Berlinda chega na Praça Santuário de Nazaré no 227º Círio

Percurso de 4 horas e 18 minutos foi cheio de emoção, homenagens e grande festa para a padroeira dos paraenses

Keila Ferreira, Caio Oliveira e Valéria Nascimento

O sol ainda não tinha aparecido na capital paraense e milhares de devotos de Nossa Senhora de Nazaré já andavam pelas principais ruas da cidade. Na Boulevard Castilhos França, promesseiros chegaram cedo para garantir um lugar na corda. Muitos sentaram ou deitaram no chão da avenida, enquanto aguardavam a saída da imagem que iriam conduzir até a Basílica. Para garantir a segurança na hora do atrelamento à berlinda, nas primeiras horas deste domingo (13), as ruas que dão acesso a Castilhos França estavam fechadas pelo Exército.

Em frente à Catedral de Belém, a missa que antecede o Círio começou por volta das 5h40 e foi presidida pelo Núncio Apostólico no Brasil, Dom Giovanni d’Aniello. Ele tem conduzido as principais missas da festividade por causa da ausência de Dom Alberto Taveira Corrêa, que foi convocado pelo Papa Francisco para participar do Sínodo para Amazônia, em Roma, até 27 de outubro, juntamente com os bispos auxiliares Dom Irineu Roman e Dom Antônio de Assis Ribeiro.

(Oswaldo Forte / O Liberal)

"Não tem maior testemunho que nós podemos dar à virgem Maria, senão a entrega total à vontade de Deus", declarou ao fiéis dom Giovanni d’Aniello, em sua homilia, diante de uma multidão que já acompanhava a celebração. "Todos nós somos convidados a sair de nós mesmos, do nosso egoísmo, para ir ao encontro do outro e nos colocar ao dispor dele para ajudar, porque assim nós vamos construir um mundo melhor", continuou. Ele disse que não sabe se terá oportunidade de participar de outro Círio, mas que estará com os paraenses. "Porque quero me sentir filho dessa terra, ser irmão de vocês".

A EMOÇÃO DOS PROMESSEIROS

A aposentada Maria José Kamizono, de 76 anos, chegou cedo para acompanhar a missa ao lado das duas filhas, Marta Mesquita, professora de 47 anos, e Doralice Ito, aposentada de 62 anos, e da neta, Luciana Kamizoni, de 34 anos. " A gente começou a vir com um grupo da família, mas alguns se mudaram e restou só nós. Muita emoção. Estamos aqui para agradecer", declarou Marta.

Sonia Maria Moraes, dona de casa 60 anos, teve câncer no útero e no ovário, há 19 anos. Se apegou à Virgem de Nazaré e ficou curada da doença. Em agradecimento, acompanhava a procissão da corda. Porém, por causa da idade, percebeu que não tinha mais condições de continuar na corda e há cerca de 11 anos começou a acompanhar o Círio segurando uma réplica de Nossa Senhora de Nazaré e vestida com um manto branco. Ela chegou 4h à Sé e, como todos os anos, pretendia acompanhar até a praça Santuário. "Muita gratidão pelo que ela me dá todo ano".

(Igor Mota / O Liberal)

Por volta das 7h, teve início a maior das procissões da festividade em homenagem à Virgem de Nazaré. Às 7h20, já na avenida Portugal, Nossa Senhora recebia sua primeira grande homenagem do dia: a queima de fogos organizada pelos feirantes do Ver-o-peso. Ela passou em frente ao mercado de peixe cinco minutos depois e, às 7h30, já estava em frente ao prédio da Alfândega. Este foi um dos momentos de maior tensão da romaria, quando a Berlinda está perto de ser atrelada à corda. O procedimento foi rápido e logo a procissão seguiu seu fluxo normal. A segunda grande homenagem do dia, os fogos dos estivadores, começou às 8h, momento em que a belinda com a imagem de Nossa Senhora de Nazaré já se encontrava próximo à sede da Companhia Docas do Pará (CDP), subindo a avenida Presidente Vargas.

MOMENTO DE TENSÃO

Em meio às demonstrações de fé e do calor humano que invadem as ruas durante a procissão principal do Círio de Nazaré, centenas de profissionais e voluntários garantem a segurança dos romeiros, prontos para atuarem em qualquer situação de emergência que possa vir a ocorrer ao longo do percurso da berlinda. Foi o caso do cordão humano feito por socorristas voluntários, um grupo de bombeiros civis que usaram seus corpos para isolar uma área da calçada que estava energizada, com uma corrente de energia elétrica percorrendo o chão na avenida Presidente Vargas e dando choques em quem trafegava naquela área. "Estamos apenas orientando para que ninguém pise aqui, pois algumas pessoas já levaram choques, mas nada grave. Ontem, durante a trasladação, também houve casos assim em alguns pontos da avenida Nazaré", disse Talisson Freitas, socorrista que destacou que a causa da eletricidade na calçada era a fiação subterrânea de alguns estabelecimentos próximos à rua Riachuelo.

Antes mesmo da berlinda deixar a Igreja da Sé, o Instituto Arraial do Pavulagem, no Boulevard Castilhos França já estava funcionando como um dos primeiros pontos de atendimento de primeiros socorros aos romeiros que não aguentavam as provações de seus sacríficios e passavam mal. Fabrício Guimarães, técnico de som no Pavulagem, estava ali desde as 6h20, servido como voluntário. "Todo ano estou aqui. O Pavulagem é um ponto de cultura e faz parte do nosso trabalho participar disso aqui e ajudar as pessoas. Me sinto bem estando aqui no Círio", disse Fabrício, que também atuou na trasladação. Após a passagem da berlinda, o posto fechou, assim como todos os outros ao longo do percurso, que encerravam o atendimento após a passagem da Santa. Ao todo, foram 21 pontos da Cruz de Vermelha e 8 da Defesa Civil, além de vários outros voluntários de instituições particulares.

(Oswaldo Forte / O Liberal)

Mas não houve nenhuma emergência que pudesse ofuscar o brilho da rainha da festa, a Virgem de Nazaré, que chegou à Presidente Vargas por volta de 8h20, avançando como a aurora, sendo puxada pelos milhões de fiéis que a adoravam. A cantora Liah Soares recepcionou a berlinda no Banco do Brasil, onde entoou louvores e adorações. "Vamos mostrar para ela que nosso coração é dela. Viva Nossa Senhora!", clamou a cantora e compositora paraense.

HOMENAGENS

Seguindo pelo rio de gente, a berlinda chegou até o Banco da Amazônia, de frente para a Praça da República, onde Nossa Senhora foi recebida com mais festa e música. A linda e tradicional chuva de pétalas de rosas foi um dos pontos altos das homenagens, com as flores sendo lançadas ao ar por meio de um equipamento especial. A música ficou por conta do Grupo Ama e da banda Anjos de Resgate, com apresentações realizadas no prédio-sede, que recebeu cerca de 200 pessoas entre colaboradores, clientes e parceiros.

(Edney Fernandes / Banco da Amazônia)

Enquanto a Maria seguia em sua marcha triunfal em direção à Basílica, seus filhos a acompanhavam como podiam, com muitos cumprindo promessas por uma graça alcançada, em um sacrifício em sinal de respeito e gratidão. Tarcisio Victor da Silva, de 20 anos, um dos calouros do curso de Conservação e Restauro da Universidade Federal do Pará (UFPA), fez o caminho de joelhos, agradecendo à Santa pela aprovação, com a ajuda de duas amigas e da namorada. "Só agradecer, só isso. Só quero agradecer a ela", foi o que o universitário conseguiu dizer em meio ao seu calvário.

(Gabriel Buenaño / Ascom Guarda de Nazaré)

Chegando ao edifício Manoel Pinto da Silva no começo da avenida Nazaré, a Padroeira da Amazônia foi mais uma vez recebida com as homenagens que lhe são merecidas. Um dos mais tradicionais pontos da procissão conta com uma vista privilegiada, com visão de quase toda a Presidente Vargas e avenida Nazaré, que é a parte final do percurso. É por isso que quem mora ali, não consegue evitar que a sacada de seu apartamento se torne uma arquibancada da fé, com amigos e familiares se espremendo para ver a passagem da berlinda, como é o caso da professora Carmem Rodrigues. "Todo a gente abre nossas portas para recebê-los, e vem até gente que não conheço, um amigo que traz o outro, e assim vai, vamos acolhendo. Mantenho essa tradição desde que me mudei para cá, há sete anos, e vou estar com as portas sempre abertas", disse a anfitriã, que viu a imagem peregrina passar em frente à sua casa às 9h40.

O percurso de 3,6 quilômetros, foi vencido com fervor por milhares de devotos em manifestações de fé impactantes para quem participava e assistia. Mas antes da saída da principal romaria da Festividade de Nazaré, o Núncio Apostólico no Brasil, Dom Giovanni d’Aniello, celebrou a missa solene campal em frente à Catedral Metropolitana de Belém. É que o arcebispo metropolitano de Belém, dom Alberto Taveira Corrêa, ao lado de bispos da Arquidiocese de Belém, está no Vaticano, participando do "Sínodo da Amazônia, evento que  reúne líderes católicos para discutir questões da igreja, e outras causas como a indígena e o meio ambiente.

Da Catedral à Basílica, a tradição de 227 anos da grande procissão do Círio de Nazaré mobilizou milhares de romeiros numa caminhada de fé, esforço e contrição pelas ruas de Belém.

 

GOVERNADOR

O governador Helder Barbalho acompanhou toda a romaria no meio dos devotos. Ele estava ao lado da esposa, a primeira dama Daniela Barbalho, e de outros políticos e autoridades do Estado, entre eles o vice-prefeito de Belém, Orlando Reis, e o deputado federal Éder Mauro. Em mensagem gravada para a redação integrada de O Liberal, na frente do Ver-o-peso, ele desejou feliz Círio a todos os paraenses. "Que nossa senhora possa derramar bênçãos em todos os lares, neste momento de união, de fraternidade, de generosidade. Que todos nós, em torno de Maria, possamos agradecer as graças alcançadas e renovar a crença e o pedido por um estado melhor. Que todos nós paraenses consigamos a felicidade e a união entre nós", declarou o governador.

Círio
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