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CÍRIO DE NAZARÉ 2026

Artigos religiosos levam Círio para dentro das casas e atravessam gerações

Imagens, terços, medalhas e lembranças de Nossa Senhora de Nazaré transformam a devoção em objetos que guardam promessas, memórias e histórias familiares

Jéssica Nascimento

10 de outubro de 2026 às 07:07

Muito antes de a berlinda percorrer as ruas de Belém no Círio de Nazaré, a devoção já ocupa espaços dentro das casas, nas bolsas e nas mãos dos devotos. Em lojas especializadas, imagens de Nossa Senhora de Nazaré, terços, medalhas, adornos, escapulários e outros artigos religiosos se tornam símbolos de uma fé que, para muitos, ultrapassa a celebração e acompanha a vida cotidiana.

Mais do que lembranças, os objetos carregam histórias de graças alcançadas, promessas e homenagens. Para comerciantes e devotos, cada peça representa uma maneira particular de manter viva a relação com Nossa Senhora de Nazaré e transmitir a tradição às novas gerações.

Um pedacinho do Círio dentro de casa

Nas lojas de artigos religiosos, o movimento acompanha o calendário do Círio. De acordo com Adriani Santos, atendente no Lírio Mimoso, as imagens estão entre os produtos mais procurados. Adornos e objetos que fazem referência a Nossa Senhora de Nazaré também têm grande procura, principalmente entre turistas que desejam levar uma lembrança de Belém para familiares e amigos.

“Os artigos religiosos mais procurados são as imagens. As imagens têm muita saída. Os adornos também têm muita saída. Alguma coisa que represente”, conta Adriani.

A apresentação do cartaz do Círio, segundo ela, costuma marcar o início de uma nova temporada de procura pelos produtos. A partir desse momento, imagens, agendas, camisas e outros itens passam a incorporar o tema da festividade.

Adrieni Santos.
Adrieni Santos. (Foto: Igor Mota | O Liberal)

Para Adriani, a comercialização também possui uma dimensão de evangelização. “Tudo que é comprado está ajudando de alguma forma a igreja e você também está evangelizando de alguma forma”, afirma.

Objetos que carregam histórias

Para Gilmara Machado, vendedora de artigos religiosos, os objetos ajudam a prolongar o Círio para além das ruas e da grande procissão. Uma imagem, um terço ou uma medalha pode permanecer durante anos em uma residência e ganhar novos significados conforme passa de uma geração para outra.

“Os artigos religiosos ajudam a manter viva a tradição porque levam para dentro das casas um pedacinho do Círio”, explica Gilmara.

Ela conta que muitos clientes escolhem determinado objeto a partir de experiências pessoais. A peça pode estar relacionada a uma promessa, uma graça alcançada, uma lembrança familiar ou simplesmente ao desejo de manter Nossa Senhora de Nazaré por perto.

“Cada pessoa tem uma história e uma forma diferente de demonstrar sua fé”, afirma.

Entre os itens mais tradicionais estão as imagens, os terços, as medalhas, os adornos, os escapulários, as camisas e as lembranças do Círio. Para Gilmara, cada objeto assume uma função simbólica diferente: a imagem remete à presença de Nossa Senhora no lar; o terço, à oração; e a camisa, à demonstração de amor e participação na festividade.

Uma devoção que acompanha a vida

A relação entre os artigos religiosos e as histórias pessoais pode ser percebida na trajetória de Clara de Nazaré, médica que mora em Recife, mas nasceu em Belém. Ela veio ao mundo em 8 de outubro de 1994, durante o período do Círio. O nome foi escolhido pela mãe como homenagem a Nossa Senhora de Nazaré após a perda da primeira filha.

Clara de Nazaré.
Clara de Nazaré. (Foto: Igor Mota | O Liberal)

Clara cresceu em uma família católica e levou consigo a devoção construída desde a infância. O terço se tornou um objeto presente em diferentes momentos da vida, inclusive durante os estudos.

“Eu sempre tenho um terço comigo. Eu sempre ando com terço. Na minha bolsa, eu vou fazer prova, todas as provas que eu faço eu sempre levo um terço comigo”, relata.

Hoje, depois de se mudar para um apartamento próprio, Clara voltou ao Lírio Mimoso em busca de um terço e de uma imagem de Nossa Senhora de Nazaré para a nova casa. A escolha da peça, no entanto, não é apenas uma questão de decoração. Ela procura uma imagem específica, que tenha significado para sua história.

“Como eu nasci com essa história de vida, eu sempre cresci com um carinho, uma afinidade, uma proximidade com Nossa Senhora de Nazaré”, diz.

Tradição que se renova

Se alguns objetos permanecem praticamente inalterados ao longo dos anos, a maneira de representar a devoção também acompanha mudanças culturais e novos hábitos. Gilmara observa que atualmente existem peças personalizadas e diferentes formas de carregar símbolos religiosos no cotidiano.

“A fé continua sendo a mesma, mas a maneira de expressá-la vai acompanhando os tempos”, afirma.

Imagens, camisas, pulseiras e outros artigos passam a ocupar diferentes espaços da rotina dos devotos. Para Gilmara, essa transformação não significa o abandono da tradição, mas uma nova maneira de vivenciá-la.

As peças antigas, por outro lado, permanecem como guardiãs da memória de muitas famílias. Imagens e terços podem atravessar décadas, acompanhando avós, pais, filhos e netos.

“É emocionante perceber que um simples objeto pode representar uma história de fé que atravessa gerações e gerações”, afirma Gilmara.

Fé, cultura e identidade

Para quem trabalha com esses objetos, a venda durante o período do Círio também representa uma forma de participar de uma das manifestações religiosas e culturais mais importantes do Pará. Gilmara define a atividade como uma responsabilidade e, ao mesmo tempo, uma oportunidade de contribuir para que os devotos encontrem maneiras de expressar sua fé.

“Na minha loja, não sinto que estou apenas vendendo artigos religiosos. Estou evangelizando e ajudando as pessoas a encontrarem uma forma de expressar sua fé e seu amor por Nossa Senhora de Nazaré”, declara.