Em um mundo com rotinas cada vez mais aceleradas, somada aos impactos das redes sociais, que por vezes roubam uma boa fatia de tempo, a busca pelo equilíbrio e "fuga” das pressões e cobranças do dia a dia podem ser uma constante. Mas, afinal, o que pode ser considerada uma "vida equilibrada" nos dias atuais e como alcançar esse status tão desejado?
Para a psicóloga Rosângela Araúo Darwich, a expressão pode ser interpretada por cada pessoa de modo diferente, o que, aliás, é muito importante. "Às vezes tentamos nos adaptar a modelos de equilíbrio que nos são estranhos e assim nos perdemos no caminho. É importante que cada um consiga parar para se ouvir e descobrir o que significa viver de forma equilibrada, quais áreas de experiência têm gerado mais contentamento ou alívio e, às vezes por isso mesmo, estão sendo priorizadas", analisa a profissional, que é doutora em Teoria e Pesquisa do Comportamento e pós-doutora pela Universidade Protestante de Freiburg, na Alemanha.
A especialista destaca que a ideia de que uma atividade prazerosa pode exercer um papel transformador na rotina de quem busca bem-estar e satisfação, apesar de todos os desafios, parece ter sustentação. "Na psicologia, a gente diz que se entra em contato com reforçamento positivo de diferentes tipos. Isso significa que não se estaria tentando diminuir tristezas ou ansiedades, mas construir espaços de alegria", afirma.
Segundo Darwich, o envolvimento em um hobby pode trazer novos e leves sentidos à vida, e o compartilhamento ou o envolvimento social prazeroso e frequente seria, neste caso, a cereja do bolo.
Foi o que aconteceu com a educadora Beth Mello, 68, que divide seu tempo entre o trabalho, como gestora pedagógica de uma escola particular e a organização da casa. Viúva, mãe de duas filhas e com três netas, Beth encontrou uma atividade que, para ela, promove o relaxamento mental e diminui o estresse a ansiedade: um curso de bordado.
"Bordar e entrar para o grupo de bordadeiras foi o melhor investimento que fiz para mim mesma. Além da aprendizagem, as relações construídas são gratificantes. Trocamos experiências, risadas, organizamos encontros e comemoramos nossas conquistas", conta ela, que frequenta as aulas há um ano.
Por meio da atividade, ela garante que conquistou também maior equilíbrio emocional e passou a participar de projetos de cunho social, como uma exposição sacolas ecológicas bordadas, a ser realizada em outubro e cuja a renda será revertida para uma instituição carente. "O equilíbrio está diretamente associado a se permitir fazer coisas que nos fazem bem. Isso fortalece não só a autoestima, como também a espiritualidade. Precisamos aceitar que somos vulneráveis e que podemos conviver com isso sem culpas", pontua.
Além do prazer em bordar, há outras atividades que despertam o interesse de Beth: viajar, uma boa leitura e meditação. Quando tem os sábados livres, ela costuma frequentar aulas de meditação. Mas, a presença da família e convivência com as netas não passam despercebidas. "Sem dúvidas me energiza de coisas boas e me renova sempre", conclui.
A arquiteta e artesã Tammy Yamada Lamarão, 35, acredita que em um mundo tão imediatista, como o atual, um hobby como o de bordar reflete o respeito à condição humana. "Não somos máquinas, sendo assim, a produção é manual e, portanto, no tempo de cada indivíduo", destaca a professora de bordado.
De acordo com Tammy, além de todos os benefícios citados por Beth, a atividade envolve diversas habilidades, como o exercício do cérebro, melhora destreza das articulações e concentração, por exemplo. Apaixonada pela arte, ela diz que a atividade a conecta com várias emoções. "O bordado está e esteve presente durante várias fases da minha vida: infância, adolescência e na fase atual. Hoje, olhando para trás, posso afirmar que passei por várias tempestades bordando".
A professora, que também tem uma rotina de "pintar e bordar", como é descrita por ela mesma (que inclui trabalho, estudo, cuidar dos filhos, da casa e por aí vai), garante que o primeiro passo para conciliar tudo com equilíbrio é se organizar e ter uma programação do que precisa fazer diariamente.
Hábitos como dormir bem, melhores escolhas na alimentação, cuidar da espiritualidade/do corpo, além de ter um tempo reservado para si também, são algumas das ações que contribuem para o bem-estar de Tammy, incluindo aí a presença da família e amigos. "É preciso poupar, mas também saber usufruir do seu trabalho e do seu tempo", opina.
E, se há quem opte pela calmaria que exige o trabalho com agulha e linhas, há também quem se encontre na aventura de uma cavalgada, como a empresária Helena Peracchi, 56, que pratica hipismo há oito anos. O contato com a natureza proporciona à empresária, que administra há mais de 30 anos uma ótica, a sensação de prazer e liberdade.
"Essa relação de companheirismo e cumplicidade com o cavalo torna-se mais prazerosa a cada dia. Ele conhece a sua voz, seu cheiro. É apaixonante, descarrega as tensões de um dia corrido e ajuda a relaxar", descreve Helena, que costuma frequentar o haras uma vez por semana.
De acordo com a empresária, além de reduzir o estresse e servir como válvula de escape, o hipismo trabalha a musculatura do corpo e também a mente. "Além dos benefícios como postura, é uma atividade que ajuda a melhorar também a autoconfiança, a medida que você consegue dominar um animal tão grande e forte", garante.
As relações sociais de Helena também são aquecidas com o hobby, rendendo grandes momentos de convívio com pessoas que cultivam a mesma paixão por cavalos.
Mas, independente dos hobbies de Helena, Tammy e Beth, estilo de vida ou preferências, a dica da especialista é só uma: se priorizar. "Não espere que uma depressão ou um transtorno de ansiedade acenda o sinal vermelho e o obrigue a parar. A rotina pode ser frenética no bom sentido, recheada de coisas boas, mas talvez o ideal é que seja diversificada e que traga com ela a nossa própria assinatura", aconselha Rosângela.
