2022: um ano para celebrar José Saramago

Comissário do Centenário de José Saramago e amigo do escritor, Carlos Reis terá podcast exclusivo em OLiberal.com

Anna Carla Ribeiro / Especial para O Liberal direto de Lisboa (POR)
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No hall de entrada da Fundação José Saramago, localizada na histórica Casa dos Bicos, construída em 1523, em Lisboa, o jovem atendente já sabia sobre a reunião. “É a senhora que vai encontrar Carlos Reis?”. Acenei com a cabeça. Em poucos minutos, após subir uma longa escada, estava de frente com um homem que teve um privilégio de poucos: fez parte da vida do escritor português José Saramago.

Desde novembro de 2021 até novembro deste ano, a Fundação José Saramago realiza ampla programação referente ao centenário do escritor, que inclui, entre outras ações, publicações, exposições, espetáculos e conferências. Essa programação ocorrerá não só em Lisboa, mas em diversas cidades do mundo, incluindo Belém, no Pará, que será a sede de um Colóquio Internacional sobre o escritor, promovido pela Universidade Federal do Pará (UFPA), que ocorrerá em agosto. Toda a programação e planejamento está centralizada com Carlos Reis, que mantém a simpatia e o sorriso leve e fácil.

image (Divulgação)

Após breve conversa sobre política e, é claro, literatura, o nomeado comissário para o Centenário de José Saramago, Carlos Reis, fez questão de apresentar os demais colaboradores da Fundação: “Todos eles são muito importantes nesse trabalho”, destaca. Também, com o orgulho de quem apresenta sua casa, conduziu a um breve tour nas instalações do prédio, onde funciona uma exposição permanente sobre a vida e a obra do premiado escritor português.

Ainda em sua sala, apontou pela janela para uma árvore localizada bem à frente do prédio, numa larga calçada, em via pública. “As cinzas de José Saramago foram depositadas ali”. A árvore, uma oliveira, espécie típica da freguesia (região) de Azinhaga, onde o escritor nasceu, foi plantada naquele local, junto com as suas cinzas, para homenageá-lo. 

Amizade com Saramago

Depois, em outra sala, puxou diversos álbuns de fotos antigas de José Saramago e foi mostrando, com nítida emoção ao rever e lembrar momentos marcantes da amizade que mantinha com Saramago. “Esse aqui sou eu”, afirmou ele, ao apontar para uma das fotografias. Carlos Reis ainda mantém o olhar e o estilo dos óculos de quando, há pouco mais de 23 anos, fez parte da restrita comitiva de convidados que estiveram presentes na entrega do Prêmio Nobel de Literatura a José Saramago, na cidade de Estocolmo, na Suécia.

A boa receptividade e a vontade de ensinar são dignas de sua profissão. Carlos Reis é professor catedrático jubilado da Universidade de Coimbra. Também é autor de mais de trinta livros, o último deles, intitulado ‘Dicionário de Estudos Narrativos’, foi publicado em 2018. Ensinou em diversas universidades da Europa, dos Estados Unidos e do Brasil.

Experiência

Atualmente, dirige a Edição Crítica das Obras de Eça de Queirós. Coordenou a História Crítica da Literatura Portuguesa e já colecionou diversos cargos: foi diretor da Biblioteca Nacional de Portugal, reitor da Universidade Aberta e presidente da Associação Internacional de Lusitanistas e da European Association of Distance Teaching Universities. Também foi homenageado com os prêmios Jacinto do Prado Coelho (1996), Eduardo Lourenço (2019) e Vergílio Ferreira (2020).

Confira a entrevista exclusiva com Carlos Reis sobre a vida e a obra do escritor José Saramago, além da programação referente ao seu centenário:

O que esperar da programação especial do centenário do escritor, realizada pela Fundação José Saramago? Qual o principal objetivo dessa ação?
Tenho dito aos meus colaboradores na Fundação José Saramago que estamos a celebrar o centenário de Saramago, para que outros celebrem o seu bicentenário. Parece uma formulação meramente engenhosa, mas não é. Ela bate certo com a diversidade do programa que construímos, com a qualidade das parcerias em que nos envolvemos e com aqueles que são os grandes eixos de estruturação do programa: o eixo da biografia, o eixo da leitura, o eixo das publicações e o eixo das reuniões acadêmicas.  Em todos e em cada um deles, encontramos muito mais do que o elogio de Saramago. Não é isso que está em causa, até porque muitos já o fizeram e fazem. Queremos ir além de Saramago e, com ele, celebrar a literatura, a cultura, as artes, a solidariedade humana, a identidade do Outro… Tudo temas que a obra saramaguiana incorpora. Se o conseguiremos ou não só o saberemos dentro de um ano. E se a pandemia deixar…

"Queremos ir além de Saramago e, com ele, celebrar a literatura, a cultura, as artes, a solidariedade humana, a identidade do Outro… Tudo temas que a obra saramaguiana incorpora" - Carlos Reis, comissário da Fundação Saramago.

Você teve a oportunidade de ter conversas profundas com o escritor José Saramago. Na sua opinião, o que mais aprendeu com o escritor?
Com um escritor como José Saramago (com qualquer grande escritor) sempre se aprende muito. Se quisermos ficar pelo plano da cultura e da doutrina literária, posso dizer que com Saramago aprendi – melhor, fui percebendo – uma atitude de constante superação do que ia ficando para trás; e, ao mesmo tempo, por contraditório que isso possa parecer, uma certa capacidade para retomar temas e até personagens que reaparecem em romances subsequentes àqueles em que pela primeira vez surgiram. O que significa, ao mesmo tempo, o propósito de desenvolver uma obra coerente, numa linha temporal alargada. Isto, apesar de, como se sabe, Saramago ser, em muitos aspectos, um escritor tardio. O que encerra outra lição: a da persistência. Em parte, isso explica que aquele autodidata com uma formação escolar escassa tenha chegado a ser (como aconteceu) um grande escritor.

Quem era José Saramago enquanto escritor?
Enquanto escritor e (de novo) tendo em conta o que aprendi com ele, Saramago era, pelo menos, duas coisas. Primeiro: uma espécie de operário da escrita, metódico nos seus procedimentos e afastado de uma ideia “romântica” do escritor como ser inspirado e iluminado pela luz do talento… Segundo: Saramago era alguém que não se encerrava na escrita literária. Ou seja: virava-se para fora, para o mundo social e político, intervinha, desafiava, provocava. E assim foi construindo, em paralelo e em relação direta com a sua obra, um pensamento social que continua a ser atual. Cada vez mais atual, aliás.

Como era José Saramago na intimidade, ou seja, o homem?
Uma pessoa simples, de hábitos comuns, menos sisudo do que na vida pública, mas realmente às vezes um pouco “sombrio” e até pessimista. E era, como dizemos em Portugal, amigo do seu amigo, com um humor às vezes a derivar para o sarcástico, bom conversador, apreciador de boa comida e de um bom vinho. Alguém constantemente atento ao “espetáculo do mundo”.

O seu livro ‘Diálogos com José Saramago’ foi publicado em 2018 no Brasil por meio da editora da UFPA. Como o Pará, através da sua Universidade, auxiliou na divulgação das obras e dos pensamentos do escritor José Saramago?
A publicação desse livro é já um contributo importante para essa divulgação, não por mim, é claro, mas por aquilo que nele se encontra de configuração do pensamento literário de Saramago, afirmado em palavras do próprio escritor. Além disso, a UFPA publicou um dos mais importantes ensaios de Saramago (que é uma espécie de autobiografia literária), intitulado ‘Da Estátua à Pedra’, juntamente com os chamados discursos de Estocolmo. São textos fundamentais para se entender a formação de Saramago, as mutações que a sua obra foi conhecendo e o olhar que ele lançou sobre o mundo.  No ano do Centenário, a UFPA organizará um colóquio internacional sobre Saramago, que será (tenho essa expectativa) uma das mais importantes reuniões científicas desse ano. E já agora, se me é permitido, por ocasião do colóquio, a UFPA publicará um livro meu, com o título ‘José Saramago: o Homem mais Sábio’.

Na sua opinião enquanto amigo e estudioso do escritor José Saramago, como era a relação dele com o Brasil? Sabe-se que ele foi muitas vezes ao país e era muito amigo de Jorge Amado e sua mulher...
Saramago tinha uma relação tão intensa com o Brasil como o exigiam os inúmeros convites para muito variadas iniciativas literárias, acadêmicas e políticas. E também os incontáveis leitores que tinha e tem no Brasil.

Saramago sempre foi muito ligado aos Direitos Humanos. Qual foi o papel do escritor, na sua opinião, no diálogo sobre o tema?
Por uma daquelas coincidências que só os deuses explicam, no dia em que Saramago fez o discurso no banquete de entrega do Nobel, em Estocolmo, assinalava-se precisamente meio século, dia por dia, da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Saramago agarrou a oportunidade e, de forma muito expressiva, aludiu à crise dos direitos humanos e avançou para uma ideia que está a fazer o seu caminho: a reivindicação dos deveres humanos, como atitude ética que aquela crise justifica.

José Saramago sempre foi ativo em causas que envolvem a justiça social. Atualmente, em quais vertentes a Fundação Saramago busca atuar nesse sentido?
A Fundação José Saramago não trata só da divulgação da obra do seu patrono, nem da recolha, em acervo, de contributos sobre Saramago que chegam de todas as partes do mundo. A declaração de princípios, como “carteira de identidade” da Fundação, firmada pelo próprio Saramago, obriga a ir além disso: assumir como guia a Declaração Universal dos Direitos Humanos, dar atenção especial aos problemas do meio ambiente e do aquecimento global do planeta, lançar um olhar crítico e interventivo sobre tudo aquilo que contribui para a degradação da pessoa humana.

Qual foi o papel de José Saramago, na sua opinião, para a literatura não só de Portugal, mas dos países que falam a língua portuguesa?
Um escritor inovador, como Saramago foi, é sempre um forte argumento de transformação de uma literatura e daqueles que, na mesma época e depois dela, a integram. A questão pode ser respondida ainda em função de outra circunstância: depois do Nobel, a literatura portuguesa (que realmente tem escassa representação internacional) recebeu um impulso de notoriedade considerável. E Saramago fez muito por isso.

Enquanto amigo, o que mais sente saudades da convivência com José Saramago?
Evoco uma situação muito simples: almoçar e jantar na cozinha da casa de Saramago, em Lanzarote, como se eu fosse da família, e deixar a conversa fluir sem rumo.

O que mais marcou você durante as visitas e diálogos que teve com o escritor em Lanzarote? Por acaso se lembra de alguma história em particular que deva ser ressaltada?
Vários episódios, mas sobretudo este: uma intensa e dura caminhada por Lanzarote, guiada por Saramago, para ver vulcões. Tendo mais 28 anos do que eu, ele parecia ter menos 28 anos do que eu…  Fiquei sem fôlego!

Podcast de O Liberal dará detalhes sobre comemorações

A partir deste mês, O LIBERAL passa a ter, em diversas plataformas, conteúdos exclusivos que vão celebrar a vida, a obra e o legado do escritor português José Saramago. A ampla divulgação sobre o tema busca dar ainda maior visibilidade ao centenário de nascimento de José Saramago, celebrado entre novembro de 2021 e novembro de 2022.

O comissário da Fundação para a programação do Centenário de Saramago, Carlos Reis, irá acompanhar e orientar toda a produção jornalística sobre o tema. Ele também irá produzir um podcast, que será veiculado quinzenalmente em Oliberal.com e plataformas de distribuição de áudio, em conjunto com o jornalista Ricardo Viel, também da Fundação Saramago. O podcast “Cem anos com Saramago” irá abordar a obra e pensamento de Saramago, mas contextualizando e trazendo discussões atuais a partir da obra e pensamento de Saramago. O primeiro episódio, inclusive, já está disponível no LibPlay e em todas as plataformas de áudio.

Na versão impressa, também quinzenalmente, será publicada matéria com resumo sobre a abordagem do episódio, sempre gratuitamente. Cada episódio terá também chamadas no Sistema Liberal de Rádio e nas redes sociais de @oliberal.

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