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CÍRIO DE NAZARÉ 2026

Festa da Chiquita celebra 50 anos de resistência e diversidade antes do Círio

Com o tema “Festa da Chiquita: 50 anos Patrimônio Cultural da Humanidade”, evento reuniu artistas, ativistas e admiradores na Praça da República, em Belém, reafirmando a luta por direitos e cidadania LGBTQIAPN+

Jéssica Nascimento e Vito Gemaque

11 de outubro de 2026 às 01:18

Festa da Chiquita na noite deste sábado (10).

Festa da Chiquita na noite deste sábado (10). ( Foto: Foto: Cristino Martins )

Na noite deste sábado (10), véspera do 234º Círio de Nossa Senhora de Nazaré, a Praça da República, em frente ao Theatro da Paz, foi palco de uma celebração que une irreverência, arte e resistência. Em sua edição de 50 anos, a Festa da Chiquita voltou a ocupar o espaço público de Belém para celebrar a diversidade LGBTQIAPN+, homenagear personalidades e reafirmar a importância da luta por direitos humanos e cidadania.

Com o tema “Festa da Chiquita: 50 anos Patrimônio Cultural da Humanidade”, o evento destacou a contribuição da manifestação para a cultura paraense e brasileira, além de sua relevância na história da comunidade LGBTQIAPN+. A programação começou após a passagem da Trasladação, uma das procissões que antecedem o Círio, e reuniu diferentes gerações em uma noite marcada pela música, pelo humor e pela valorização da diversidade.

Idealizada e coordenada por Eloi Iglesias, cantor e performer que ajudou a consolidar o formato atual da festa, a Chiquita se tornou um dos eventos mais emblemáticos da programação cultural que acompanha o Círio de Nazaré. Ao longo de cinco décadas, a celebração construiu um espaço de visibilidade e pertencimento para pessoas LGBTQIAPN+, em diálogo com uma das maiores manifestações religiosas do país.

(Foto: Cristino Martins)
(Foto: Cristino Martins)

Cinco décadas de luta e afirmação

Para Eloi Iglesias, a trajetória da Festa da Chiquita revela como iniciativas que nascem de um sonho podem assumir uma dimensão política e cultural muito maior do que a imaginada por seus idealizadores.

“Quando a gente começa alguma coisa, e é um sonho, e as coisas começam a virar realidade, tu não tem noção”, afirmou. Segundo ele, é com o passar do tempo que se percebe o impacto de uma iniciativa que desafia padrões e incomoda setores da sociedade.

O artista ressaltou que a festa é realizada com recursos limitados, contando com o apoio do poder público, de amigos e de pessoas que acreditam na continuidade do projeto. Para ele, a permanência do evento ao longo de 50 anos demonstra a força de uma manifestação que se mantém viva apesar das dificuldades.

“A festa está continuando porque a festa é resistência à raiz”, declarou Eloi, ao defender a continuidade da celebração. “Enquanto nós estivermos vivos, nós vamos continuar.”

Eloi Iglesias.
Eloi Iglesias. (Foto: Cristino Martins)

O coordenador também destacou a importância de manter o evento acessível e de preservar o espaço público como lugar de encontro e manifestação cultural. Em sua avaliação, estruturas grandiosas e interesses econômicos não podem se sobrepor à valorização do patrimônio e ao direito da população de ocupar esses espaços.

Eloi ainda agradeceu à imprensa pela cobertura da festa e pela contribuição para dar visibilidade às pessoas que encontram na Chiquita um espaço de expressão. Para ele, o jornalismo tem papel importante na divulgação de uma manifestação que articula luta, resistência, amor e alegria.

“É um espaço de luta, é um espaço de resistência, é um espaço de amor e de alegria”, resumiu.

Uma celebração que conecta gerações

Entre os admiradores da Festa da Chiquita está o carnavalesco e comentarista Milton Cunha, que acompanha o evento há seis anos. Para ele, a celebração tem um papel importante na preservação da memória das lutas LGBTQIAPN+ e na transmissão dessa história às novas gerações.

“Acho que é bom LGBT saber que existe gente que lutou, que abriu caminho. Acho bacana ter essa noção da linha do tempo”, afirmou.

Milton também destacou o caráter inclusivo e bem-humorado da festa, que combina entretenimento e posicionamento social sem abrir mão da irreverência.

“É representativo, é inclusivo, é engraçado, bem-humorado. É um show. Sou fã. Aplaudo”, declarou.

A presença de personalidades de diferentes áreas reforça essa dimensão plural da Chiquita, que aproxima artistas, profissionais da cultura, ativistas e integrantes da comunidade LGBTQIAPN+ em torno de uma história compartilhada de resistência e afirmação.

O arquiteto e artista plástico experimental Lucas, de 28 anos, participou pela primeira vez e ficou maravilhado com a potência da Festa da Chiquita.

Lucas.
Lucas. (Foto: Cristino Martins)

"Eu não sou de Belém do Pará, cheguei recentemente. A Chiquita é um símbolo para a nossa luta, são 50 anos de existência, de estar aqui fazendo história. Nessa minha primeira Festa da Chiquita, que acontece há 50 anos. Nós estamos dando essa força neste momento delicado, que estamos vivendo. Me sinto potente também, energizado em fazer parte disso, ao acontecer esse evento, nesse local, nessa praça é incrível e uma sensação maravilhosa. Com o Elói e tantas outras pessoas", destacou.

(Foto: Cristino Martins)
(Foto: Cristino Martins)

Homenagens à diversidade e à cultura

Na edição comemorativa dos 50 anos, a Festa da Chiquita homenageou nomes de diferentes trajetórias e áreas de atuação, reconhecendo contribuições para a cultura, a comunicação, a arte e a representatividade.

Entre os homenageados estão a cantora paraense Dona Onete, o estilista Dudu Bertholini, Milton Cunha, Jana Figarella, Mídia Ninja, Alexandre Barilari, Zeca Camargo, Julia Santos, Kenia Sade e Covas Casemiro.

Patrimônio cultural e resistência no Círio

A Festa da Chiquita integra a paisagem cultural de Belém durante o Círio de Nazaré, estabelecendo uma relação singular entre a celebração LGBTQIAPN+ e o contexto de uma das maiores manifestações de fé do Brasil.

O reconhecimento institucional da festa inclui o título de Patrimônio Cultural de Natureza Imaterial do Estado do Pará, concedido pela Lei Estadual nº 9.025, de 17 de março de 2020, e o reconhecimento como patrimônio cultural imaterial do município de Belém, por meio da Lei nº 9.397/2018. A manifestação também está inserida no contexto de valorização do patrimônio cultural acompanhado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

A edição de 2026 marca o início das comemorações do jubileu, que, segundo Eloi Iglesias, devem se estender por dois anos. A proposta é celebrar não apenas a longevidade do evento, mas também as pessoas que ajudaram a construir sua trajetória e aquelas que continuam encontrando nele um espaço de acolhimento e reconhecimento.