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TRADIÇÃO

Santos populares mantêm viva a tradição da fé no Pará

Diferentemente dos santos reconhecidos oficialmente pela Igreja Católica, figuras populares conquistam a devoção dos fiéis por suas histórias de vida, mortes marcantes e relatos de graças alcançadas

Jamille Marques | Especial para O Liberal

2 de novembro de 2026 às 08:00

A devoção a pessoas consideradas santas faz parte da cultura religiosa brasileira e está presente em diferentes manifestações de fé. Em Belém, essa tradição também pode ser observada nos cemitérios, onde fiéis visitam túmulos, fazem orações, deixam objetos e agradecem por graças alcançadas. Essas figuras são conhecidas como santos populares e, diferentemente dos santos canonizados pela Igreja Católica, não passam por um processo oficial de reconhecimento religioso. Segundo o historiador Márcio Neco, a devoção nasce da relação que a população constrói com essas pessoas, seja pelas virtudes que demonstraram durante a vida, pela forma como morreram ou pelos relatos de graças atribuídas a elas.

Santos Populares | Cemitério da Soledade
Foto: Igor Mota | O Liberal
Foto: Igor Mota | O Liberal

A diferença entre santos oficiais e santos populares

De acordo com o historiador, na tradição cristã, santo é toda pessoa que viveu os valores do Evangelho e alcançou a salvação. No entanto, algumas dessas pessoas passam por um processo de investigação e reconhecimento oficial da Igreja Católica, chamado canonização.

Nesse processo, a Igreja analisa a vida da pessoa, suas virtudes, o possível martírio e outros elementos previstos nas normas religiosas. O objetivo é reconhecer oficialmente sua santidade.

Já os santos populares são pessoas que conquistam a devoção da população sem passar por esse processo. Em muitos casos, elas nem sequer tiveram uma ligação direta com a Igreja.

“São muitas das vezes pessoas que não têm a mínima relação com a Igreja, mas que, pela forma com que morreram ou pela forma com que viveram, exercendo virtudes, a população acabou canonizando popularmente”, explica Márcio Neco.

Essas pessoas passam a receber orações, homenagens e agradecimentos por graças que os devotos acreditam ter alcançado. Muitas dessas manifestações acontecem nos locais onde elas foram enterradas.

O que leva uma pessoa a se tornar um santo popular?

A devoção popular pode surgir por diferentes motivos. Entre eles estão a bondade, a generosidade, a honestidade e a solidariedade demonstradas por uma pessoa durante a vida. Mortes que causam grande comoção também podem contribuir para o surgimento dessas manifestações de fé.

O historiador destaca que pessoas que morreram de forma violenta, foram vítimas de injustiças ou perderam a vida em defesa da honra, da verdade e de uma causa podem despertar a identificação da população. “Pode acontecer pelas virtudes que essa pessoa teve em vida, alguém muito caridoso, alguém muito bondoso, generoso, honesto”, afirma.

No caso das crianças, a inocência e o sofrimento vivido antes da morte também podem contribuir para o surgimento da devoção. Em diferentes regiões do Brasil, fiéis visitam túmulos de crianças consideradas santas populares, fazem pedidos e deixam objetos em agradecimento.

Historiador Márcio Neco
Historiador Márcio Neco (Foto: Igor Mota | O Liberal)

Túmulos se tornam locais de oração e agradecimento

Ao contrário da canonização oficial, a devoção aos santos populares não depende de um processo formal da Igreja. Ela se desenvolve conforme as pessoas passam a visitar os túmulos, fazer orações e compartilhar relatos de graças alcançadas.

Essas manifestações podem ser percebidas pela presença de brinquedos, fitas, placas de agradecimento, velas e outros objetos deixados pelos devotos.

Segundo Márcio Neco, a repetição dessas visitas e o compartilhamento das histórias ajudam a fortalecer a devoção. Os relatos também servem como fonte de pesquisa para historiadores e outros estudiosos interessados na relação entre religião e sociedade.

“Isso serve não só para consolidar essa santidade popular, mas também para que os pesquisadores possam se aprofundar e reconhecer esses personagens como santos populares”, explica.

A tradição dos santos populares no Pará

No Pará, a devoção aos santos populares também está ligada à história religiosa da região. O historiador destaca a importância do culto às almas, prática que ganhou espaço em Belém e está relacionada às manifestações religiosas realizadas nos cemitérios.

Um dos locais ligados a essa tradição é o Cemitério de Nossa Senhora da Soledade, localizado no bairro de Batista Campos. Inaugurado em 1850 e com sepultamentos encerrados em 1880, o espaço se tornou um importante lugar de memória, fé e devoção popular. Atualmente, o cemitério preserva túmulos e mausoléus de pessoas que continuam recebendo homenagens dos fiéis.

De acordo com o Historiador Márcio Neco, as orações e novenas dedicadas às almas contribuíram para fortalecer essas práticas religiosas na cidade. “Isso vai potencializar, vai fazer com que não só este espaço, mas como toda Belém, que realizava este culto, esta devoção da Novena das Almas, se torne um espaço fértil para essas devoções”, afirma.

Nesse contexto, a população passou a construir suas próprias formas de devoção, escolhendo figuras que, de acordo com suas experiências e crenças, mereciam homenagens e orações.

Um exemplo é o Menino Zezinho, considerado santo popular e um dos túmulos mais conhecidos do Cemitério da Soledade. Mesmo sem reconhecimento oficial da Igreja Católica, ele recebe visitas e homenagens de pessoas que atribuem graças à sua intercessão.

Fé e memória passam de geração em geração

A continuidade dessas práticas depende também da transmissão das histórias e dos costumes entre familiares. Muitas pessoas conhecem os santos populares ainda na infância, quando acompanham os pais e outros parentes em visitas aos túmulos e momentos de oração.

Com o tempo, essas experiências podem ser incorporadas à vida dos mais jovens, que passam a repetir os costumes e a compartilhar as histórias com outras pessoas.

Para Márcio Neco, essa transmissão não envolve apenas as práticas religiosas, mas também os valores associados à vida daqueles que recebem a devoção.

“Esse culto às almas, esse culto aos santos populares, é transmitido de geração em geração através dos filhos, que muitas vezes veem esses locais com os pais e presenciam. Não só a prática do culto é transmitida, como também a história da pessoa e os valores que ela viveu”, explica.

O historiador ainda ressalta que os santos populares permanecem presentes na memória de muitas comunidades. E concluiu explicando que no Pará, essas devoções mostram como a fé, as histórias de vida e as tradições familiares se misturam e ajudam a preservar manifestações religiosas que continuam fazendo parte da cultura local.