Enquanto milhões de pessoas tomam as ruas de Belém movidas pela fé em Nossa Senhora de Nazaré, uma outra corrente percorre as romarias em sentido igualmente humanitário: a dos voluntários da Cruz Vermelha. Entre postos de atendimento, caminhadas e procissões, eles estão preparados para acolher desde os casos mais simples, como uma queda de glicemia ou uma insolação, até situações de emergência que exigem atendimento imediato.
Uma operação que cresce com o Círio
A presença da Cruz Vermelha Brasileira no Círio de Nazaré já atravessa quatro décadas. No início, a atuação estava concentrada na distribuição de água aos romeiros. Com o crescimento da manifestação e das necessidades de quem participa das procissões, o trabalho ganhou uma estrutura voltada também para o atendimento em saúde.

“A Cruz Vermelha já está trabalhando no Círio há mais de 40 anos. Começou a distribuir água e a gente viu a necessidade de fazer atendimento médico com essas pessoas”, contou o presidente da Cruz Vermelha Brasileira do Pará, Isaias Skeet Junior.
A expansão do Círio também exige uma preparação cada vez maior da instituição. Segundo Isaias, o aumento do número de pessoas nas ruas faz com que a Cruz Vermelha precise ampliar tanto os postos de atendimento quanto o contingente de voluntários mobilizados.

“A cada ano isso vem aumentando. A gente tenta melhorar a quantidade de postos, aumentar a quantidade de postos, aumentar o número de voluntários que a gente bota na rua. Porque a gente sabe que o Círio também aumenta todos os anos”, afirmou.
A dimensão da operação ajuda a explicar o tamanho desse esforço. No domingo do Círio, a estimativa é de uma multidão de aproximadamente 2,5 milhões de pessoas. Para acompanhar esse crescimento, a instituição também amplia o planejamento.
“A gente estava em 1 milhão, 1 milhão e meio, a gente está com 2 milhões e meio de pessoas na rua no domingo. Então a gente tem que se preparar para poder fazer esse atendimento com essas pessoas”, destacou Isaias.
Atendimento em todas as romarias
A atuação da Cruz Vermelha não se limita à grande procissão do segundo domingo de outubro. Os voluntários estão presentes nas diferentes etapas da programação, com postos de acolhida e atendimento espalhados pelos trajetos das romarias.
“Nós montamos atendimento em todas as romarias do Círio, em todas as atividades do Círio a Cruz Vermelha se faz presente”, explicou Isaias.
Os postos também funcionam como pontos de acolhimento para os romeiros que percorrem longas distâncias até Belém. A instituição acompanha as caminhadas e participa das procissões que integram a programação nazarena.

“Nós também temos postos de acolhida dos romeiros e a gente faz todas as procissões do Círio”, detalhou o presidente.
O trabalho se estende ainda às atividades realizadas durante a chamada Quinzena Nazarena. A equipe acompanha diferentes momentos da programação, incluindo a romaria fluvial, o ciclo-romaria, a Romaria da Acessibilidade e as atividades voltadas à juventude e às crianças.
“Em todas as procissões a gente se preocupa com tudo, né? Fluvial, ciclo-romaria, toda a Romaria da Acessibilidade, juventude das crianças. Toda a Quinzena Nazarena também”, afirmou.
Do mal-estar às emergências
Em meio à multidão, os atendimentos mais frequentes podem começar com situações aparentemente simples. Uma queda de glicemia ou uma insolação, por exemplo, pode ser resolvida rapidamente para que o romeiro retome o percurso.
“Do mais comum ao mais simples, né? Uma baixa de glicemia, uma insolação. A pessoa tem um dos mais simples, a gente faz atendimento. Se rapidamente já consegue retomar a normalidade, já segue a procissão de novo”, explicou Isaias.
Mas a estrutura precisa estar preparada para situações muito mais graves. Ao longo do Círio, os voluntários podem se deparar com emergências que exigem resposta imediata.
“As pessoas pensam que a gente só tem pequenos casos, a gente tem todo tipo de atendimento. Uma parada cardiorrespiratória, um princípio de aborto, um parto. Tem tudo no Círio de Nazaré”, revelou.
Por isso, a rapidez é um dos principais desafios de uma operação realizada em meio a uma multidão em movimento.
“O Círio é atípico, né? O Círio é um evento massivo. É uma grande multidão na rua e o atendimento tem que ser muito rápido”, destacou o presidente.
Milhares de voluntários nas ruas
A dimensão do trabalho também aparece no número de pessoas envolvidas. No ano passado, segundo Isaias, 17,4 mil voluntários participaram das ações da Cruz Vermelha nas procissões do Círio de Nazaré. Para este ano, a instituição pretende ampliar esse contingente, levando em consideração também as condições climáticas.
“Ano passado a Cruz Vermelha trabalhou com 17.400 voluntários em todas as procissões do Círio de Nazaré. Esse ano nós estamos com a visão de ter um pouco mais de pessoas, porque nós já estamos pensando na questão do calor. O El Niño está vindo muito forte”, afirmou.
Para fazer parte desse contingente, porém, não basta apenas a vontade de estar nas ruas. O espírito de ajuda ao próximo é considerado essencial, enquanto a formação em primeiros socorros prepara os voluntários para situações reais.
“As pessoas que procuram a Cruz Vermelha são pessoas que querem ajudar. Esse é o primeiro critério que a gente tem que levar em consideração, né? A boa vontade das pessoas de quererem ajudar o próximo”, disse Isaias.
Segundo ele, os voluntários efetivos da instituição no Pará também recebem formação para atuar em situações de emergência.
“Todo voluntário efetivo da Cruz Vermelha aqui no Estado do Pará é socorrista também. Ele faz um curso de primeiros socorros”, explicou.
A preparação, entretanto, não termina com a formação inicial. A instituição busca manter os voluntários em constante treinamento para que estejam preparados quando a situação deixar de ser uma simulação.
“A gente tenta qualificar cada vez mais e treinar cada vez mais para poder atender quando for real, né? Quando for um atendimento real”, afirmou.
Uma primeira experiência movida pela gratidão
Entre os rostos que integram a operação em 2026 está o da administradora Laryssa Silva, que participa pela primeira vez como voluntária. A decisão de se inscrever nasceu de uma vontade antiga e de uma experiência pessoal marcada pela fé.
Laryssa conta que passou por duas gestações de risco. Na primeira, o bebê nasceu sem respirar. Na segunda, a gravidez precisou ser interrompida com 35 semanas por causa da pressão alta. Em meio às dificuldades, ela diz ter colocado os filhos nas mãos de Nossa Senhora.

“Já era uma vontade muito, muito grande no meu coração. E só que durante as minhas duas gestações, foram gestações bastante complicadas. Foram gestações de risco”, relatou.
A experiência fez com que ela assumisse o compromisso de, um dia, também servir aos outros durante o Círio. Quando as inscrições para o voluntariado foram abertas, não hesitou.
“No dia do parto, eu falei para ela que eu iria procurar me voluntariar, ajudar no Círio. Porque eu sei que isso é uma questão de retribuição”, contou.
Hoje, com os filhos saudáveis, Laryssa vê o trabalho como uma forma de concretizar uma vontade que permaneceu durante anos.
“E os meus filhos hoje estão aí, saudáveis, graças a Deus, muito saudáveis. E esse ano, assim que eu vi a inscrição, não pensei duas vezes, me inscrevi. E aqui estou para fazer... Não pagar essa promessa, mas sim realizar essa vontade que sempre esteve no meu coração”, disse.
Para ela, a experiência de participar do Círio a partir do voluntariado acrescenta uma nova dimensão à devoção que já fazia parte da sua vida.
“Eu sou católica e eu sempre estive participando do Círio. E hoje, do lado do voluntariado, do lado do voluntariado, servindo é uma emoção muito grande poder estar servindo, poder estar atuando junto com as pessoas”, afirmou.
A voluntária resume essa experiência como uma troca entre esforço físico e realização pessoal. O trabalho pode exigir do corpo, mas, para ela, o sentido de ajudar acaba sendo recompensador.
“Hoje, tendo essa oportunidade de servir outras pessoas que tu nem conhece, tu nunca viu. Mas tu tendo essa oportunidade de servir é uma coisa que te alegra o coração. Que vai cansar o corpo, mas a alma, ela descansa”, declarou.
Quando a vontade de ajudar vira serviço
Também estreante no voluntariado da Cruz Vermelha em 2026, o pintor Messias Correa chegou à equipe por meio de um convite de um amigo. Ele já observava a movimentação das pessoas nas ruas durante o Círio e tinha vontade de participar.
“Um amigo me convidou e eu resolvi enviar esse apoio pra ele”, contou.
Sem saber inicialmente como fazer a inscrição, Messias buscou informações depois do convite e encontrou uma maneira de transformar a vontade em participação.

“Já que eu via pessoas na rua, assim, eu tinha vontade de participar. Ele me chamou, eu não sabia como me inscrever. E como ele me deu a ideia, eu procurei saber melhor”, explicou.
No meio de uma das maiores manifestações religiosas do país, a experiência ganhou para ele um significado que vai além de acompanhar a multidão. É a possibilidade de estar ali para cuidar de outras pessoas.
“Uma emoção muito grande de ajudar o próximo. Essa é a sensação melhor”, afirmou.
A missão que se renova a cada Círio
Para a Cruz Vermelha, o Círio representa a maior operação realizada pela instituição ao longo do ano. A imprevisibilidade das ocorrências e a dimensão da multidão exigem planejamento, treinamento e capacidade de resposta.
“O Círio para a Cruz Vermelha é a maior operação que a gente tem em um ano. A gente se prepara muito para essa atividade que a gente chama de projeto Círio na Cruz Vermelha para poder atender a população da melhor maneira possível, porque a gente não sabe o que pode acontecer”, disse Isaias.
O resultado esperado não se resume ao número de atendimentos realizados. Para quem coordena a operação, existe também uma dimensão humana na conclusão de cada romaria: saber que o trabalho dos voluntários fez diferença.
“A gratidão que a gente tem de ver um trabalho concluído com sucesso, né? A gente conseguir salvar várias vidas, atender várias vidas da melhor maneira possível. Isso gratifica todos os voluntários da Cruz Vermelha”, afirmou.
E é justamente essa sensação que mantém a missão em movimento. Quando termina um Círio, começa a preparação para o próximo.
“Então ano que vem vai ter de novo. Então isso aí incentiva a gente estar continuando. A gente vê que fez um trabalho bem feito”, concluiu Isaias.
