Betty Faria conversa sobre maturidade, feminismo, machismo e política

Vinicius Mochizuki

Betty Faria não tem papas na língua. Aos 78 anos, a atriz veterana pode ser considerada um monumento aos protagonismos da mulher artista. Desde sua infância, quando pensou em fugir com o circo da cidade, até o começo, como dançarina e sua posterior incursão na televisão, Betty viveu papeis importantes, determinantes. Como Lucinha, em Pecado Capital, quebrou um paradigma: a de que uma mulher poderia ser protagonista da própria vida e foi uma personagem tão divisora de águas, que é inspiração até hoje.

Também encarnou Tieta, célebre personagem de Jorge Amado, em uma interpretação que, de tão arrebatadora e única [aliás, nunca haverá outra Tieta como a de Betty], até hoje transita nitidamente na memória coletiva dos telespectadores. Atualmente, nossa entrevistada está no ar, na novela “A dona do Pedaço” e interpreta Cornélia – foi numa concorrida pausa das gravações que ela conversou conosco sobre a maturidade, feminismo, machismo e sobre política – sem censura, como vocês lerão a partir de agora.

Troppo + Mulher: Aos 78 anos, você está muito bonita e te acho realmente uma mulher forte e muito dona de si, mas preciso te perguntar: como a indústria do entretenimento trata os artistas mais maduros – achas que a TV, especialmente, pensa em personagens adequados aos seus artistas com mais experiência e idade? 
Betty Faria: Eu não acho que a TV seja responsável por isso, nem o cinema. As estórias, normalmente, são feitas para protagonistas mais jovens – e isso, inclusive, é uma tendência internacional. Os “velhinhos” são coadjuvantes... ou têm uma participação especial. No caso desta novela [Betty está no ar, em “A dona do pedaço”, em que vive Cornélia], há muitos “velhinhos” em meu núcleo. E não só no meu núcleo, no núcleo rico também – e foi algo que o Walcyr Carrasco quis e fez, porque, normalmente, os autores não se preocupam muito com isso, exceto, por exemplo... A Glória Perez, por exemplo, fez um personagem pra mim em “A Força do Querer” [Betty viveu Elvira]. Eu esperei 100 capítulos, mas quando estreei, a Elvirinha subiu o morro e dançou funk. Foi um sucesso a Elvirinha! Mas são coisas muito específicas. Normalmente, as estórias são para pessoas mais jovens.   

T+M: Te perguntei isso porque existe uma cobrança enorme, especialmente às mulheres,  por uma boa forma física e juventude eterna. Daí me lembro de um episódio, que causou muito burburinho, em que foste à praia e tiveste que lembrar aos colunistas e paparazzi de plantão que era impossível ter outro corpo aos 70 anos. Não é muito cruel esse tipo de cobrança? Como lidas com essas situações?
BF: Mas olha, Lorena, essa cobrança não é só aos artistas. 

T+M: Certamente que não, mas existe uma perseguição e um desrespeito com a idade...
BF: ...e principalmente com as mulheres! E você vê isso na mídia! Quando uma persona de idade, quando o Michel Temer casa com uma moça de vinte e poucos anos; quando um ator famoso de idade namora uma moça de vinte e poucos anos, a mídia vê isso de maneira muito simpática. 

T+M: Comumente se referem, em tom de elogio, que são garanhões...
BF: A mídia e a imprensa prestigiam! Ninguém debocha.

T+M: Um atestado de virilidade aos homens...
BF: Nem sei te dizer o que é! Nem me dou ao trabalho de dissertar sobre isso, entendeu? Mas é óbvio que [essa simpatia] vai do ator famoso ao Michel Temer! Eles transam, são gostosos, potentes. Agora se eu aparecer com um amigo mais jovem – e que ainda assim, vai parecer um coroa perto dessas meninas, serei metralhada! 

T+M: Eu já ouvi inúmeros elogios à tua boa forma, à tua sensualidade. Quero fazer uma pergunta hipotética: já posaste duas vezes para a Playboy – aceitarias fazer um ensaio nu atualmente?
BF: (ela cai na gargalhada) Agora que tô velha?!? Tá louca?!?

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T+M: Ué, ninguém está falando num ensaio padrão...
BF: (ela gargalha de novo) A gente faz isso quando está bonita, quando você quer registrar aquele momento.

T+M: Mas, olha Betty, hoje, os 80 são os novos 65... Maturidade não é sinônimo de decadência.
BF: Tá bem, concordo, mas isso é psicológico, comportamental. Mas pelanca é pelanca!

T+M: Começaste tua carreira muito jovem. Sofreste assédios?
BF: Claro! E resolvi todos sozinha. E me saí bem de todos. Essa coisa de queixa, muito comum agora... “fulana se queixou e todo mundo criou coragem para denunciar” e aí todo mundo se queixa. Eu acho isso meio estranho, sabe?

T+M: Por que, Betty? Aproveito para te pedir uma análise sobre o momento atual da luta da mulher, a batalha de feminismo por direitos iguais.
BF: Eu enxergo da seguinte maneira: eu nasci feminista! Eu não precisei usar a palavra empoderamento, que está na moda agora e não precisei levantar bandeira alguma. Sou feminista de práxis.  

T+M: A gente vive um momento político e social muito delicado no país. Os artistas foram (e têm sido) muito demonizados por conta das leis de incentivo à cultura. Qual tua análise sobre o Brasil? Achas que é possível que consigamos bons resultados? O que dirias aos teus colegas de profissão sobre isso?
BF: Eu não tenho que julgar comportamentos dos meus colegas nem para a esquerda, nem à direita. O que eu penso neste momento é: que para os próximos quatro anos nós tenhamos que adotar uma postura construtiva e ver como vamos sobreviver. Como o Teatro Musical Brasileiro, que é tão lindo... como as escolas de Teatro e musicais vão sobreviver? Como mudar essa má expectativa que toda propaganda do governo atual fez contra os artistas?  Como se os artistas mamassem nas tetas da Lei Rouanet! E não é verdade! Como fazer o povo entender o que é a Lei Rouanet? Por que ela é necessária? Como o Cinema vai sobreviver e ser respeitado? O atual governo tem de repensar: somos artistas e queremos fazer o nosso trabalho... e não colocar todo mundo no mesmo único saco. Acabamos de ganhar dois prêmios em Cannes [com 'Bacurau' e 'A Vida Invisível de Eurídice Gusmão', o país conquistou dois prêmios inéditos] – um prêmio do Juri é importantíssimo. O cinema nacional precisa ser respeitado e não saírem por aí cortando verba, destruindo a gente por vingança... essa coisa ditatorial.  Isso é uma bobagem! Isso é uma destruição! Esquerda, Direita... neste momento, nós precisamos fazer uma coalisão, um foco para sobreviver a todo esse caos que se formou, a essa guerra de ódio, sabe? É ódio contra a TV Globo... a TV Globo é uma emissora que produziu as melhores coisas para o Brasil durante anos e continua produzindo! A TV Globo fez e faz coisas maravilhosas! Emprega não sei quantas mil pessoas... por que destruir isso? É muito ódio! Esquerda, direita têm que lembrar que estamos num país que precisa de construção, de amor. 

O Liberal