Aos 39 anos, a turismóloga Karen Klautau conta a própria história com Nossa Senhora de Nazaré como quem fala de uma relação construída na dor, na esperança e na gratidão. Para ela, é uma história de amor — especialmente do amor de duas mães por um mesmo filho.
A história começou em 18 de abril de 2017, quando Moisés nasceu prematuro, aos sete meses de gestação, depois que Karen teve pré-eclâmpsia. Pequeno para a idade gestacional e após um período de sofrimento fetal, o bebê precisou lutar pela própria vida desde os primeiros momentos.

Karen também precisou encontrar forças para enfrentar aqueles dias.
No primeiro dia, não conseguiu entrar na UTI para vê-lo. No segundo, também não. No terceiro, criou coragem.
“Quando eu cheguei na UTI, eu vi aquela coisinha tão pequenininha, cheia de aparelho, com um dreno. Eu tive um medo que eu não sei explicar”, declarou.
Naquele momento de fragilidade, havia uma imagem de Nossa Senhora de Nazaré na entrada da Santa Casa, onde Moisés nasceu. A partir dali, a devoção passou a fazer parte da rotina da mãe.
Todos os dias, antes de entrar na UTI, Karen se ajoelhava diante da berlinda e rezava pelo filho.
Foi também na UTI que ouviu uma frase que, segundo ela, mudou a maneira como enfrentaria aqueles dias. Uma enfermeira perguntou se ela tinha fé em alguma coisa.

Karen respondeu que sim. “Então se apegue à sua fé, porque aqui a gente não tem mais nada para fazer por ele”, teria dito a profissional.
Karen saiu da UTI chorando. Diante da imagem de Nossa Senhora, fez um pedido de mãe. “Olha pelo meu filho com teu olhar de mãe, cobre ele com teu manto, protege meu filho.”
31 dias de espera
Moisés permaneceu 31 dias internado. Durante 17 deles, ficou na UTI. Precisou passar por três ciclos de antibióticos, segundo o relato da mãe, porque não apresentava a resposta esperada ao tratamento.
A cada dia, Karen voltava à Santa Casa.Era um ambiente marcado por incertezas. Ela conta que, ao sair da UTI, muitas vezes via famílias enfrentando a perda de seus bebês.
“Era desesperador”, confessa.
Em meio àquele cenário, a fé se tornou, para ela, uma forma de suportar a espera.
Karen fez uma promessa a Nossa Senhora: se o filho saísse daquela situação, ela o levaria todos os anos para acompanhar a Trasladação. Moisés sobreviveu.

Desde o ano em que nasceu, os dois participam da programação do Círio. A família também acompanha a Romaria Fluvial e, atualmente, Moisés participa da Romaria das Crianças. Karen e o marido ainda servem na Casa de Plácido com o Ministério de Música Cântico Novo.
A promessa feita durante os dias mais difíceis se transformou em uma tradição familiar.
“Ele é filho de Maria”
Os anos seguintes também foram de desafios.
Moisés recebeu diagnósticos de paralisia cerebral, epilepsia, deficiência intelectual, Transtorno do Espectro Autista (TEA) e Transtorno Opositor Desafiador (TOD). Segundo Karen, a deficiência intelectual está relacionada à falta de oxigenação no cérebro decorrente das complicações da gestação e do parto.
Vieram também as previsões que assustavam a família. Disseram a Karen que o filho poderia não andar. Aos três anos, Moisés começou a andar.

Depois, disseram que ele poderia não falar. Aos cinco anos, começou a falar. Hoje, segundo a mãe, ele anda, fala, brinca e mantém uma rotina intensa de terapias.
Para Karen, cada conquista ganhou um significado especial. “Se hoje o meu filho está aqui, é graças a Ela. Eu sou muito grata a Nossa Senhora”, afirmou.
A fé da família também aparece em pequenos gestos cotidianos. Moisés aprendeu a rezar a Ave-Maria. Para Karen, considerando as dificuldades enfrentadas pelo filho, o aprendizado é uma vitória.
“Ele sabe rezar. Ele sabe rezar a Ave-Maria. Para ele o Pai-Nosso ainda é muito longo, mas ele sabe rezar a Ave-Maria”, disse.
A devoção, nesse caso, não está apenas nas grandes romarias. Ela aparece dentro de casa, nas orações e na maneira como mãe e filho atravessam juntos cada etapa.
Um menino que ensina a mãe
Ao falar sobre Moisés, Karen não esconde as dificuldades. Mas é o sorriso do filho que ela escolhe destacar.
“Ele tem muitas dificuldades. Ele tem dificuldade de se expressar. Mas ele está o tempo todo sorrindo, o tempo todo brincando”, disse.
A convivência transformou também a maneira como ela olha para a própria vida.
Karen diz que passou a perceber de outra forma aquilo que antes poderia parecer um grande problema. “Às vezes a gente fica reclamando de pequenas coisas. E ele é o tempo todo sorrindo”, contou.

Para ela, a maternidade de Moisés trouxe uma nova compreensão sobre amor, cuidado e gratidão.
“Quando Deus me abençoou com Moisés, ele veio para me transformar em uma pessoa melhor”, declarou.
É nesse sentido que ela se reconhece como uma mãe abençoada e atribui à experiência uma transformação pessoal profunda.
Círio como renovação
Quando setembro e outubro se aproximam, Karen diz que começa a viver um período diferente.
“O Círio, para mim, é tempo de renovação. É tempo de amor. É tempo de família. É o tempo de devoção”, disse.
A família se dedica integralmente à programação. A promessa feita diante da berlinda, em um dos momentos mais difíceis de sua vida, tornou-se uma tradição que atravessa os anos.
Karen e o marido continuam servindo na Casa de Plácido. Moisés acompanha as romarias e participa das celebrações.
Para ela, o Círio é também uma oportunidade de contar a história do filho e testemunhar aquilo que considera uma graça recebida.
“Tudo isso significa milagre”, afirma.
Karen sabe que sua experiência é particular e que cada família enfrenta de uma maneira diferente os diagnósticos, as incertezas e os desafios da vida. Mas é justamente por ter atravessado um período em que a esperança parecia tão pequena que ela faz questão de deixar uma mensagem para outras famílias.
“Não percam a fé. A fé move o mundo”, conclui.
