Cascas e sementes ganham status de joias na Amazônia

Mercado de biojoias confeccionadas com elementos naturais da região chega a movimentar R$ 4 milhões por ano no Pará

Victor Furtado

O mercado de biojoias, movido pela tendência do consumo consciente, só faz crescer nos últimos 30 anos. Tempo este em que as noções de sustentabilidade levaram para se tornar mais populares, desde a Eco 92, a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento realizada no Rio de Janeiro em 1992. Para a indústria da moda amazônica, para pesquisadores e para defensores da floresta em pé, as oportunidades, neste segmento, são quase infinitas.

O mercado europeu é o principal consumidor das biojoias produzidas no Pará. Portugal é um dos destaques. No Brasil, São Paulo, Rio de Janeiro e Ceará são os grandes consumidores.

Referência brasileira na produção de joias sustentáveis, o Espaço São José Liberto — Polo Joalheiro do Pará chega a faturar com cada coleção lançada em torno de R$ 3,2 milhões, anualmente. No entanto, neste ano, até outubro, o faturamento já havia passado de R$ 4 milhões. Mas por ser um negócio ainda em expansão e formalização, faltam dados mais específicos e atualizados.

Talvez pouca gente imagine que tanto dinheiro seja movimentado com peças advindas de ouriços de castanhas, cascas de coco, caule de pupunheira, escamas de peixe, conchas, chifre de búfalo, raízes e sementes de açaí descartadas. E é aí que residem as oportunidades do mercado da moda.

Constantemente, novas matérias-primas e processos de beneficiamento são descobertos. Técnicas tradicionais de comunidades são preservadas e valorizadas. E novas formas de remuneração surgem sem agressões ao meio ambiente. É um tipo de produto de moda que serve como amostra das tendências de mercado e consumo de todos os outros produtos no futuro.

Civilizações antigas e povos tradicionais mais recentes sempre usaram biojoias. Claro, muitos desses adereços tinham fins específicos. Culturais, espirituais, festivos. Mas é no artesanato dessas populações que muitos artesãos e designers buscam inspiração. Os resultados são adereços naturais e feitos de recursos renováveis. E pelas tendências de consumo, têm alto valor agregado. A garantia de preservação do meio ambiente, o respeito a culturas e comunidades e os designs únicos são exigências cada vez mais comuns de quem consome biojoias.

Consciência

Para ser considerada uma biojoia, o produto precisa ter como principal composto algum elemento natural, ainda que misturado a metais e componentes sintéticos. Sementes, fibras, palhas, pedras naturais, madeira certificada, ossos de animais - não abatidos para esse fim -, escamas de peixes, folhas. São muitas possibilidades.

Rosa Helena Neves, diretora executiva do Polo Joalheiro do Pará, aponta que o design autoral paraense de biojoias é muito característico. No Espaço São José Liberto, há 43 designers autorais e bem atentos às tendências de mercado de consumo consciente. Todos se preocupam com a defesa do meio ambiente e proteção das comunidades fornecedores de insumos e conhecimentos. "Tudo dialoga com o produto final", diz.

No ambiente acadêmico, os cursos de Design e Moda de algumas faculdades locais — no segmento de design de joias — têm refletido fortemente sobre questões como a origem dos insumos e formas de produção e colheita. A madeira vem sendo menos usada. Espécies em risco de extinção também. Isso força uma atualização constante desse mercado, mantendo um ciclo de novidades permanente. A mineração, de onde se extraem os minérios preciosos usados na maioria das joias, tem impactos ambientais e custa caro, além de tempo e dinheiro, para compensar a produção.

"Os valores sociais mudaram. Quem consome biojoias é muito exigente. Quer saber de onde vem, como é produzido, quem fez. O consumo consciente repudia comprar produtos que causaram poluição, tiveram trabalho escravo, desmatamento ou exploração financeira. O mercado quer transparência. Quem não se alinha aos conceitos, perde mercado. Essa tendência é irreversível", analisa Rosa Helena.

Pará
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