Faltando uma para o Círio de Nazaré, devotos de Nossa Senhora começam a relembrar histórias de fé, pedidos e graças alcançadas ao longo da vida. Para Luiz Eduardo Rocha Freitas, de 59 anos, a relação com a Virgem Maria está ligada a um dos períodos mais difíceis que enfrentou. Hoje formado em Turismo e Design de Interiores, além de cozinheiro, ele já viveu por cerca de um ano nas ruas de Belém. Eduardo conta que conseguiu deixar essa realidade no início de 2019 e atribui a mudança à intercessão de Nossa Senhora de Nazaré.
A história começou depois que Eduardo deixou Belém para tentar uma oportunidade de trabalho no Rio de Janeiro. Ele conta que não conseguiu emprego e, ao retornar para a capital paraense, não foi acolhido novamente no local onde morava. Sem ter para onde ir, passou a viver nas ruas. Durante o dia, encontrava acolhimento na Basílica Santuário de Nossa Senhora de Nazaré, mas, à noite, precisava procurar um lugar para dormir. “Fui morar nas ruas, fui para o Rio de Janeiro, tentar me formar em cozinheiro, lá não consegui nada, voltei, e ninguém quis me abrigar. Então eu tive que sair para as ruas”, relata.

Eduardo passou cerca de um ano nessa situação. Nesse período, dormiu em diferentes coretos de praças de Belém, entre eles os da Praça da República e da Praça Batista Campos. A rotina era marcada pela falta de abrigo, pela fome e pela insegurança. Segundo ele, algumas pessoas ajudavam com comida, mas a maior parte dos dias era enfrentada sozinho.
A fé durante os dias difíceis
Mesmo vivendo nas ruas, Eduardo diz que não perdeu a fé. Ele conta que também precisou lidar com pessoas que faziam uso de drogas nos locais onde procurava abrigo. Como não queria consumir, era obrigado a deixar alguns lugares e procurar outro espaço para passar a noite. “Eu passei fome, passei sede, mas calado ali, nunca pedi nada para ninguém”, conta.
Para ele, ter passado por aquele período sem se envolver com drogas é uma das situações que também considera uma proteção de Nossa Senhora. “Eu agradeço muito a ela por não ter me envolvido com drogas, porque quando eu fui morar nas ruas, convivi com muitas pessoas em situação de rua que usavam drogas. Eles me ofereciam e como eu não queria usar, eles puxavam canivete pra mim, eu acabava tendo que sair para procurar outro coreto para dormir”, relembra.
Durante esse período, a Basílica Santuário de Nossa Senhora de Nazaré, no centro de Belém, tornou-se um dos lugares onde Eduardo encontrava acolhimento durante o dia. Ele precisava deixar o espaço após a última missa e voltava a procurar um local para passar a noite. “Sou filho de Maria, sou muito agradecido a ela por ter me abençoado, por ela ter me defendido em muitas coisas ruins que aconteceram na minha vida”, afirma.

A saída das ruas
Eduardo conta que deixou as ruas no início de 2019. Para ele, a mudança representou uma nova fase. Segundo o devoto, Nossa Senhora esteve ligada às conquistas que vieram depois daquele período, entre elas a oportunidade de trabalho, os estudos e a casa onde vive atualmente, no bairro da Campina. “Quando eu saí das ruas no início de 2019, Nossa Senhora de Nazaré me concedeu trabalho, a minha casa na Campina, tudo que eu tenho foi graças a ela”, relata.
Além de cozinheiro, Eduardo se formou em Turismo e Design de Interiores e também atua como terapeuta holístico. Para ele, a fé foi importante para continuar estudando e construir uma nova trajetória depois de deixar as ruas. “Eu falo com toda certeza, foi Maria de Nazaré que mudou a minha vida. Ela está em todos os momentos da minha vida, ela me livrou de muitas coisas difíceis que eu passei”, afirma.
Hoje, morar na Campina também tem um significado especial para Eduardo. O imóvel em que mora fica em uma área por onde passam as procissões do Círio, permitindo que ele acompanhe de perto a passagem de Nossa Senhora de Nazaré.
Emoção durante o Círio
A proximidade do Círio faz Eduardo voltar às lembranças do período em que viveu nas ruas. Entre as manifestações da quadra nazarena, ele diz que a Romaria dos Motoqueiros é uma das que mais o emocionam. “Eu me emociono quando vejo os motoqueiros todo ano passar, é uma das procissões mais bonitas, vem gente de todo o Brasil”, diz.
Para o devoto, a imagem de Nossa Senhora durante a romaria representa uma mãe que acolhe os pedidos dos fiéis. A lembrança dos dias difíceis faz com que o momento seja ainda mais significativo. “Eu fico muito emocionado, relembro dos momentos difíceis que eu passei, foram momentos muito dolorosos, que eu nunca imaginei morar na rua”, conta.
Com a chegada de outubro, Eduardo diz que Belém muda e entra no clima do Círio. Para ele, acompanhar a passagem da imagem pela Presidente Vargas é também uma forma de agradecer pela vida que conseguiu reconstruir. “Ela não carrega só o menino Jesus nos braços, ela carrega todos nós, Maria é minha mãe, eu me sinto orgulhoso de ser paraense”, afirma.
A cada Círio, Eduardo revive uma parte da própria história. A saída das ruas, a conquista da casa própria, os estudos e o trabalho passaram a fazer parte de um caminho que ele atribui à fé em Nossa Senhora de Nazaré. “Eu amo a minha mãe, a minha mãezinha. Ela me deu tudo, me dá tudo”, finaliza.
