Pressa e fome foram os dois motivos alegados por Lúcia Silva, de 60 anos, para não usar, na manhã desta quarta-feira (18), a passarela da avenida João Paulo II com a passagem Rio Branco II, no bairro da Guanabara, em Belém. "Eu sei que é muito arriscado fazer isso", disse. Empregada doméstica, Lúcia afirmou que sempre usa a passarela. Mas que, desta vez, optou em cruzar a avenida, mesmo correndo o risco de sofrer um acidente de trânsito. "É que estou com pressa e fome. Eu vi que não tinha carro e atravessei", justificou. "À noite, é muita escura essa passarela. Não tem energia", contou. A atitude de Lúcia, porém, não é isolada. A reportagem observou que muitos pedestres não usam as passarelas implantadas no prolongamento daquela avenida, apesar de ser uma via com fluxo intenso e constante de veículos. E que muitos motoristas trafegam em alta velocidade, tanto em direção a Belém quanto no deslocamento para Ananindeua.
Naquele trecho da avenida, localizado entre as passagens Rio Branco II e Margareth I, há um espaço, no canteiro central, onde não há proteção com telas. E esse espaço que os pedestres usam para cruzar a avenida. Ao agir dessa forma, acabam se arriscando bastante. Nesta manhã de quarta-feira, a reportagem flagrou duas mulheres atravessando a avenida. Elas não usaram a passarela. Uma delas levava, nos braços, um bebê. A outra, um garotinho. Ao que tudo indica, acharam que, pela passarela, gastariam mais tempo. E, assim, optaram em cruzar a avenida.
A professora Nazaré Oliveira, 60 anos, também atravessou a pista e não usou a passarela. "É que eu estou com muita falta de ar. Estou com problema de asma", afirmou. "Se bem que é bom estar subindo e descendo. Mas não quero me arriscar por causa do 'aceleramento' (da respiração), que é muito forte", afirmou. Morando às proximidades daquele endereço, a senhora Marcelina Santana Barros, 69 anos, optou em usar a passarela. "É perigoso atravessar. Esses carros não respeitam", disse ela, acrescentando que os motoristas trafegam em alta velocidade naquele perímetro da avenida. Ela acha que muitos pedestres não usam a passarela com "preguiça de subir. Acho que é muito grande para atravessar", contou.
Outra passarela pouco usada pelos pedestres é a localizada na avenida Pedro Álvares Cabral com a avenida Júlio César, no bairro da Sacramenta. Essa estrutura é grande e cheia de voltas. Mas, considerando que há um fluxo grande de carros e de pedestres naquela área, verifica-se que pouca gente usa essa estrutura. "É o medo de ser assaltado", disse uma operadora de máquina de 42 anos. Na manhã de ontem, ela passou ao lado da passarela. "Essa passarela não tem significado, pois o povo não usa", afirmou. Pedindo para não ser identificada, ela conversou com a reportagem pouco depois das 12 horas e se assustou quando um ciclista passou pertinho dela. "A gente já fica logo sobressaltada", afirmou. Outros moradores disseram que à noite, então, é que as pessoas evitam mesmo essa passarela. E isso porque, ali perto, há uma unidade da Polícia Militar - o 27º Batalhão de Polícia Militar, situado na praça Dorothy Stang (missionária norte-americana assassinada, em fevereiro de 2005, em Anapu, no Pará).
Já a passarela da avenida Júlio Cesar com a rua Teodoro Palmeira, na Sacramenta, é bastante usada por pedestres e, também, por ciclistas. Mas, aqui, há um detalhe: naquele trecho da avenida, não há como as pessoas chegarem do outro da avenida cruzando a pista. É que, ao longo da via, há uma estrutura de concreto com grades que impede que os pedestres pulem esse obstáculo. Nesse caso, portanto, os moradores só têm como alternativa usar a passarela.
A Superintendência Executiva de Mobilidade Urbana de Belém (SeMOB) informou que diversas ações educativas voltadas à conscientização e respeito às leis de trânsito são realizadas pelo órgão ao longo do ano e que entre os temas voltados especificamente para pedestres estão a importância da utilização de faixas de pedestre e passarelas para uma travessia segura, visando maior segurança no trânsito e, consequentemente, a redução no número de acidentes.
O Núcleo de Gerenciamento de Transporte Metropolitano (NGTM) informou que todas as passarelas da João Paulo II estão liberadas para uso e que a escuridão no trecho do prolongamento da avenida foi provocada por furtos de cabeamento e luminárias. "O NGTM identificou que o concreto dos canteiros também foi quebrado para que a fiação em cobre subterrânea fosse arrancada e a caixa de comando e controle das luminárias violada. O Núcleo trabalha na recuperação da iluminação danificada", acrescentou. A avenida II foi prolongada entre a passagem Mariano, no Entrocamento, e a rua da Pedreirinha, em Ananindeua, em setembro de 2018.