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CÍRIO DE NAZARÉ 2026

Entre a fé e a segurança: PRF reforça prevenção durante as romarias do Círio

Planejamento começa após cada edição do Círio e reúne avaliação de riscos, definição de bloqueios e integração entre órgãos para proteger romeiros e manter a circulação nas rodovias federais

Jéssica Nascimento

8 de outubro de 2026 às 15:19

Enquanto milhares de fiéis seguem pelas rodovias federais movidos pela fé em Nossa Senhora de Nazaré, uma operação de segurança é cuidadosamente planejada para que o percurso seja marcado pela devoção, e não por acidentes. A atuação da Polícia Rodoviária Federal (PRF) no Pará começa muito antes das romarias: termina uma edição do Círio e já tem início a avaliação para a seguinte. 

Em 2026, a instituição chegará à 35ª participação consecutiva na operação de segurança do Círio de Nazaré, levando para as ruas a experiência acumulada ao longo de mais de três décadas.

O planejamento começa quando a romaria termina

O trabalho da PRF é construído a partir da análise das operações anteriores. Segundo o superintendente da PRF no Pará, inspetor Haroldo Teixeira Silva, a avaliação dos resultados começa logo depois do encerramento das atividades, ainda nos últimos meses do ano.

“Ao final de cada projeção rodoviária, de cada operação do Círio de Nazaré, a gente faz uma avaliação. O planejamento já inicia logo após, em novembro, dezembro, a gente já inicia fazendo uma avaliação do que foram os pontos positivos e o que foram os pontos negativos, o que é que precisa ser corrigido para a próxima operação”, disse Haroldo.

A preparação se intensifica à medida que o Círio se aproxima. São avaliados os pontos de maior concentração de pessoas, cruzamentos, acessos, passarelas, trechos em obras e locais que possam representar riscos ou dificultar o deslocamento da procissão.

Inspetor Haroldo Teixeira Silva, Superintendente da Polícia Rodoviária Federal no Pará (PRF-PA).
Inspetor Haroldo Teixeira Silva, Superintendente da Polícia Rodoviária Federal no Pará (PRF-PA). (Foto: Wagner Santana)

O trabalho é feito em conjunto com a Diretoria da Festa de Nazaré e com órgãos estaduais e municipais de segurança, trânsito, mobilidade e atendimento de emergência. A partir dessas análises, são definidos percurso, horários, pontos de bloqueio, distribuição das equipes, atuação das motocicletas, rotas alternativas e procedimentos para eventuais ocorrências.

De acordo com o policial rodoviário federal Salim Junes, chefe do Núcleo de Comunicação Institucional da PRF no Pará, a experiência acumulada é um dos principais instrumentos para aperfeiçoar a operação.

“A preparação é construída a partir da experiência acumulada nas edições anteriores e se intensifica nos meses que antecedem o Círio. Em 2026, a PRF chegará à sua 35ª participação consecutiva na operação de segurança do Círio de Nazaré, consolidando uma atuação marcada pelo conhecimento do percurso e pelo aperfeiçoamento contínuo do planejamento operacional”, afirmou.

Em 2025, a operação das romarias rodoviárias mobilizou aproximadamente 120 servidores da PRF e 80 viaturas. O percurso combinado do Traslado para Ananindeua-Marituba e da Romaria Rodoviária chegou a cerca de 76 quilômetros, com previsão de 13 horas de operação.

Um comboio que reúne diferentes caminhos

Garantir a segurança de uma romaria rodoviária significa administrar, ao mesmo tempo, pedestres, ciclistas, motociclistas, veículos e equipes de segurança em um mesmo espaço. A tarefa se torna ainda mais complexa porque a BR-316 é uma das principais vias de entrada e saída da Região Metropolitana de Belém e mantém fluxo intenso de veículos.

(Foto: Wagner Santana)
(Foto: Wagner Santana)

“É muito complexo você tentar organizar um comboio, naquele comboio, milhões de pessoas, pedestres, ciclistas, viaturas, policiais em deslocamento a pé ou através de motocicletas. O nosso maior objetivo é organizar e dar segurança a todos que estão ali nesse trajeto do deslocamento das projeções rodoviárias”, explicou Haroldo.

Durante a passagem da imagem peregrina, a velocidade do comboio é baixa, geralmente entre 10 e 15 quilômetros por hora. A proximidade de motociclistas, ciclistas e pedestres da berlinda exige atenção permanente das equipes.

Para Salim Junes, um dos pontos mais delicados é conciliar a movimentação dos fiéis com a necessidade de manter a circulação possível para os demais usuários das rodovias.

“O principal desafio é administrar, no mesmo espaço, uma grande concentração de pedestres, ciclistas, motociclistas e veículos”, destacou.

Por isso, a operação utiliza bloqueios temporários e progressivos, isolamento de cruzamentos, controle de acessos e liberação gradual das vias conforme a escolta avança. Em determinados momentos, retenções, bloqueios e alterações temporárias no trânsito são inevitáveis.

“O desafio se torna ainda maior nos trechos em que o percurso deixa a rodovia federal e passa por áreas urbanas densamente povoadas da região metropolitana. Nesses locais, as vias são mais estreitas, há maior número de acessos, cruzamentos, residências e estabelecimentos comerciais, além de uma presença muito próxima e intensa do público”, detalhou Salim.

Atenção redobrada perto da berlinda

A emoção provocada pela passagem da imagem peregrina é um dos elementos mais marcantes do Círio. Mas, para a PRF, esse também é um momento que exige cuidado. A aproximação excessiva da berlinda pode colocar fiéis e integrantes da escolta em risco.

“Bom, a gente entende perfeitamente que é um momento de fé, de emoção, mas a gente orienta justamente a não tentar se aproximar muito daquela, onde a imagem, o carro berlina nosso está transitando ali, porque realmente é um risco de acidente, seja de colisão”, afirmou Haroldo.

O risco aumenta com o deslocamento das motocicletas e com a troca de equipes ao longo do percurso. Crianças também demandam atenção especial.

“Então a gente sempre pede atenção, os pais tenham cuidado com crianças, principalmente que podem soltar a mão dos pais em tentar entrar no comboio ali”, alertou.

A recomendação é que os espectadores permaneçam em locais seguros, como as calçadas, e acompanhem a passagem do comboio sem tentar atravessar o espaço reservado à operação.

Passarelas também entram no radar das equipes. Como foram projetadas para circulação, e não para suportar grandes aglomerações de pessoas, o acesso pode ser restringido quando houver risco. O Corpo de Bombeiros e os demais órgãos envolvidos realizam vistorias para avaliar essas estruturas.

O cuidado começa antes de chegar à procissão

A segurança não se limita à escolta da imagem. A PRF também atua na proteção dos romeiros que chegam a Belém pelas rodovias federais a pé, de bicicleta, de motocicleta ou em veículos.

A BR-316 ganha atenção especial porque concentra parte importante desse fluxo de chegada à capital.

“A nossa capital tem uma característica, que é a única entrada e uma única saída, que é a BR-316. E nesse período do Círio de Nazaré, muitos romeiros saem do interior com o destino da capital caminhando”, explicou Haroldo.

Para quem faz o percurso a pé, a recomendação é caminhar no sentido contrário ao fluxo dos veículos, utilizar o acostamento e permanecer o mais distante possível da pista. A PRF também orienta que os romeiros caminhem em fila indiana, evitem ocupar a faixa de rolamento e usem roupas claras, coloridas ou com elementos refletivos.

Outro cuidado é evitar caminhadas durante a noite, sob chuva ou em condições de baixa visibilidade. O uso de celular e fones de ouvido durante o deslocamento também deve ser evitado.

A lógica é simples: o romeiro precisa enxergar os veículos e também ser percebido pelos motoristas.

Para quem está ao volante, planejamento é prevenção

A responsabilidade pela segurança também é compartilhada por quem utiliza as rodovias sem participar das romarias. A principal orientação da PRF aos motoristas é planejar o deslocamento, acompanhar previamente as informações sobre bloqueios e, quando possível, evitar os horários e trechos por onde passarão as procissões.

Ao encontrar grupos de romeiros, o condutor deve reduzir a velocidade, aumentar a distância de segurança e seguir rigorosamente as orientações dos agentes.

Durante a passagem do comboio, a orientação é não tentar atravessar os pontos bloqueados.

“Olha, vamos fechar o cruzamento naquele momento, não pode o veículo adentrar, vamos dizer assim, porque o comboio vai estar passando, ele pode causar um acidente”, explicou Haroldo.

O respeito às determinações dos agentes também é uma forma de contribuir para que a operação avance com segurança. Segundo a PRF, poucos minutos de espera são preferíveis ao risco de uma colisão ou atropelamento.

Entre as condutas que mais preocupam estão o uso do celular ao volante, a utilização indevida do acostamento e o desrespeito aos bloqueios. Entre os romeiros, preocupam especialmente grupos caminhando pela faixa de rolamento, pessoas com roupas escuras durante a noite e aqueles que caminham distraídos pelo celular ou usando fones de ouvido.

Fé e responsabilidade dividem o mesmo caminho

O Círio é uma manifestação religiosa de dimensão histórica e cultural que mobiliza milhões de pessoas. Para a PRF, atuar durante as romarias significa reconhecer essa característica sem abrir mão da missão de preservar vidas.

A instituição participa diretamente das romarias rodoviárias há mais de três décadas e trabalha em diálogo com a Diretoria da Festa de Nazaré e os demais órgãos envolvidos.

“A gente tem essa missão pelo Círio pelo fato de, principalmente, a PRF dentro dessas atribuições, ela promove a segurança de dignitários e de autoridades. Além disso, a gente procura intervir o mínimo possível, em conjunto com a diretoria da Festa de Nazaré e outros órgãos estaduais, municipais e de mobilidade”, disse Haroldo.

A escolta da imagem peregrina também está relacionada ao reconhecimento institucional de Nossa Senhora de Nazaré como Patrona do Estado do Pará, estabelecido pela Lei Estadual nº 4.371, de 15 de dezembro de 1971. Nesse contexto, a imagem recebe tradicionalmente honras de Chefe de Estado.

Para Salim, porém, a dimensão religiosa não elimina os riscos próprios de uma rodovia.

“As normas continuam sendo necessárias porque há pedestres, motociclistas, ciclistas, crianças, idosos, veículos de grande porte e milhares de pessoas dividindo o mesmo espaço”, afirmou.

Uma missão que termina com todos em segurança

A operação da PRF busca interferir o mínimo possível na manifestação religiosa, mas precisa criar uma estrutura capaz de proteger quem participa e quem continua utilizando as rodovias.

O trabalho envolve planejamento, bloqueios, orientação, fiscalização, escolta e integração entre diferentes instituições. Em cada etapa, o objetivo é reduzir os riscos e permitir que a manifestação de fé siga seu caminho.

“A nossa missão ali é organizar e dar segurança a todos que estão participando ali para que chegue no final todos bem, vamos dizer assim”, destacou Haroldo.

Em meio à emoção da passagem da imagem peregrina, a prevenção assume, assim, um papel silencioso, mas essencial. Para quem acompanha o Círio, seguir as orientações de segurança também significa colaborar para que a fé seja vivida plenamente — com responsabilidade durante o caminho e com a possibilidade de todos retornarem para casa em segurança.

“O papel da PRF não é interferir na manifestação religiosa, mas criar condições para que ela aconteça com segurança. As intervenções, os bloqueios e as orientações têm como finalidade preservar vidas e permitir que os participantes acompanhem as celebrações e retornem com segurança para suas casas”, explicou Salim.