O Círio de Nazaré é marcado por uma multidão de devotos, mas também por milhares de pessoas que trabalham voluntariamente para que cada etapa da celebração aconteça. Para Antonio Sousa, diretor-coordenador do Círio de Nazaré 2026, integrar a Diretoria da Festa é, antes de tudo, uma missão de fé. O trabalho, segundo ele, ultrapassa a organização de eventos e se transforma em uma experiência permanente de solidariedade, unidade e evangelização.
A dimensão dessa responsabilidade se revela na mobilização de pessoas de diferentes setores da sociedade. Em levantamento realizado anteriormente, a organização chegou a contabilizar cerca de 27 mil voluntários envolvidos nas atividades do Círio. São devotos, integrantes de paróquias, Guardas de Nazaré, sacerdotes, agentes de segurança e profissionais de diferentes instituições que se unem espontaneamente em torno da celebração. Para Antonio Sousa, é justamente essa disposição de servir que permite conduzir uma festa de proporções tão grandes sem perder de vista sua essência.
Um privilégio que começa pela fé
Assumir uma função na Diretoria da Festa, afirma Antonio Sousa, desperta um sentimento de responsabilidade diante da grandiosidade do Círio. Para ele, dizer que a Diretoria “organiza” a celebração chega a ser uma expressão pequena diante da dimensão religiosa da festa.
“Desde quando a gente é convidado, é um privilégio muito grande. Uma importância como o Círio de Nazaré, a gente se sente até muito pequeno pela grandiosidade que é a festa”, declarou.
O diretor-coordenador ressalta que a realização do Círio depende, acima de tudo, da fé e da confiança na ação de Deus e de Nossa Senhora de Nazaré. A convivência entre os integrantes da Diretoria e o contato diário com pessoas dispostas a ajudar, segundo ele, também produzem uma experiência de crescimento espiritual.
“O Círio, se não tiver a mão de Deus, ele não consegue ser realizado”, afirmou. “A gente consegue, durante essa convivência da Diretoria, na organização da festa, crescer muito espiritualmente e acreditar realmente que a força de Deus, Nossa Senhora, está junto conosco o tempo todo”, disse.
Nesse sentido, a evangelização não aparece como uma atividade isolada dentro da programação. Ela está presente, segundo Sousa, em cada missão assumida pela Diretoria, nos projetos desenvolvidos e nos eventos realizados ao longo do período de preparação.
“Independentemente do que tu faz, a evangelização vem automaticamente em todas as missões. Tudo que tu faz dentro da Diretoria, nos seus planos de trabalho, nos eventos que são realizados, todos eles são movidos através da evangelização”, explicou.
Um mar de gente a serviço do Círio
A força do voluntariado é um dos elementos que tornam possível a realização de uma celebração da dimensão do Círio. Antonio Sousa destaca que a mobilização não se restringe a Belém ou ao Pará. Pessoas de outros municípios e até de outros estados participam espontaneamente da organização.
“Eu costumo dizer que o Círio não existia para o Círio. Às vezes, a gente faz um evento, alguma coisa, você contrata pessoas. O Círio, eles se oferecem para trabalhar no Círio”, disse.
Segundo o diretor-coordenador, a disposição para servir alcança diferentes instituições e áreas. Ele cita, como exemplo, a participação de agentes da Polícia Rodoviária Federal que se deslocam de outros estados para atuar em algumas das romarias.
O envolvimento também reúne igrejas, paróquias, Guardas de Nazaré, grupos de apoio, sacerdotes e o clero. Para Sousa, essa rede de colaboração cria uma dinâmica própria, na qual os próprios participantes contribuem para encontrar soluções e colocar a celebração em movimento.
“As pessoas trazem as soluções, as pessoas se abraçam para fazer o Círio. Então, o Círio é um mar de gente dando uma mão para funcionar”, afirmou.
A dimensão da festa, reconhece, impõe desafios. Mas a união dos voluntários proporciona segurança para quem tem a responsabilidade de coordenar o trabalho.
“É um evento grande, é desafiador, mas o que a gente tem de mãos que se unem conosco para fazer o Círio, isso nos dá tranquilidade no desenvolvimento do trabalho”, declarou.
Quem evangeliza também é evangelizado
Para Antonio Sousa, o voluntariado no Círio produz uma transformação que alcança o próprio voluntário. A disposição para servir nasce, segundo ele, de uma fé que se fortalece à medida que a pessoa participa da preparação e da realização da festa.
“A pessoa que trabalha no Círio, ela primeiro tem que ter uma fé muito grande para trabalhar no Círio. E essa fé é transformadora”, afirmou.
Esse processo, explica, permite que o voluntário encontre paz, fortaleça a própria espiritualidade e leve essa experiência para outras pessoas. A evangelização, portanto, acontece em duas direções: quem trabalha para a realização do Círio também passa por um processo de evangelização.
“Quando você faz um trabalho de evangelização no Círio, você também é evangelizado. Então, você cresce também”, disse.
Essa experiência envolve todos os participantes, independentemente da função desempenhada. Do diretor ao devoto que aguarda a passagem da imagem de Nossa Senhora, Sousa entende que existe uma mesma trajetória de fé.
“Tudo, do Círio, tem uma essência. A essência do Círio é a evangelização”, declarou.
Para ele, essa essência está relacionada também à busca pela conversão, pela paz e pela solidariedade. Na procissão, os devotos depositam suas esperanças, pedidos e expectativas, fazendo da celebração um momento de renovação espiritual.
“O Círio é a busca da conversão, é a busca da paz, a busca da solidariedade, a busca que as pessoas procuram ser melhor, onde as pessoas colocam toda a sua esperança”, afirmou.
Preservar a essência para as novas gerações
Em uma sociedade em transformação, manter viva a identidade do Círio é, para a Diretoria da Festa, uma responsabilidade permanente. Antonio Sousa considera que preservar as tradições não significa impedir que diferentes segmentos sociais se aproximem da celebração, mas garantir que essa diversidade não faça com que o Círio perca seu caráter religioso.
“Eu acho que o que a gente tem que ter é uma responsabilidade muito grande: manter a essência do Círio. Não deixar que o Círio se desvirtue”, declarou.
O diretor-coordenador reconhece que a festa dialoga com diferentes dimensões da sociedade e reúne manifestações culturais, econômicas e sociais. No entanto, ressalta que todas essas expressões devem permanecer relacionadas à natureza religiosa da celebração.
“O Círio é uma manifestação religiosa, é uma manifestação de fé, é uma manifestação onde as pessoas vêm buscar esperança de vida. Ele não pode sair desse caminho”, afirmou.
Para Sousa, o acolhimento das diferentes parcelas da sociedade faz parte da própria capacidade de união do Círio. A festa consegue reunir diferentes setores, mas mantém como ponto de convergência a fé em Nossa Senhora de Nazaré.
“Todas as segmentos da sociedade se abraçam com o Círio e são recebidos pelo Círio. Mas o Círio tem uma essência que vai brotar em todos os segmentos, que é a sua religiosidade, a sua essência, a sua fé, o que o Círio traz”, disse.
