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arqueologia

Pesquisa com laser na Amazônia encontra construções de mais de mil anos

Milhares de anos antes da chegada europeia, indígenas construíram estruturas, praças e estradas, desafiando a ideia de floresta intocada

O Liberal

1 de novembro de 2026 às 12:38

A tecnologia LiDAR mapeia o terreno por meio de pulsos de laser. A imagem mostra o sítio de Kunguints, na Amazônia equatoriana

A tecnologia LiDAR mapeia o terreno por meio de pulsos de laser. A imagem mostra o sítio de Kunguints, na Amazônia equatoriana ( Foto: Antoine Dorison/Stéphen Rostain )

A Amazônia escondeu por milênios sociedades complexas, com estradas, praças e estruturas monumentais. Pesquisas recentes, publicadas nas revistas Nature e Science, revelam as formas de organização de povos indígenas que ocuparam a região há milhares de anos. Estas construções desafiam a antiga ideia de uma floresta intocada e pouco habitada.

Por muito tempo, a região foi retratada como uma floresta intocada, com populações pequenas e dispersas. Contudo, descobertas arqueológicas das últimas décadas revelam um cenário distinto. Milhares de anos antes da chegada dos europeus, povos indígenas já construíam estruturas monumentais, organizavam assentamentos e modificavam a paisagem.

Dois novos estudos científicos, divulgados em periódicos internacionais, ajudam a compreender essa história complexa. Um deles, na Nature, identificou centenas de estruturas geométricas no Acre e Amazonas. O outro, na Science, revelou uma extensa rede de assentamentos antigos no Vale do Upano, na Amazônia equatoriana.

Tecnologia LiDAR desvenda o passado da Amazônia

As pesquisas usaram a tecnologia LiDAR, que mapeia o terreno por meio de pulsos de laser. Elas investigam regiões diferentes e encontraram vestígios de ocupações com características próprias. Os resultados mostram a diversidade e complexidade das sociedades que viveram na região. As descobertas não indicam necessariamente uma única civilização amazônica.

Estruturas antigas no Acre e Amazonas

A pesquisa na Nature analisou cerca de 4.500 km² no Acre e Amazonas, usando LiDAR. O levantamento identificou 432 estruturas arqueológicas, das quais 36 já eram conhecidas. Mais de 90% dos registros encontrados eram inéditos para os pesquisadores, revelando uma vasta rede de antigas construções.

Com base nos dados e projeções, cientistas estimaram a existência de 24 mil a 30 mil estruturas semelhantes na região. Este número é uma extrapolação e não corresponde à quantidade de construções já identificadas. A estimativa aponta para uma ocupação bem mais densa e complexa.

Entre os vestígios encontrados estão geoglifos e estruturas geométricas escavadas no solo, além de valas e caminhos. As datações por carbono-14 indicam que parte dessas construções ocorreu entre 600 a.C. e 850 d.C., mostrando sua antiguidade.

Pesquisadores levantam a hipótese de que algumas estruturas funcionaram como espaços cerimoniais e políticos. A interpretação aponta para organização coletiva e ocupação planejada do território. Contudo, isso não significa que todos os locais eram cidades ou centros urbanos nos moldes atuais.

O estudo também estima a população para o período de maior uso das estruturas. Um cenário aponta para 1,2 milhão a 3 milhões de pessoas, entre 100 e 300 d.C. Outra possibilidade, mais conservadora, sugere 250 mil a 600 mil habitantes. Os números são preliminares e exigem mais investigações.

Vale do Upano e suas cidades conectadas

Na Amazônia equatoriana, a pesquisa na Science identificou outra organização territorial. No Vale do Upano, foram encontradas evidências de assentamentos que reuniam praças, moradias, áreas agrícolas e estradas. Estas construções foram erguidas há cerca de 2.500 anos.

O arqueólogo francês Stéphen Rostain liderou o trabalho, que combinou décadas de escavações com levantamentos LiDAR. Mais de 6 mil plataformas de terra e 15 assentamentos foram identificados. Eles estão distribuídos por cerca de 300 quilômetros quadrados, indicando uma vasta ocupação.

Uma característica distintiva é a rede de estradas largas e retilíneas que conectava os assentamentos. As vias indicam que as comunidades mantinham conexões entre diferentes áreas. Essa organização envolvia circulação de pessoas e integração dos espaços habitados. Trata-se de uma verdadeira rede urbana antiga.

A pesquisa também identificou terraços agrícolas, campos de cultivo e sistemas de drenagem. Esses elementos mostram que os habitantes desenvolveram técnicas para produzir alimentos. Eles adaptavam o terreno às suas atividades cotidianas, demonstrando grande conhecimento de engenharia.

As estruturas estão associadas às culturas Kilamope e Upano. As primeiras plataformas foram construídas por volta de 500 a.C. A ocupação da região se estendeu até aproximadamente 300 a 600 d.C., abrangendo um longo período histórico.

As diferenças entre as duas grandes descobertas

Apesar do uso de tecnologia semelhante, os estudos identificaram vestígios arqueológicos distintos. Eles ajudam a compreender diferentes formas de ocupação da Amazônia pré-colonial. Cada pesquisa revela um aspecto único da história da região.

No Acre e Amazonas, a pesquisa foca em geoglifos e estruturas geométricas para atividades cerimoniais e políticas. No Vale do Upano, Equador, os vestígios mostram assentamentos com plataformas de moradia, praças, áreas agrícolas e estradas que conectavam comunidades. As abordagens são complementares.

  • Localização: Um estudo no Acre e Amazonas (Brasil); o outro no Vale do Upano (Equador).
  • Vestígios: No Brasil, geoglifos e estruturas geométricas; no Equador, plataformas, praças, estradas e áreas agrícolas.
  • Organização: Estruturas brasileiras como espaços cerimoniais/políticos; no Equador, assentamentos conectados por rede de circulação.
  • Métodos: Ambos usaram LiDAR; pesquisa equatoriana também incluiu décadas de escavações.
  • Foco: Estudo brasileiro projeta estruturas e populações; equatoriano destaca distribuição e infraestrutura.

Não há evidências de uma única civilização amazônica

As descobertas têm uma relação importante: ambas reforçam que a Amazônia pré-colonial abrigou sociedades indígenas. Elas eram capazes de construir estruturas complexas, organizar espaços coletivos e transformar o ambiente em que viviam. Isso muda a percepção sobre a região.

Isso não significa que os grupos pertencessem à mesma civilização ou tivessem contato direto. Os estudos analisam territórios diferentes, com vestígios e trajetórias históricas próprias. As informações atuais não comprovam uma ligação direta entre essas populações. A diversidade é a chave.

A tecnologia LiDAR foi crucial, pois identifica alterações no relevo sob vegetação densa. Contudo, os resultados precisam ser interpretados em conjunto com escavações, datações e outras evidências arqueológicas. A combinação de métodos garante a precisão das descobertas.

Em vez de uma única sociedade, as descobertas revelam um mosaico de comunidades com diversas organizações. Os vestígios ampliam o conhecimento sobre a história indígena. Eles mostram que a floresta amazônica foi, por milhares de anos, um território habitado, transformado e organizado por seus povos originários. Isso reescreve a história da região.