Na homilia do 23º Domingo do Tempo Comum, o padre Cláudio Pighin refletiu sobre o Evangelho de Mateus, capítulo 18, versículos 15 a 20, e destacou a importância do diálogo, da paciência e da reconciliação diante dos conflitos vividos dentro da comunidade cristã. O sacerdote explicou que o Evangelho de Mateus foi escrito por volta dos anos 80 ou 90 depois de Cristo, em um período marcado por divisões entre judeus que haviam se convertido à fé cristã e familiares que não aceitavam a conversão ou tinham dificuldade em reconhecer Jesus como Messias.
Segundo ele, esse contexto ajuda a compreender por que Mateus apresenta orientações sobre como os cristãos deveriam agir diante de conflitos. “Entre eles, existiam grandes divisões. Devido a que nem todos os parentes aceitavam a conversão ao Jesus. Para eles, era difícil acreditar no Jesus como Messias. Por isso, Mateus mostra como Jesus em Deus. Dedica regras que possam ajudar quando houver conflitos na comunidade. Praticamente, ele nos dá pistas de como corrigir o irmão ou a irmã e assim reconstruir a comunidade”, afirmou.
Ao comentar o trecho do Evangelho que trata de uma pessoa que peca contra outra, Pighin ressaltou que a primeira atitude não deve ser a exposição pública, mas a tentativa de resolver o problema por meio da conversa. Para ele, é necessário compreender as razões que levaram ao conflito antes de tomar outras medidas.
“Se teu irmão, a tua irmã pecar contra ti, você não deve denunciá-los publicamente. Procure falar a sós com ele e com ela para tentar entender o porquê disso, o que motivou a proceder daquele jeito tão ofensivo. Bom, se assim não conseguires nada, nos disse o mestre, toma contigo duas ou três pessoas para ver se consegues reverter a situação”, disse o padre.
Acolhimento
O religioso explicou ainda que, caso a pessoa continue se recusando a ouvir, o conflito deve ser levado à comunidade. No entanto, ele destacou que a orientação de tratar alguém como “pagão ou publicano” não significa abandonar ou excluir definitivamente essa pessoa.
“Vocês se lembram da parábola do filho pródigo, de como o pai respeitou a decisão do filho, embora não estivesse de acordo. Porém, não se dava mais até que ele voltou arrependido e o acolheu de braços abertos. Isto é, o amor perdoando-o, em seguida fazendo festa. Assim deve ser o nosso comportamento perante esses casos complicados da nossa vida”, afirmou.
União
A partir dessa reflexão, Pighin defendeu que a resposta cristã aos conflitos deve ser marcada pela busca da união, e não pelo afastamento. Segundo ele, mesmo quando há dificuldades de relacionamento, a comunidade deve manter aberta a possibilidade de reconciliação.
“Não podemos excluir, mas amar mais ainda. É isto que quis dizer o nosso mestre Jesus em tratar como pagão ou publicano. A nossa vocação é sempre fazer de tudo para unir e não desunir. É evidente que tudo isso precisa muita paciência. É tempo, não acontece de um dia para o outro. Assim imitamos o nosso Deus. É nisto que nos revelamos verdadeiros amigos de Jesus”, declarou.
Reconciliação
O padre também destacou que o processo de reconciliação exige disposição e tempo, mas considerou que essa mudança é necessária para que as relações sejam reconstruídas. Para ele, a reconciliação não deve ser adiada, pois está diretamente ligada à preservação da vida e da convivência.
“Se fizermos isso com certeza a nossa realidade não fica a mesma. Este poder se torna divino. Assim a reconciliação se torna um imperativo urgente. Porque é vida e não morte”, afirmou.
Nesse processo, Pighin apontou ainda a oração como um caminho para que os fiéis encontrem força para enfrentar os conflitos e buscar a reconciliação. Segundo o sacerdote, é por meio da oração que os cristãos podem contar com a ação de Deus para ajudá-los diante dessas situações.
“Queremos viver e para ter mais certeza de alcançar esse objetivo Jesus nos recomenda a oração. É ela que garante a ação do Deus Pai em socorrer-nos”, disse.
Ao final da homilia, o padre afirmou que a mensagem do Evangelho deve servir como orientação para a construção de comunidades baseadas no amor, na fraternidade e na inclusão. Segundo ele, a proposta apresentada por Mateus é justamente impedir que os conflitos produzam mais afastamento entre as pessoas.
“Mateus quer iluminar a nossa vida de cristãos, para fazer das nossas comunidades um espaço de amor e fraternidade. Isto vai gerar inclusão e não exclusão. Pergunto, até quando estamos dispostos a seguir estas regras do nosso Mestre Jesus?”, concluiu.
