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CÍRIO DE NAZARÉ 2026

Fé e cultura nas ruas: Arrastão do Pavulagem ganha as cores da Amazônia no Círio

Entre música, cortejo e devoção, o movimento criado pelo Arraial do Pavulagem transformou as ruas de Belém em espaço de celebração da cultura popular amazônica no período que antecede o Círio de Nazaré

Jéssica Nascimento

9 de outubro de 2026 às 10:20

Às vésperas do Círio de Nazaré, Belém começa a mudar de ritmo. As ruas se enchem de símbolos, sons, promessas e encontros. No meio da atmosfera de devoção que toma conta da cidade, outra expressão, nascida da cultura popular amazônica, encontrou espaço para celebrar a fé à sua própria maneira: o Arrastão do Círio, do Arraial do Pavulagem.

Há 24 anos, o cortejo passou a integrar o calendário cultural que antecede a grande procissão em homenagem a Nossa Senhora de Nazaré. Com música, dança, personagens, instrumentos, cores e brincantes, o movimento transformou as ruas de Belém em um espaço de encontro entre a cultura popular e a religiosidade paraense.

A ideia nasceu de uma lacuna percebida pelos próprios integrantes do Arraial do Pavulagem. Antes do Arrastão do Círio, outras manifestações já ocupavam o período que antecede a procissão, mas faltava, segundo Júnior Soares, cofundador do Arraial do Pavulagem, músico e compositor, uma representação mais direta da cultura popular das ruas de Belém.

“Já tinha o Auto do Círio, a Chiquita, mas não tinha essa representação da cultura popular das ruas de Belém”, lembra.

O cortejo surgiu como o segundo grande “brinquedo” criado pelo Instituto Arraial do Pavulagem. O primeiro foi o Boi Pavulagem, tradicionalmente realizado no mês de junho. O segundo nasceu como uma homenagem a Nossa Senhora de Nazaré e encontrou seu espaço justamente em um dos momentos mais simbólicos da programação do Círio: o intervalo entre a Trasladação e a chegada da imagem da santa à Escadinha da Sé.

Júnior Soares, co-fundador do Arraial do Pavulagem.
Júnior Soares, co-fundador do Arraial do Pavulagem. (Foto: Carmem Helena)

É dali que começa o arrastão.

Os brincantes se reúnem para homenagear a padroeira e, depois, seguem pelas ruas até a Praça de Santo Pedro II. O percurso recupera uma das características que estão na origem do próprio Arraial do Pavulagem: arrastar o público para a rua e conduzi-lo ao encontro com a música.

No palco, o repertório construído ao longo de quase quatro décadas ganha novamente vida. Mas, antes do espetáculo, há o cortejo. E é justamente nesse deslocamento coletivo que está uma das principais forças da manifestação.

A fé que também dança

A aproximação entre cultura popular e religiosidade não é uma novidade no Pará. Ela está presente em diferentes manifestações tradicionais do estado, nas quais a devoção aos santos se mistura à música, à dança, às festas e às celebrações comunitárias.

Júnior Soares cita como exemplos a Marujada de Bragança, ligada a São Benedito, e manifestações de municípios como Cametá, onde as festividades religiosas também convivem com cantorias e expressões populares.

Para o músico, o Arrastão do Círio se insere nessa mesma tradição. A religiosidade não aparece como elemento separado da cultura: ela é incorporada às composições, à estética e aos símbolos levados para as ruas.

“Já naturalmente existe essa cultura popular em torno dessa religiosidade popular”, afirma.

No Arrastão, a homenagem à Nossa Senhora de Nazaré convive, portanto, com uma estética própria do Pavulagem. Bandeiras, adereços, personagens, artesanato, dança e música formam um universo visual e sonoro que se renova a cada edição.

Júnior Soares, co-fundador do Arraial do Pavulagem.
Júnior Soares, co-fundador do Arraial do Pavulagem. (Foto: Carmem Helena)

Os temas mudam. Já foram evocados conceitos como “Senhora da Floresta” e “Boi do Mundo”. A estética acompanha esses caminhos e ajuda a vestir a brincadeira de novos significados.

Mas a essência permanece.

“É um momento em que estamos todos juntos referenciando a cultura popular”, resume Soares.

Muito além de um espetáculo

Para quem observa o Arrastão do lado de fora, pode parecer apenas mais uma apresentação musical que percorre as ruas de Belém. Para quem participa, porém, a experiência é outra.

O cortejo é o ponto culminante de um processo de formação que acontece durante todo o ano. Aprender a dançar, cantar, tocar e compreender os símbolos da manifestação é parte fundamental desse processo.

Na visão de Soares, essa pedagogia é responsável por transformar participação em pertencimento.

“Ensinar, trazer as pessoas para saber como dançar, a cantar as músicas, a se envolver com isso no momento mágico, que é o arrastão, cria raízes profundas nas pessoas que participam”, disse.

A formação, nesse sentido, funciona como uma espécie de transmissão de conhecimento entre gerações. Não se trata apenas de preservar uma tradição, mas de permitir que ela seja vivida, compreendida e recriada por quem chega.

É também por isso que crianças e jovens ocupam um espaço cada vez maior dentro do movimento.

O Arraial do Pavulagem mantém, inclusive, uma extensão voltada às crianças, o Arraial do “Gitinho”, realizado em parceria com o Bole Bole, na região do Guamá. Ali, a aproximação com a cultura popular começa cedo.

Crianças participam de diferentes segmentos, da dança à percussão, passando pelos grupos de pernaltas. Algumas são filhas de antigos brincantes, que cresceram dentro do movimento e hoje levam seus próprios filhos para a brincadeira.

A tradição, assim, deixa de ser apenas memória. Ela passa a fazer parte da vida cotidiana.

Uma cultura que se aprende na rua

Ao falar sobre o futuro, Júnior Soares rejeita a ideia de que as manifestações tradicionais estejam destinadas a desaparecer com o passar do tempo. Para ele, a renovação acontece justamente quando as novas gerações encontram espaço para participar.

Durante muito tempo, lembra, existiu a percepção de que a cultura ancestral seria algo restrito às pessoas mais velhas. Essa realidade, porém, vem mudando.

Hoje, crianças, adolescentes e jovens participam ativamente dos cortejos.

Essa presença ajuda a modificar também a própria compreensão do que significa preservar uma tradição. Não basta assistir. É preciso participar, aprender e reconhecer-se naquele universo.

“Já não é um show que você vai assistir. Na realidade, é um ambiente que você participa, que você frequenta, que você se solidariza, que você aprende a respeitar”, explica.