Para os jovens paraenses, o Círio de Nazaré pode assumir diferentes formas, mas mantém a capacidade de aproximar fé, família, amizade e memória. Há quem acompanhe a procissão desde o nascimento e quem tenha encontrado na passagem da imagem de Nossa Senhora uma experiência marcante de espiritualidade. Aos 19 e 24 anos, Emanuele Tomazio e Mateus Lima representam uma geração que mantém a tradição, mas também constrói novas maneiras de vivê-la.
Uma tradição que começou na infância
Estudante de cursinho, Emanuele Tomazio, de 19 anos, participa do Círio desde que nasceu. As primeiras lembranças estão ligadas à família e, especialmente, à avó, com quem costumava acompanhar a festividade todos os anos.
“Participo do Círio desde que nasci todo ano”, contou.
Quando criança, Emanuele acompanhava a programação ao lado da avó. Depois da morte dela, a família passou a acompanhar o percurso de outra maneira, mantendo a tradição e seguindo o trajeto até a Basílica de Nazaré.

“Acho que quando eu era criança, desde sempre eu acompanhei. E a gente ficava em um local com a minha vózinha, todos os anos. Depois que minha vó faleceu, a gente passou a acompanhar mesmo. O domingo, o trajeto todo até a Basílica”, relembrou.
A memória familiar, assim, se transforma em uma forma de continuidade. O Círio que começou como uma experiência compartilhada com a avó permanece na vida de Emanuele, agora incorporado à própria trajetória.
Quando a fé ganha forma
Para Emanuele, a força do Círio está justamente na possibilidade de transformar uma experiência interior em algo visível e coletivo. A fé, que normalmente é vivida de maneira individual, ganha expressão no corpo dos milhares de devotos que participam da festividade.
“O Círio é a demonstração física da fé. Porque a fé passa de ser algo que fica dentro da gente para o corpo ali”, afirmou.
A estudante também destaca a sintonia criada entre pessoas diferentes durante a manifestação religiosa. Para ela, a multidão reunida em torno de Nossa Senhora compartilha uma mesma experiência de devoção.
“Todas as pessoas que estão ali no Círio estão em uma só sintonia. E eu vejo a fé como algo físico mesmo ali”, destacou.
Uma experiência que acelera o coração
A relação de Mateus Lima, de 24 anos, com a religião também está ligada à família. Autônomo e trabalhador de uma gráfica, ele conta que não costuma frequentar a igreja com tanta frequência, mas mantém a identificação com o catolicismo e participa das celebrações próximas de sua casa, no bairro do Marco.

“Eu quase não venho de igreja, entendeu? Mas eu sou muito católico, eu vou na igreja lá de perto de casa, fica lá no bairro do Marco”, explicou.
A família, segundo ele, tem uma forte tradição católica. Um dos momentos que reforçaram sua fé aconteceu quando uma tia ficou doente. Diante do diagnóstico de câncer, Mateus passou a rezar por ela.
“A minha família, ela é muito católica. Muito católica. Teve um tempo que a minha tia, ela estava enferma. Aí a gente vinha na igreja a orar por ela”, contou.
Ele afirma que rezou intensamente pela recuperação da tia e comemora o fato de ela estar atualmente bem.
“Quando a minha tia estava enferma, eu orei muito por ela. Muito, muito. E hoje ela está muito boa. Ela estava com câncer”, revelou.
O encontro com Nossa Senhora
Mateus acompanha o Círio pelas ruas, muitas vezes ao lado dos amigos. No ano passado, uma experiência durante a passagem da imagem de Nossa Senhora de Nazaré pela Almirante Barroso ficou especialmente marcada.
“Ano passado, a Santa estava passando lá no Almirante Barroso. Aí eu fui lá ver, entendeu? Aí quando ela passou perto, eu senti assim uma presença. Meu Deus, meu coração acelerou”, relatou.
A emoção, segundo ele, foi acompanhada por uma sensação intensa, que descreve como uma espécie de aura entrando no coração. A experiência terminou em um sorriso e se tornou uma lembrança especial por ter sido a primeira vez que ele viu a imagem passar naquele trecho.
“Senti uma aura, assim, muito forte e imensa entrando no meu coração, entendeu? Aí eu comecei a sorrir. Isso me marcou”, afirmou.
Fé para seguir em frente
Para Mateus, a experiência religiosa também está relacionada à capacidade de acreditar em objetivos mesmo diante das dificuldades. Ele vê a fé como uma força para buscar aquilo que parece distante ou impossível.
“Acho que a fé, a fé serve pra tudo, né, cara? Pra gente rezar sonhos. Por exemplo, assim, tu quer alcançar uma coisa, impossível. Só que, assim, tem fé, né? Tem que ter fé”, disse.
Na visão dele, a fé ajuda a transformar possibilidades em conquistas, independentemente do tempo necessário para alcançá-las.
“Porque mesmo que aquilo seja possível, com a fé aquilo vai ser possível, entendeu? Tu vai alcançar aquilo, não importa como. Mas uma hora aquilo vai alcançar, vai ser alcançado”, afirmou.
O Círio que também encanta as crianças
Entre as diferentes manifestações da festividade, Mateus guarda um carinho especial pelo Círio das Crianças. A presença dos pequenos vestidos de anjos chama sua atenção e desperta uma admiração que vai além da dimensão religiosa.
“Eu gosto muito do Círio das Crianças. Porque quando a gente sai e vê aqueles anzinhos, as crianças vestidas de anjos, eu acho muito bonito. Até porque eu também gosto de criança, entendeu?”, destacou.
