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BICICLETAS

No Círio de Nazaré, devoção sobre duas rodas ganha força e atrai cada vez mais ciclistas

Em grupos de bairro, centenas de fiéis transformam a bicicleta em devoção. Unidos pela Fé é um dos exemplos dessa tradição em expansão.

Gabriel da Mota

10 de outubro de 2025 às 06:15

Registro do grupo na Praça Matriz de Marituba, um dos pontos finais da romaria do Traslado

Registro do grupo na Praça Matriz de Marituba, um dos pontos finais da romaria do Traslado ( Foto: Arquivo pessoal )

A cada outubro, Belém e região metropolitana respiram o Círio de Nazaré em todas as formas possíveis de devoção. Se há quem caminhe em promessas, também cresce, ano a ano, a presença de quem manifesta a fé sobre as duas rodas de uma bicicleta — gesto que une espiritualidade, comunidade e cuidado com a criação, em sintonia com o tema deste ano, “Maria, Mãe e Rainha de toda a criação”. É assim para dezenas de grupos que se organizam para acompanhar romarias como o Traslado para Ananindeua e Marituba, realizado na antevéspera da grande procissão.

Entre esses grupos, está o Unidos pela Fé, fundado em 2022 no bairro do Icuí, em Ananindeua. A iniciativa nasceu pequena, com apenas nove amigos, mas rapidamente ganhou corpo. Hoje, já são cerca de 30 integrantes pedalando juntos, vindos também de bairros vizinhos como Paar e Cidade Nova. Para eles, a bicicleta não é apenas meio de transporte: é sinal de resistência, de comunidade e de fé. “A cada ano tentamos crescer, sempre renovando as energias e a espiritualidade”, conta Jadson Luz, 27 anos, auxiliar administrativo e um dos fundadores do grupo.

Uniforme

O grupo se destaca pela criação de um uniforme novo a cada ano, sempre inspirado nos símbolos do Círio, como o cartaz e o manto da imagem de Nossa Senhora. A ideia é fazer da camiseta um elo entre a identidade do grupo e a própria festividade. 

Registro do grupo na Praça Matriz de Marituba, um dos pontos finais da romaria do Traslado
Registro do grupo uniformizado na Praça Matriz de Marituba, um dos pontos finais da romaria do Traslado (Arquivo pessoal)

Assim como outros coletivos de ciclistas católicos, o Unidos pela Fé começa a preparação meses antes do Círio. Os encontros servem não apenas para discutir modelos de camisa e logística do trajeto, mas também para fortalecer os vínculos espirituais e comunitários. “A gente se reúne no segundo semestre, troca ideias e planeja como atrair mais pessoas. Tudo é feito de forma colaborativa”, diz.

Memória

Um dos episódios mais marcantes da trajetória do grupo é a lembrança do senhor Nonato, pai de uma das integrantes. Desde o primeiro ano, ele fazia questão de receber os ciclistas em sua casa, no bairro do Paar, oferecendo almoço, lanche e água durante o percurso até Marituba. O gesto, simples e generoso, virou promessa.

“Ele dizia que a partir daquele ano, a casa dele estaria aberta para nós. Infelizmente, desde o ano passado ele não está mais conosco, mas a família manteve a tradição. Hoje a gente o homenageia com um banner em frente à residência”, conta Jadson.

Integrantes do grupo reunidos em frente à casa de seu Nonato no Traslado de 2024, segurando um banner em homenagem ao apoiador já falecido
Integrantes do grupo reunidos em frente à casa de seu Nonato no Traslado de 2024, segurando um banner em homenagem ao apoiador já falecido (Arquivo pessoal)

Desafios

Apesar do entusiasmo, manter o grupo não é simples. Sem patrocínio fixo, os custos de produção de camisas e organização da logística recaem sobre os próprios integrantes. “Nosso maior desafio é financeiro. Muitas pessoas querem pedalar uniformizadas com a gente, mas às vezes não conseguem arcar com o valor da camisa. Fazemos rifas para arrecadar fundos e conseguir ampliar a participação”, conclui Jadson.