Com a aproximação dos meses mais quentes e a previsão de influência do El Niño sobre as condições climáticas da Amazônia, o calor intenso deve voltar a fazer parte da rotina dos moradores de Belém, da Região Metropolitana e de outras áreas do Pará. Diante desse cenário, além dos cuidados individuais, como manter a hidratação e evitar a exposição prolongada ao sol, o próprio ambiente doméstico pode ser adaptado para proporcionar mais conforto térmico.
Segundo a arquiteta e urbanista e professora da Estácio Isabella Assôfra, pequenas mudanças na organização dos espaços podem contribuir para melhorar a sensação térmica, principalmente quando combinadas a estratégias de ventilação, sombreamento e controle da entrada de radiação solar.
Plantas podem ajudar
Uma das alternativas mais simples para quem quer tornar a casa mais agradável é incluir plantas na decoração. Mas, segundo Isabella, é preciso entender qual é o real impacto da vegetação sobre a temperatura. “Vegetação em vasos pode contribuir para o microclima por meio da evapotranspiração, além de melhorar a qualidade ambiental percebida e proporcionar sombreamento localizado”, explica a arquiteta.
Apesar disso, ela alerta que não se deve esperar que algumas plantas sejam capazes de resfriar significativamente um apartamento. “Em um apartamento em Belém, algumas plantas não serão suficientes para reduzir significativamente a temperatura do ambiente; o efeito é muito menor do que aquele produzido por sombreamento adequado, ventilação cruzada e redução da radiação solar direta”, afirma.
A escolha das espécies também deve considerar as características do imóvel. Iluminação, umidade e necessidade de manutenção são alguns dos critérios que devem ser observados. Para apartamentos pequenos, a especialista sugere alternativas como jardineiras verticais, suportes suspensos, vasos de pequeno porte e estantes vegetadas.
O cuidado é não deixar que a própria decoração atrapalhe a circulação do ar. “Do ponto de vista arquitetônico, recomenda-se utilizar jardineiras verticais, suportes suspensos, vasos de pequeno porte e estantes vegetadas, mantendo corredores, portas, janelas e áreas de circulação desobstruídos”, orienta.
Ventilação é uma das principais aliadas contra o calor
Se as plantas podem contribuir, a ventilação natural tem um papel ainda mais importante no conforto térmico de imóveis em Belém. “A ventilação natural é uma das estratégias mais importantes para o conforto térmico em Belém, especialmente porque o clima quente e úmido exige a remoção do calor acumulado e o aumento da velocidade do ar sobre o corpo”, explica Isabella.
E não é necessariamente preciso fazer uma grande reforma para aproveitar melhor a circulação do ar. Segundo a arquiteta, medidas simples podem produzir resultados. “Mesmo sem a realização de grandes reformas, é possível adotar medidas simples e eficazes, como manter portas e janelas abertas em horários favoráveis, quando as condições externas permitirem, e favorecer a ventilação cruzada por meio da abertura simultânea de esquadrias localizadas em faces distintas ou em ambientes opostos”, afirma.
Os móveis também entram nessa equação. Armários, estantes e sofás posicionados diante das janelas podem criar obstáculos à passagem do ar. Por isso, a recomendação é deixar uma área livre diante das esquadrias e evitar dividir excessivamente os ambientes. “Móveis altos, estantes, armários e sofás posicionados diretamente diante das janelas ou entre duas aberturas podem criar obstáculos à circulação do ar”, explica.
A especialista acrescenta que, quando as condições de segurança e privacidade permitirem, portas com elementos vazados ou venezianas podem ajudar a ampliar a circulação entre os cômodos. Aberturas superiores também podem favorecer a saída do ar quente, que tende a se acumular nas partes mais altas dos ambientes.
Cortinas precisam equilibrar proteção solar e ventilação
Outro ponto importante é controlar a entrada da radiação solar. Cortinas claras, persianas e outros elementos podem ajudar, mas é preciso saber quando utilizá-los. “Cortinas claras, de tecido adequado e instaladas próximas à esquadria, especialmente quando associadas a elementos externos de sombreamento, ajudam a reduzir a incidência de radiação solar”, explica Isabella.
Por outro lado, manter cortinas muito pesadas completamente fechadas durante todo o dia pode prejudicar a ventilação natural.
A arquiteta resume a estratégia que pode ser adotada em cidades como Belém: “Durante os períodos de maior insolação, deve-se bloquear a radiação direta; quando a temperatura externa estiver mais favorável, deve-se priorizar a abertura das esquadrias e a movimentação do ar.”
Cores claras e materiais também podem ajudar
O conforto térmico não depende apenas da decoração. A própria estrutura do imóvel tem influência sobre a temperatura interna. Segundo Isabella, “a escolha dos materiais e dos componentes da envoltória da edificação exerce influência significativa sobre o desempenho térmico dos ambientes, especialmente em cidades de clima quente e úmido como Belém do Pará”.
Orientação solar, paredes, coberturas, cores, janelas, vidros, esquadrias e dispositivos de proteção solar precisam ser considerados em conjunto. Entre as soluções mais simples, as cores claras podem contribuir para reduzir o ganho térmico porque refletem uma parcela maior da radiação solar. “O uso de cores claras nas superfícies externas, por exemplo, pode contribuir para a redução do ganho térmico, uma vez que apresentam maior capacidade de reflexão da radiação solar”, explica.
Para apartamentos nos últimos pavimentos, a cobertura merece atenção especial. Materiais com maior refletância solar, isolamento térmico e, quando tecnicamente viável, coberturas ventiladas ou sombreadas são algumas das alternativas citadas pela especialista.
E quem mora em apartamento pequeno?
Para quem não tem quintal ou varanda, também é possível adotar estratégias para melhorar o conforto térmico sem grandes intervenções. “Em apartamentos pequenos, especialmente quando não há quintal ou varanda, a estratégia de melhoria do conforto térmico deve ser baseada na combinação entre ventilação natural, sombreamento e redução das fontes internas de calor”, orienta Isabella.
Entre as medidas de baixo custo, estão manter as janelas desobstruídas, instalar cortinas ou persianas claras nas áreas mais expostas ao sol e utilizar ventiladores de teto ou portáteis. “O uso de ventiladores de teto ou portáteis também pode contribuir para aumentar a velocidade do ar sobre os ocupantes e melhorar a sensação térmica”, explica.
As plantas podem entrar como complemento, desde que não prejudiquem a circulação. Para quem pode fazer intervenções no imóvel, a arquiteta recomenda ainda considerar proteções solares externas, como brises, persianas externas e toldos, que ajudam a impedir que a radiação solar atinja diretamente a edificação e os ambientes internos.
No fim, a principal recomendação da especialista é pensar no ambiente de forma integrada. Não existe um único elemento capaz de resolver o problema do calor. “O desempenho térmico de uma edificação em Belém não depende de um único material ou elemento construtivo, mas da integração entre soluções de projeto, características da envoltória, controle da radiação solar, ventilação natural e estratégias de sombreamento”, conclui Isabella.

