A precarização na contratação das equipes médicas que atendem o Hospital Pronto Socorro Mário Pinotti, da travessa 14 de Março, piorou o atendimento aos pacientes. A denúncia feita por médicos e pela Associação de Servidores de Saúde do Município de Belém (Assesmub) lista vários problemas após a contratação de uma empresa terceirizada em setembro deste ano. A situação tem gerado dificuldade nos atendimentos, aumento de erros médicos e situações que podem ocasionar óbitos.
De acordo com a denúncia, a empresa Tríade, contratada pela Secretaria Municipal de Saúde (Sesma) para subcontratar médicos para plantões no Pronto Socorro da 14 de Março, tem oferecido valores por plantão inferiores aos pagos anteriormente às equipes médicas. A empresa, contratada pela prefeitura para plantões de médicos intensivistas por R$ 1.800, tem oferecido valores brutos de R$ 1.350 a R$ 1.500. Vários médicos largaram os plantões por não concordarem com os novos valores e foram substituídos por médicos recém-formados sem a qualificação e experiência necessária para atender um hospital de alta complexidade como o Mário Pinotti. Desses valores, os médicos ainda terão que pagar os impostos, o que resulta em valor líquido de aproximadamente R$ 1.100 por plantão de 12 horas. Os valores estão abaixo do que a Sesma pagava diretamente aos médicos contratados anteriormente, que era de R$ 1.600.
A presidente da Assesmub, Rosana Rocha, ressalta que a precarização na contratação dos médicos tem dificultado ainda mais o atendimento no hospital. “Teve uma piora muito grande. O primeiro ponto foi que a Tríade chegou para tirar todos os médicos de contrato para colocar os médicos da terceirizada. Os médicos que chegaram não tinham experiência, não conseguem entubar e não têm experiência em um hospital de alta complexidade. Tivemos relato de uma médica da sala vermelha que não sabia o que era a Escala de Glasgow (ECG), que dá os níveis de gravidade do paciente. Ela não conseguia avaliar, a residente ficou com pena dela”, denuncia.
De acordo com ela, muitos médicos se recusaram a assinar com a empresa terceirizada por considerar o contrato muito abusivo. “Não tem escala fixa, já era precarizado e piorou. A gente precisava de mais profissionais competentes. Várias pessoas que tinham mais de quatro anos trabalhando no Pronto Socorro saíram”, aponta.
Após a reunião com o Ministério Público Federal (MPF), as transferências de pacientes voltaram a ser feitas. Reportagem do Grupo Liberal na semana passada indicou que o número de transferências do Hospital Mário Pinotti para outros hospitais da capital paraense havia caído consideravelmente sem nenhuma explicação, o que ocasionou a lotação de vários corredores do PSM com aproximadamente 60 pacientes.
A reunião com o MPF definiu que um diretor da Sesma fará a fiscalização dos contratos com a terceirizada, porém Rosana está muito descrente com a atuação do MPF e considera que há uma pressão para privatizar o PSM da 14 de Março. “As terceirizadas estavam fazendo o que bem entendiam. Agora vai ter um fiscal de contratos que é um diretor indicado pela Sesma. Mas há muitas irregularidades por parte da Tríade. A remuneração que eles tentam reduzir, escala que não é fixa, hoje que o médico vai e durante a semana não tem mais como ir. Os médicos estavam trabalhando como freelancer, a maioria na sala vermelha”, destaca.
O advogado da Assesmub Arthur Valinoto levantou diversos problemas no edital lançado pela Prefeitura Municipal de Belém (PMB) para a contratação da empresa Tríade. “A prefeitura lançou um edital em fevereiro; uma empresa passou a prestar o serviço. A prefeitura empurrou e contratou a empresa na marra. Já havia uma defasagem provocada no salário dos médicos antes, eles vinham contratando médicos pela Sesma e agora querem pejotizar na marra, sem estudo nenhum. Não teve estudo para esse edital”, aponta.
Valinoto ressalta que não há condições de trabalho e há desvalorização, desprezo e maus-tratos por parte da prefeitura aos servidores do PSM da 14. “É de um desprezo e uma falta de respeito contra as pessoas, como se esse fosse um hospitalzinho porcaria. É isso que sinto lá. Todo mundo de cabeça baixa, estressado, triste, é gente passando necessidade no teu lado e você não pode fazer muita coisa. É um campo de guerra e a culpa é da prefeitura”, aponta. O advogado já levou as denúncias ao MPF e espera uma resposta para todas as irregularidades apresentadas no edital de chamamento que contratou a empresa Tríade.
Fontes ouvidas em sigilo pela reportagem, com medo de retaliação, confirmaram que a insatisfação dos profissionais aumentou muito. “Muitos estão insatisfeitos, só que boa parte dos médicos que fazem sala vermelha, laranja e CTI trabalham só lá e não querem ficar sem emprego. Esses setores não ficaram sem médicos, porém nas enfermarias eles substituíram, porque achavam que ia ser mais fácil”, falou um dos profissionais.
A fonte confirmou que o maior problema das equipes tem sido nas enfermarias. “O funcionamento está horrível, muitos médicos não quiseram voltar. A Tríade está correndo atrás dos médicos. Eles colocaram recém-formados, os únicos que conseguiram arranjar. A enfermaria do Pronto Socorro da 14 é uma das mais difíceis de Belém, porque lá ficam pacientes graves. Hoje tem ocorrido todo tipo de erro médico. Deram alta para um paciente gravíssimo que depois veio a óbito, não estão dando alta para pacientes que podem sair, todos os tipos de erros médicos como exagerar na hidratação, levar para a sala vermelha quando não é para ir e demorar para encaminhar pacientes para sala vermelha”, elencou.
Outro profissional ouvido pela reportagem contou que a empresa Tríade pretende contratar os médicos como sócios-cotistas, para que assim os profissionais recebam suas remunerações como dividendos e não tenham o desconto de impostos. “Essa pejotização é criminosa, estão nos induzindo a virar sócios para repassar como dividendo. Isso é um crime. Tem bastantes irregularidades”, reforçou.
A Secretaria Municipal de Saúde (Sesma) respondeu aos questionamentos da reportagem nesta quarta-feira (21). A Secretaria Municipal de Saúde (Sesma) confirmou que a empresa assumiu o serviço no dia 14 de setembro de 2026, com o objetivo de garantir a continuidade da assistência e a cobertura dos plantões. Durante a transição, foram absorvidos profissionais que já atuavam na unidade, com ajustes pontuais nas equipes, acompanhados pela coordenação médica e pela Direção Técnica do hospital.
"Os valores pagos aos profissionais são definidos na relação contratual entre as partes, observadas as obrigações do contrato administrativo com a Sesma. Informações sobre valores, repasses e eventuais diferenças remuneratórias devem ser verificadas junto aos setores responsáveis pela fiscalização contratual. Relatos de atrasos anteriores também serão analisados conforme o vínculo e o período correspondente", afirma a Sesma.
Quanto à qualificação dos médicos, a secretaria informou que todos os médicos devem possuir registro regular no Conselho Regional de Medicina e atuar dentro de suas competências. "A distribuição nos setores deve considerar a complexidade dos pacientes, a experiência profissional e as necessidades de cada serviço".
"As alegações de erros médicos, falhas diagnósticas ou condutas inadequadas exigem apuração individualizada, com análise de prontuários e registros assistenciais, não sendo possível confirmar falhas com base apenas em relatos genéricos".
"A Sesma acompanha os processos assistenciais e orienta as equipes quanto à avaliação dos pacientes, à definição de condutas, aos encaminhamentos necessários e às altas hospitalares, sempre respeitando os critérios clínicos e a segurança do paciente", finaliza.
A reportagem não conseguiu obter contato com representantes da empresa Tríade. O espaço segue aberto.
