A alfabetização pode representar o início de uma nova fase na vida de quem não teve a oportunidade de estudar na infância. Para jovens e adultos que decidem retomar os estudos, aprender a ler e escrever vai muito além do domínio das palavras: significa conquistar autonomia, fortalecer a autoestima e ampliar as possibilidades de participação na sociedade. Nesse processo, o trabalho dos professores é fundamental para superar inseguranças, respeitar diferentes trajetórias e mostrar que nunca é tarde para aprender.
Para muitas pessoas, a oportunidade de aprender chega depois de décadas afastadas da sala de aula. A necessidade de trabalhar desde cedo, as dificuldades financeiras e outras circunstâncias familiares podem interromper a trajetória escolar antes mesmo de ela começar. Quando esses estudantes decidem retomar os estudos, encontram no professor não apenas alguém que apresenta letras, palavras e números, mas também um profissional capaz de reconhecer suas experiências e incentivar novas possibilidades.
É nesse contexto que a professora Camila Quadros, coordenadora do curso de Pedagogia da Estácio Ananindeua, destaca a importância de olhar para cada estudante além de suas dificuldades de aprendizagem. Para ela, acompanhar a alfabetização de jovens e adultos significa participar de um processo que envolve sonhos, histórias pessoais e novas oportunidades. “O papel do professor vai muito além de ensinar a ler e escrever. É também mostrar a essas pessoas que elas são capazes de aprender, independentemente da idade. Quando a gente trabalha com a alfabetização de jovens e adultos, percebe que não está lidando apenas com letras e palavras, mas com histórias de vida, sonhos e oportunidades”, afirma.
Ensinar também é acolher
Um dos principais desafios enfrentados pelos professores que atuam na Educação de Jovens e Adultos (EJA) é lidar com a insegurança de estudantes que passaram boa parte da vida sem dominar a leitura e a escrita. O receio de errar, a vergonha de fazer perguntas e a ideia de que a idade pode impedir o aprendizado são barreiras que precisam ser enfrentadas durante as aulas.
Nesse cenário, o trabalho docente exige sensibilidade para respeitar o ritmo de cada pessoa e encontrar estratégias de ensino adequadas às suas necessidades. Camila explica que os alunos chegam à sala de aula com experiências e conhecimentos adquiridos ao longo da vida, que também podem contribuir para o processo de aprendizagem. “Um dos maiores desafios é fazer com que esses alunos acreditem que são capazes de aprender. Às vezes, eles chegam com vergonha de perguntar, medo de errar ou até dizendo que não conseguem aprender porque já estão velhos. E a gente precisa desconstruir essa ideia aos poucos, respeitando o tempo de cada um”, pontua.
O acolhimento também ajuda a criar um ambiente em que o estudante se sinta seguro para tentar, errar e recomeçar. Na alfabetização, conquistas que podem parecer pequenas para quem já domina a leitura e a escrita representam avanços importantes para quem está começando. Escrever o próprio nome, reconhecer uma palavra ou compreender uma frase são exemplos de etapas que fortalecem a confiança e estimulam a continuidade dos estudos.
Na avaliação da professora, reconhecer cada avanço é parte essencial desse trabalho. Ao valorizar o esforço dos alunos e permitir que aprendam sem constrangimento, o educador contribui para que eles reconheçam suas próprias capacidades e se sintam pertencentes àquele espaço. “Precisamos ter paciência, respeitar o tempo de cada aluno e valorizar cada conquista. Às vezes, escrever o próprio nome, conseguir ler uma palavra ou compreender uma frase representa uma vitória enorme para aquele estudante. Quando existe esse acolhimento, o aluno começa a confiar mais em si mesmo e a entender que aquele espaço também é dele”, destaca.
Alfabetização que transforma o cotidiano
Aprender a ler e escrever não se limita ao ambiente escolar. O conhecimento adquirido em sala pode fazer diferença em tarefas simples, como identificar o ônibus correto, compreender informações em um documento, ler uma receita ou conferir o valor de uma compra. Essas habilidades ajudam a ampliar a independência e permitem que os estudantes participem de diferentes espaços da sociedade com mais segurança.
Por isso, aproximar o conteúdo escolar da realidade dos alunos é uma das estratégias importantes no trabalho com a EJA. Quando compreendem a utilidade do que estão aprendendo, os estudantes conseguem relacionar as atividades propostas em sala às situações que enfrentam diariamente. Camila ressalta que a alfabetização precisa contribuir para que essas pessoas tenham mais condições de resolver questões práticas e tomar decisões por conta própria. “Conseguir ler o letreiro de um ônibus, compreender um documento, identificar informações em uma receita ou conferir o valor de uma compra são coisas que podem trazer muito mais independência para essas pessoas. O aluno precisa perceber que aquilo que está aprendendo tem utilidade na vida dele”, explica.
Essa relação entre educação e autonomia está presente no Programa de Alfabetização e Letramento de Jovens e Adultos do Instituto Yduqs, realizado no Pará pela Estácio Ananindeua, com apoio do Grupo Equatorial. A iniciativa oferece ensino gratuito a pessoas a partir dos 14 anos e busca ampliar o acesso à alfabetização para quem não teve a oportunidade de aprender a ler e escrever na idade esperada.
As aulas são realizadas às quartas e sextas-feiras, das 16h às 18h30, na unidade da Estácio localizada no Shopping Metrópole, na BR-316, no bairro do Coqueiro, em Ananindeua. Além do desenvolvimento da leitura e da escrita, a proposta é aproximar o aprendizado das necessidades cotidianas dos participantes, respeitando suas trajetórias e seus diferentes níveis de conhecimento.
A iniciativa também oferece aos estudantes de Pedagogia a oportunidade de vivenciar, na prática, os desafios e as possibilidades da Educação de Jovens e Adultos. A experiência permite que futuros professores compreendam a importância de adaptar as estratégias de ensino, valorizar os saberes dos alunos e construir relações baseadas no respeito e na confiança.
Nunca é tarde para aprender
No Dia do Professor, a experiência da alfabetização de jovens e adultos reforça que a educação não deve ser limitada à infância ou à juventude. Embora cada estudante tenha um ritmo próprio, a possibilidade de aprender permanece ao longo da vida. Nesse processo, o professor tem a missão de estimular a curiosidade, reconhecer as conquistas e mostrar que as dificuldades não precisam representar o fim de uma trajetória de aprendizagem.
Ao dirigir uma mensagem aos profissionais que atuam nessa área, Camila destaca a importância de manter a confiança no potencial dos estudantes, mesmo quando os resultados demoram a aparecer. “Aos professores, eu diria que continuem acreditando no potencial dos seus alunos, mesmo quando o processo parecer difícil. Cada pessoa tem seu tempo, e precisamos compreender que nem sempre os avanços acontecem da maneira que esperamos. Mas cada pequena conquista tem um significado enorme”, afirma.
A professora também deixa uma mensagem para quem ainda hesita em voltar a estudar por acreditar que perdeu o momento de aprender. Para ela, as dificuldades enfrentadas ao longo da vida não anulam a possibilidade de construir novos caminhos por meio da educação. “Para quem acredita que já passou da idade de aprender, eu diria que nunca é tarde para começar. A vida coloca diferentes obstáculos no caminho, e nem todo mundo teve as mesmas oportunidades, mas isso não significa que essas oportunidades não possam existir agora. Aprender não tem idade”, ressalta.

