzir a procissão consolidou-se também como espaço de formação, devoção e serviço. Uma tradição que, sustentada pelo exemplo e transmitida entre gerações, encontra na fé em Nossa Senhora de Nazaré a razão para continuar.

“Com a ajuda de Nossa Senhora de Nazaré e a condução do Espírito Santo, nós sempre avançaremos”, declarou Renan.