No centro histórico de Belém, a fé também pode ser moldada em cera. Braços, pernas, cabeças, pulmões, casas, sapatos, veículos e até animais de estimação ocupam prateleiras de fábricas que, há décadas, produzem objetos destinados aos devotos que desejam agradecer por uma graça alcançada. Os chamados ex-votos materializam promessas feitas em momentos de aflição e transformam histórias pessoais de esperança e superação em símbolos que podem ser levados aos pés de Nossa Senhora de Nazaré.
Para quem trabalha com essas peças, a produção vai muito além de uma atividade comercial. Pedro Barbosa, que há cerca de 40 anos trabalha em uma fábrica de objetos de cera, define o ofício como uma forma de devoção. “Eu costumo dizer que esse nosso trabalho já é uma devoção e uma vocação. Não é o foco pelo retorno financeiro. E sim pela vocação e pela devoção que a gente tem”, disse.

Segundo ele, a permanência do negócio, mesmo diante das dificuldades econômicas, também é percebida como uma graça. “Nós somos uma empresa que, graças a Deus, a gente não tem mídia, exposições, nada. Mas a gente continua sobrevivendo. Sabendo que em todos os segmentos do país está um certo problema econômico. E eu acredito que em todo esse contexto há a graça de Nossa Senhora”, afirmou.
Uma tradição que atravessa gerações
A tradição dos ex-votos está ligada a uma relação simbólica entre o pedido, a graça recebida e o objeto escolhido para representar o agradecimento. Para Pedro, a própria matéria-prima ajuda a explicar a permanência desse costume. A cera está presente também nas velas utilizadas nas igrejas, estabelecendo, para ele, uma proximidade entre o objeto da promessa e a prática religiosa.
“Eu acho que existe uma similaridade com a fé e com a igreja. Por ter a cera. Uma vela é feita de cera. E a promessa é feita de cera. Então eu acredito que essa demanda cresceu daí”, explicou.
O comerciante observa ainda que, atualmente, a maior parte dos compradores é formada por pessoas idosas. “Quando você vê, é um público idoso. Não é um público jovem que compra. É um público idoso. Isso já é uma tradição dos idosos”, detalhou.
A empresária Ana Lucia Brauna conhece essa história de perto. A fábrica onde trabalha tem 88 anos e foi herdada do pai, passando posteriormente para ela, o irmão e, mais recentemente, para as filhas. Para ela, trabalhar com os objetos de promessa é também uma forma de participar da fé dos devotos.

“Trabalhar com as promessas, para mim, é um presente de Deus. Eu sou muito grata a Deus pelo trabalho que eu realizo. Você trabalhar com algo que ajuda as pessoas a pagarem uma graça alcançada, eu acho que é uma graça”, afirmou.
O menino de Barcarena
Entre as histórias que permanecem na memória de Pedro está a de uma família de Barcarena. Há cerca de 26 ou 28 anos, um homem começou a comprar anualmente um boneco de cera de aproximadamente 60 centímetros para agradecer pela recuperação do filho, que enfrentou uma enfermidade grave ainda na infância.

O tratamento exigiu que a família buscasse recursos para levar a criança para fora do Estado. O menino cresceu, tornou-se engenheiro e, segundo Pedro, trabalha atualmente na Vale. Mesmo depois de tantos anos, o pai continua cumprindo a promessa.
“Ele já faz essa promessa alcançada pelo filho dele, que foi um problema de enfermidade muito sério, muito grave, que eles tiveram de desenterrar recursos de todas as situações para levar o filho para fora do Estado e bancar o tratamento”, contou.
A peça é grande, pesada e chegou a ser retirada da produção por causa da dificuldade de manuseio. Ainda assim, o devoto não aceita substituí-la por uma versão menor.
“Eu já tentei fazer ele comprar uma peça menor. Mas não, ele quer aquela grande. Então o menino que trabalha na confecção das promessas já sabe. Ele deixa logo pronto o dele”, revelou.
A cada ano, a chegada do homem de Barcarena reforça, para quem trabalha na fábrica, a dimensão afetiva por trás de cada objeto vendido. A peça não é apenas uma representação de cera: carrega uma história familiar, uma doença superada e uma promessa que continua sendo cumprida.
Do sapato à sapataria
Ana Lucia também guarda a história de uma mulher que trabalhava como camelô no Ver-o-Peso e pedia a Nossa Senhora de Nazaré uma mudança de vida para conseguir oferecer melhores condições aos dois filhos.
A transformação começou de maneira inesperada. Em uma fila de banco, a mulher conversou com outra senhora, que lhe ofereceu um par de sapatos para que começasse a revendê-los. O primeiro par foi vendido pela manhã. À tarde, ela voltou para comprar mais.

Com o tempo, o pequeno comércio cresceu. Primeiro, a mulher montou uma sapataria na sala de casa. Depois, conseguiu abrir um estabelecimento no bairro da Pedreira. Todos os anos, ela retorna à fábrica para levar um novo símbolo da história.
“Todos os anos, ela traz um par de sapatos para que eu banhe, e ela possa levar para a Nossa Senhora de Nazaré”, contou Ana Lucia.
Para a empresária, essas pessoas chegam ao estabelecimento não apenas para comprar ou encomendar um objeto. Elas também sentem necessidade de compartilhar o que viveram.
“Elas têm essa necessidade de dizer para o mundo: eu alcancei, eu cheguei lá, a graça me foi concedida”, disse.
O que muda também aparece nos ex-votos
Os objetos escolhidos pelos devotos acompanham as transformações da sociedade. Ana Lucia conta que, ao longo das décadas, os pedidos mudaram de acordo com as necessidades e desejos de cada época.
“Já houve o tempo do telefone. Todo mundo queria pagar promessa porque conseguia uma linha de telefone. Uma coisa absurda, né? Aí passamos pra casa. Aí todo mundo queria uma casa porque conseguia a casa. E hoje você vê que tá mais voltado pro corpo humano”, explicou.
Atualmente, partes do corpo estão entre os itens mais procurados. Pulmões ganharam destaque depois da pandemia de Covid-19. Cabeças, mamas e úteros também são solicitados, principalmente em histórias relacionadas ao enfrentamento de doenças. Pernas e braços aparecem com frequência em casos de acidentes envolvendo motocicletas.
“Pulmão depois da Covid-19 é muito pedido. Aí cabeça, mama, a questão do útero, dos cânceres assim como um todo. Hoje muito perna e braço em função de moto. Pessoa caiu, quebrou”, detalhou.
A relação de afeto também ultrapassa os seres humanos. Cachorros e gatos passaram a aparecer entre os ex-votos levados pelos devotos.
“E também tem hoje o pet, né? Cachorro e gato. Vende muito. Todo mundo faz promessa pros seus bichinhos”, destacou.
Uma fábrica de histórias
Embora tenham diferentes formatos, os objetos seguem um processo essencialmente artesanal. As peças são feitas de parafina e produzidas ocas, para reduzir o peso e facilitar o transporte pelos devotos.
“Nós começamos a trabalhar esse ano dia 1º de julho. As peças são feitas de parafina. Elas são ocas, porque mesmo assim elas já têm um peso. Então você vê uma perna e um braço, eles já têm um peso significativo. Imagina se isso fosse maciço, seriam pesos muito difíceis das pessoas carregarem. É feito de parafina. Tudo é artesanal”, explicou Ana Lucia.
Na fábrica, as encomendas revelam um pouco das preocupações de quem chega em busca de uma peça. Há quem procure um objeto relacionado à saúde, quem queira agradecer por uma conquista material e quem escolha representar alguém que conseguiu superar uma dificuldade.
“É a mãe que traz um par de algemas porque o filho foi solto. É a pessoa que traz uma tesoura que conseguiu montar o seu salão. É a pessoa que me traz um CD que conseguiu gravar o seu CD. Então, são muitas histórias que marcam a gente nesse tempo todo”, contou.
São objetos que, isoladamente, podem parecer simples. Mas, para quem os carrega, representam momentos decisivos da vida.
A fé que se renova
A permanência dos ex-votos atravessa décadas porque, para os entrevistados, a tradição está diretamente ligada à continuidade da fé. Pedro estima que a prática da confecção de promessas já tenha mais de oito ou nove décadas e vê na própria longevidade do costume uma demonstração de sua força.
“Eu acho que a fé nunca acaba. E se você for perceber, isso já existe uma tradição há mais de 80 anos, 90 anos. A confecção da promessa”, afirmou.
Ele explica que a experiência de uma pessoa também pode estimular outra a fazer uma promessa. Uma graça alcançada é contada, compartilhada e transforma-se em referência para quem ainda espera por uma resposta.
“Deu certo? Beleza. Sem querer você divulga para outras pessoas. Outras pessoas dizem: ‘Poxa, fulano pagou uma promessa. Deu certo. Vou me apegar com Nossa Senhora e pedir uma graça para tal coisa’. E assim ficou esse tempo todo nesse trabalho com a promessa”, explicou.
Ana Lucia também relaciona a permanência dos ex-votos às dificuldades enfrentadas no cotidiano. Para ela, a fé ocupa um espaço ainda maior diante de problemas que parecem cada vez mais difíceis de superar.
“Porque eu acho que a fé só aumenta. Eu acho que em função do próprio estilo de vida, eu acho que em função do que se vive hoje, eu acho que a fé é, entre aspas, o que nos resta”, afirmou.
