Há quem acompanhe o Círio de Nazaré há tanto tempo que as lembranças da procissão se confundem com a própria história de vida. São memórias de infância ao lado dos pais, promessas cumpridas, familiares curados e momentos vividos na corda que permanecem guardados mesmo quando a idade ou as condições físicas já não permitem acompanhar a procissão como antes. Aos 72 anos, a servidora pública aposentada Maria Figueiredo preserva essas lembranças. Aos 54, a doméstica Francinete França também carrega na memória um Círio marcado por fé, emoção e promessas.
Uma vida acompanhando Nossa Senhora
As primeiras lembranças de Maria Figueiredo relacionadas ao Círio remontam à infância. Ela conta que acompanhava a procissão ao lado do pai e da mãe, experiência que deixou marcas profundas em sua trajetória e ajudou a construir uma devoção que permanece até hoje.
“Eu tenho muitas histórias de quando eu era criança, que eu lembro, né? Quando eu vinha com o meu pai desde pequena, com a minha mãe. E isso marca pra gente, né? Uma história que relembra a vida da gente é que a gente tem uma fé muito grande por Nossa Senhora”, contou.

Com o passar dos anos, Maria continuou participando da festividade ao lado da família. Quando era mais jovem, acompanhava o Círio de maneira mais próxima, enquanto sobrinhos também participavam da corda.
“Eu acompanhava o Círio de Nazaré quando eu era mais nova, né? A família que eu tinha ainda era bem mais nova, meus sobrinhos tudo iam na corda de Nossa Senhora”, relembrou.
Hoje, aos 72 anos, ela precisou adaptar a forma de acompanhar a procissão. Em vez de seguir desde os primeiros pontos do percurso, prefere acompanhar a partir da Praça da República, mas ainda faz questão de estar presente.
“Agora eu venho, eu acompanho da Praça da República pra cá, porque já não dá pra acompanhar desde lá. Mas dá uma força, consegue, entendeu? Mas eu tenho essa lembrança, essas coisas muito boas”, afirmou.
A berlinda que atravessa o tempo
Entre tantas imagens guardadas na memória, algumas permanecem especialmente fortes para Maria. Uma delas é a presença do chamado Barco dos Anjinhos e, principalmente, a passagem da berlinda de Nossa Senhora de Nazaré.
“Sobre lembrança mais forte, que marcava foi quando tinha o Barco dos Anjinhos, né? E a passagem dela sempre marca pra gente”, disse.
Para ela, a beleza da berlinda é uma imagem que se renova a cada edição e mantém viva a emoção de acompanhar a procissão.
“A berlinda dela vem muito linda, isso sempre marca pra gente. E todo ano que vem a berlinda”, destacou.
A fé também esteve presente em momentos difíceis da família. Maria conta que fez pedidos a Nossa Senhora quando o pai enfrentou um câncer. Segundo ela, ele conseguiu se recuperar da doença e viveu até morrer de velhice.
“Foi uma doença que o meu pai teve, um câncer, e ele ficou bom. Ele morreu de velhice, e ele ficou curado. E foi com a fé, né? Tendo a fé, a gente consegue o que deseja”, revelou.
Uma promessa feita pela família
Para Francinete França, de 54 anos, uma das lembranças mais marcantes do Círio também nasceu de um momento de aflição familiar. Quando o sobrinho nasceu, precisou ser levado para a UTI neonatal. Diante da situação, familiares fizeram promessas a Nossa Senhora de Nazaré.

“A história que mais me marcou foi a do meu sobrinho. Quando ele nasceu, ele nasceu e foi para a UTI neonatal. E era muito choro, ele era muito bem-vindo, né? E aí nós todos lá em casa fizemos promessa”, relatou.
Francinete, o irmão e a mãe da criança prometeram participar da procissão na corda. A mãe do menino desistiu no caminho, mas Francinete continuou até o fim.
“Eu, meu irmão e a mãe dele fizemos promessa para ir na corda. E nós chegamos aí, né? A mãe dele desistiu no meio do caminho, mas eu vim até aqui”, contou.
A chegada ao destino da procissão se transformou em uma das memórias mais emocionantes para ela. Depois do esforço e das dificuldades enfrentadas ao longo do percurso, Francinete lembra do momento em que os devotos se ajoelhavam diante de Nossa Senhora e recebiam pedaços da corda.
“Quando chegou aqui, a emoção tomou conta. A gente se ajoelha, o padre dava um pedaço da corda para a gente. Não tinha aquele empurro e empurra de querer um pedaço da corda”, relembrou.
A memória de um Círio diferente
A lembrança de Francinete também revela mudanças percebidas ao longo dos anos na relação dos fiéis com a corda. Ela compara aquela experiência, marcada pela oração e pela partilha, com situações que observa atualmente.
“Foi uma vez que eu fui na corda e achei muito lindo. De chegar aqui, todo mundo se ajoelhar, ver a oração do padre, a reza. E depois ele dividir pedaço de corda para cada. E isso eu achei muito lindo, sabe?”, disse.
Francinete afirma ter acompanhado quase todas as edições do Círio desde que passou a compreender a dimensão da festividade. Quando não consegue participar presencialmente, acompanha a programação pela televisão.
“Acompanhei quase todas as edições do Círio. Eu sabia o que é o Círio depois de grande. Quase todas. Só quando estou em crise, que não dá, eu não venho”, explicou.
Mesmo sem conseguir enfrentar o percurso da mesma maneira, ela procura manter a tradição. No ano passado, por exemplo, acompanhou a movimentação de casa, junto com a família.
“Mas acompanho pela TV. Tanto é que pediram essa casa para a gente ano passado, né? Eu vou para a varanda, assim. A gente compra para ir para a varanda, a família, entendeu? Porque não está dando mais”, detalhou.
A corda como elo com o passado
Entre os diferentes momentos do Círio, Francinete mantém uma preferência: a corda. É nela que está uma das experiências mais importantes de sua trajetória de fé.
“Eu gosto mais do momento da corda. Porque eu já vivi, né? Eu já vivi o momento da corda. Então, para mim, o mais importante é a corda”, afirmou.
No ano passado, ela ainda conseguiu participar do carro dos milagres ao lado da sobrinha. Agora, carrega um novo pedido e pretende voltar a acompanhar a procissão neste ano, mesmo que por pouco tempo.
“Eu peço para mim, toda vez, tirar esse apoio que o médico me deu. E eu pretendo ir esse ano. Nem que seja um pouquinho, nem para me ver ela, né? Eu pretendo ir”, revelou.
