O Círio de Nazaré também se celebra à mesa. Depois das procissões, promessas e homenagens à padroeira dos paraenses, famílias se reúnem para compartilhar um almoço marcado por sabores que atravessam gerações. Maniçoba, pato no tucupi, arroz paraense, vatapá, doces e outras receitas tradicionais fazem parte de uma tradição que mistura gastronomia, memória afetiva e devoção.
No Pará, preparar a comida do Círio não é apenas uma tarefa doméstica. É também uma forma de manter viva uma cultura transmitida entre pais, filhos e avós. Para quem trabalha com os ingredientes que chegam às mesas nesta época do ano, como os vendedores de maniva e maniçoba do Complexo do Ver-o-Peso, setembro é o período em que os sinais da festividade começam a aparecer nas vendas.
“Quando entra setembro, já começa a aquecer a venda, já começa a sair o produto. Já dá as caras que o Círio tá chegando”, conta Anilson Trindade, que trabalha com a venda de maniva e maniçoba no complexo.
Uma tradição que começa muito antes do almoço
A preparação de um dos pratos mais emblemáticos do almoço do Círio começa dias antes da família se sentar à mesa. A maniva, folha da mandioca utilizada no preparo da maniçoba, precisa passar por um longo processo de cozimento antes de ser consumida.
No Ver-o-Peso, a comercialização do ingrediente acompanha esse calendário. Segundo Anilson, a procura pelo produto já foi maior, principalmente porque o aumento dos preços dos ingredientes tornou o preparo da maniçoba mais caro para muitas famílias.

“Antigamente tinha mais facilidade de sair esse produto. Esse produto saía muito em todas as mesas aqui no estado do Pará e em Belém. (...) A inflação subiu muito. Hoje em dia muitas pessoas não têm condições de fazer esse produto”, relata.
Para o vendedor, a mudança também está relacionada à entrada dos supermercados nesse mercado. Ainda assim, ele destaca que há consumidores que mantêm a preferência pela experiência tradicional de comprar a maniva fresca no Ver-o-Peso.

“Todo supermercado tem esse produto, mas só que o nosso ainda tem aquela tradição que moe na hora, que cozinha na hora. No supermercado você compra a maniva congelada. Há diferença. As pessoas tradicionais gostam de comprar aqui no Ver-O-Peso”, explica.
A tradição, para ele, vai além da comida. Está ligada ao encontro proporcionado pelo Círio e à história de sua própria família.
“É uma cultura paraense muito boa. É uma cultura de lá atrás dos meus pais, dos meus avós. A gente atrai a família para aquele momento onde é feita toda a comida. É um momento muito bonito. Muito bonito mesmo”, afirma.
O Ver-o-Peso também sente a chegada do Círio
No complexo, a proximidade da festividade pode ser percebida no movimento das barracas. Para Jane Costa, que também vende maniva e maniçoba, a procura começa a aumentar principalmente a partir de meados de setembro.

“A partir de setembro, dia 15 em diante, já sai muito, bastante. Porque nós temos que se programar, porque tem muita entrega também. Fora de venda daqui, nós temos entrega para as outras feiras”, conta.
A movimentação exige planejamento para atender tanto os clientes que vão pessoalmente ao Ver-o-Peso quanto aqueles que fazem encomendas.
Para Jane, o aumento da procura traz de volta lembranças relacionadas ao almoço tradicional do Círio.

“O Círio traz uma lembrança muito boa. Ainda mais ter aquela mesa recheada, um pato no tucupi, uma maniçoba bem feita, né. Lembranças muito boas. Da onde eu vivo, né, da onde eu tiro o meu sustento”, diz.
A época também representa uma oportunidade importante para quem depende das vendas para garantir a renda.
“Quando chega essa época, é uma felicidade. Apesar que os trabalhos dobram mais, mas é gostoso trabalhar, saber que está vendendo, né. Vai vender bastante”, afirma Jane.
Um sabor que chega a outras mesas
O Círio também amplia o alcance de quem trabalha com a culinária paraense. Elias Soares, vendedor de maniva e maniçoba no Ver-o-Peso, conta que a festividade representa um dos períodos mais importantes do ano para seu trabalho.

“É uma coisa muito grande, porque várias pessoas vão comer, né? Aí vem de fora para experimentar, e eu fico alegre”, afirma.
A satisfação, segundo ele, também está em ver o produto chegar a diferentes lugares e ser reconhecido pelos consumidores.
“Os outros comem e falam: ‘Olha, eu comprei maniçoba lá na barraca do Seu Elias’. Aí vão divulgando mais o meu trabalho e eu vou vendendo mais”, conta.
Além de movimentar o comércio, as vendas do período ajudam a sustentar as famílias que vivem desse trabalho.
“Eu me sinto feliz quando chega o Círio, porque entra bastante dinheiro e vai pagando as dívidas e vai se mantendo”, diz Elias.
