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CÍRIO DE NAZARÉ 2026

Círio de Nazaré: 14 romarias, diferentes caminhos e uma só expressão de fé

Diretor de procissões do Círio 2026 explica como as romarias foram surgindo ao longo da história e passaram a acolher diferentes públicos, formas de devoção e realidades do povo paraense

Jéssica Nascimento

8 de outubro de 2026 às 14:35

O Círio de Nazaré ultrapassa a dimensão de uma única procissão. Ao longo da festividade, a devoção a Nossa Senhora de Nazaré se manifesta em 14 romarias, cada uma com características próprias e voltada a diferentes públicos e maneiras de viver a fé. Para Mário Tuma Júnior, diretor de procissões do Círio de Nazaré 2026, essa diversidade é parte da própria força evangelizadora da festividade, que alcança famílias, crianças, jovens, ribeirinhos, motociclistas, ciclistas, corredores e devotos que encontram nas ruas e nas águas diferentes formas de agradecer e acompanhar a Imagem Peregrina.

As romarias também carregam uma história construída gradativamente. As mais antigas, Círio e Trasladação, remontam ao século XVIII, enquanto outras foram incorporadas posteriormente para atender novas realidades e grupos de devotos. “Cada romaria tem a sua particularidade”, afirmou Tuma Júnior. Segundo ele, não se trata apenas de diferentes percursos, mas de diferentes maneiras de expressar a devoção: algumas marcadas pela contemplação e pela tradição, outras pela alegria, pela participação familiar ou pela relação cotidiana dos fiéis com seus meios de transporte e com os lugares onde vivem.

Mário Tuma Júnior, diretor de procissões do Círio de Nazaré 2026.
Mário Tuma Júnior, diretor de procissões do Círio de Nazaré 2026. (Foto: Wagner Santana)

Uma história que começou com Círio e Trasladação

Entre as 14 romarias, Círio e Trasladação ocupam um lugar central na história da festividade. Segundo Tuma Júnior, as duas são as mais antigas e remontam ao século XVIII. A Trasladação, realizada na noite anterior ao Círio, tinha originalmente o sentido de uma preparação para a grande procissão do domingo.

“Trasladação é como se fosse uma vigília de preparação antigamente para o Círio de Nazaré, que se tornava na época a maior de todas”, explicou.

Com o passar do tempo, novas romarias foram surgindo de forma gradual, acompanhando diferentes necessidades e públicos. Entre as mais recentes estão manifestações como a Romaria Fluvial e a Motorromaria. A criação de cada percurso, de acordo com o diretor, ajudou a ampliar as possibilidades de participação na festividade sem retirar o caráter religioso do Círio.

Tuma Júnior também citou a Romaria do Traslado dos Carros como a mais recente das romarias criadas. A partir de 2026, segundo ele, o percurso passa a levar os carros para o estacionamento do Complexo do Porto Futuro.

Diferentes públicos, diferentes formas de agradecer

A multiplicação das romarias também está relacionada à necessidade de acolher públicos que não necessariamente conseguiriam participar das grandes procissões. A Romaria das Crianças, por exemplo, foi pensada para os pequenos e suas famílias, enquanto a Romaria da Juventude oferece aos jovens um espaço próprio de participação e evangelização.

“A Romaria da Juventude, que a gente diz hoje que é uma das mais alegres, mais dinâmicas, é aquele público jovem que faz da Romaria um momento deles, um momento de evangelizar deles”, declarou.

Para o diretor, a alegria presente nessas manifestações não significa afastamento da religiosidade. Na Romaria da Juventude, por exemplo, a maneira festiva de celebrar faz parte da forma como os jovens expressam sua fé.

“Aquela garotada, a maneira que eles tendem a agradecer, de evangelizar, é aquela maneira brincante, alegre, que muitos confundem com baderna, que não é”, afirmou. Segundo ele, a experiência de quem acompanha a romaria há anos mostra que se trata de um momento de alegria e devoção.

O mesmo princípio, explicou, está presente nas romarias que envolvem motociclistas, ciclistas e corredores. Para cada grupo, o meio pelo qual acompanha a Imagem Peregrina se transforma também em uma forma de agradecimento.

“É uma maneira que o motoqueiro tende a agradecer a Nossa Senhora por tudo que está passando na vida dele, por tudo que está acontecendo através da moto, que é o veículo dele”, disse.

No caso dos corredores, Tuma Júnior fez questão de destacar que a manifestação não deve ser confundida com uma competição. “Não existe corrida. É uma romaria, é um momento que você acompanha a Nossa Senhora através de um trotezinho, uma caminhada”, explicou.

Entre a vigília e a grande manifestação de fé

Círio e Trasladação também apresentam experiências distintas de devoção. A Trasladação percorre o caminho entre o Colégio Gentil Bittencourt e a Basílica de Nazaré, enquanto o Círio, no domingo, segue da Catedral da Sé até a Praça Santuário.

A diferença não está apenas no percurso. Segundo Tuma Júnior, a noite da Trasladação cria um ambiente próprio, marcado pelos cânticos marianos, por um ritmo mais tranquilo e pela presença expressiva de famílias e pessoas mais velhas.

“Ela é movida por muitos cânticos marianos, movida por uma noite mais tranquila e clima mais suave, em que você vê uma quantidade de famílias muito maior”, relatou.

O Círio, por sua vez, apresenta uma intensidade diferente. Realizado durante o dia, sob o calor de Belém e diante de grandes homenagens, exige dos devotos uma resistência maior. Há ainda aqueles que permanecem nas ruas entre uma procissão e outra para não perder nenhum dos dois momentos.

“Muitas pessoas que vão para o Círio já vêm emendada, sabe, de Círio para a Trasladação”, contou. Ele revelou que, ao chegar cedo para acompanhar o Círio, costuma encontrar pessoas que passaram a noite nas ruas aguardando a procissão.

“Eles não querem perder aquele momento”, afirmou.

Quando as águas também se tornam caminho de fé

A Romaria Fluvial nasceu para aproximar da Imagem Peregrina uma parcela da população cuja realidade geográfica dificulta a participação nas procissões terrestres. É o caso dos ribeirinhos, para quem os rios e as águas fazem parte da própria vida cotidiana.

“A Romaria Fluvial foi criada com o intuito de atender os ribeirinhos. Aquelas pessoas que não têm acesso ao Círio e à Trasladação”, explicou Tuma Júnior.

Segundo ele, a criação da romaria ocorreu há muitos anos, com participação da então Secretaria de Estado de Cultura e de Carlos Roque. A presença dos ribeirinhos reforça, para o diretor, o caráter inclusivo da manifestação.

“Muitos dizem assim: ‘as ruas dos ribeirinhos é o mar’. E é verdade, é por onde eles trafegam, é por onde passa a nossa Romaria”, declarou.

A participação das embarcações e a organização da romaria também fazem dela uma experiência singular dentro do conjunto do Círio. Tuma Júnior destacou a atuação da Marinha do Brasil, responsável pela administração da Romaria Fluvial.

Uma outra realidade no caminho rodoviário

Se a Romaria Fluvial leva a Imagem Peregrina para as águas, a Romaria Rodoviária aproxima a festividade de comunidades da Região Metropolitana de Belém. O percurso parte de Ananindeua em direção a Icoaraci e, segundo Tuma Júnior, revela uma realidade de devoção que muitas vezes passa despercebida por quem acompanha apenas as principais procissões na capital.

“A gente entra na parte do Ananindeua, é um outro mundo. É uma outra realidade”, afirmou.

Ele contou que os moradores aguardam a passagem da imagem pelas ruas e demonstram forte resistência quando há possibilidade de alteração no percurso. Em determinada ocasião, relatou, apenas a possibilidade de mudar o trajeto provocou reação da população, fazendo com que o percurso original fosse mantido.

“Porque as pessoas já esperam nas ruas de lá todas passarem da imagem”, explicou.

Com as alterações realizadas ao longo dos anos, o percurso chegou a 55 quilômetros, tornando-se, segundo o diretor, a maior romaria em extensão.

A fé que encontra expressão na alegria

A diversidade das romarias demonstra, na visão do diretor, que a devoção não possui uma única forma de manifestação. O silêncio, a contemplação, a emoção, a caminhada, a música e a alegria podem fazer parte da mesma experiência religiosa.

“Cada Romaria tem a sua particularidade”, reiterou Tuma Júnior.

Na Romaria das Crianças, ele destaca a gratidão dos pais. Na Juventude, a alegria dos jovens. Na Motorromaria, a relação dos motociclistas com seus veículos. Entre ciclistas e corredores, o próprio movimento do corpo se transforma em gesto de devoção.

Para o diretor, essas diferenças não fragmentam o Círio. Ao contrário, ampliam a possibilidade de participação e permitem que mais pessoas encontrem uma maneira própria de expressar sua fé.

O Recírio e a despedida que já anuncia um novo Círio

Depois de quinze dias de festividade, o Recírio encerra oficialmente o ciclo das grandes procissões. É o momento em que a Imagem Peregrina deixa a Praça Santuário e retorna para a Capela do Colégio Gentil Bittencourt.

Para quem trabalha diretamente com as procissões, porém, o encerramento carrega sentimentos contraditórios. Há a satisfação pelo trabalho realizado, mas também a tristeza de saber que aquele ciclo chegou ao fim.

“O Recírio é a nossa última posição. A gente brinca que é a cereja do bolo”, disse Tuma Júnior.

Ele explicou que a preparação das procissões se estende durante todo o ano e que o Recírio simboliza a conclusão desse trabalho. “É como se fosse uma despedida daquele trabalho todo do ano inteiro. É um momento de gratidão”, afirmou.

A despedida, contudo, dura pouco. O percurso do Recírio tem menos de 800 metros, mas concentra a emoção de quem sabe que aquela é a última romaria da temporada. “Às vezes, para mim, é um momento muito triste porque acabou. As romarias estão se acabando”, revelou.

E é justamente nesse fim que começa o próximo ciclo. “Mal acaba ela, nós já estamos planejando o outro Círio do ano que vem”, declarou.