Uma nova formulação da gasolina está em testes, autorizados pelo Governo Federal, por meio do Ministério de Minas e Energia. Como parte da Lei Nº 14.993/2024 — a Lei do Combustível do Futuro —, a iniciativa apresenta o combustível fossíl com 35% etanol, que recebe o nome de gasolina E35. Desde agosto de 2026, a composição que circula é a gasolina E32, com 32% de etanol. VEJA MAIS Lula assina decreto que reduz PIS/Cofins da gasolina e zera tributação do etanol O presidente também assinou uma MP que prevê mais R\$ 1 de subvenção por litro de diesel para que os preços continuem estáveis nas bombas [[(standard.Article) ANP: Gás de cozinha sobe na 1ª semana de setembro com diesel estável e recuo da gasolina]] Sem dar prazos, Trump diz que acordo com a Venezuela vai reduzir preço da gasolina Anteriormente, ele havia afirmado que os americanos teriam preços mais baixos como resultado do acordo O engenheiro mecânico Victor Sarmento explica que a gasolina E35 possui diferentes impactos nos veículos, a depender do tempo de fabricação. Aqueles que possuem carros mais antigos precisam ter atenção redobrada com o aumento do etanol na composição, visto que foram feitos para trabalhar com quantidades menores. Os proprietários de carros mais novos podem ficar mais tranquilos. “O etanol possui características físicoquímicas diferentes da gasolina, como maior afinidade com a água e menor poder calorífico. Nos motores carburados, a dosagem de combustível é realizada mecanicamente, sem correções eletrônicas em tempo real. Com o aumento da concentração de etanol, a mistura ar-combustível pode ficar mais pobre, dificultando partidas, aumentando falhas de funcionamento e reduzindo o desempenho”, fala. Além disso, Victor diz que pode haver desgaste acelerado de mangueiras, juntas, diafragmas e componentes de borracha com o contato prolongado em grandes concentrações de etanol. As características dos veículos antigos os tornam mais sensíveis à nova formulação. Em relação ao uso em carros novos, o engenheiro lista quatro pontos de atenção: consumo e autonomia; potência e desempenho; partida; e funcionamento geral. Os veículos em questão são os movidos a gasolina, equipados com injeção eletrônica e gerenciamento eletrônico do motor. Sobre consumo e autonomia, Victor diz: “O etanol possui menor conteúdo energético por litro quando comparado à gasolina. Assim, pode ocorrer um pequeno aumento no consumo de combustível e uma leve redução da autonomia.” Na potência e desempenho, ele explica que a central eletrônica de veículos modernos pode ajustar parâmetros de funcionamento, o que reduz as perdas de desempenho. “Em alguns casos, o elevado índice de octanagem do etanol pode até contribuir para evitar detonação”, detalha. Em regiões com temperaturas mais baixas, o engenheiro diz que a partida a frio exige mais cuidado, visto que o etanol vaporiza com mais dificuldade nessas condições climáticas. Na perspectiva geral, é esperado um funcionamento normal dos veículos recentes, considerando que os sistemas eletrônicos farão as correções previstas pelos fabricantes. E os carros flex? No caso de veículos flex, Victor aponta que eles são os mais preparados para lidar com o aumento da concentração do etanol. O desenvolvimento desses carros permite que operem com qualquer proporcional de gasolina ou etanol hidratado e, muitas vezes, pode chegar até 100% do biocombustível. “A central eletrônica monitora continuamente a combustão e ajusta o tempo de injeção e outros parâmetros conforme a composição do combustível. Mesmo assim, podem ocorrer pequenos impactos relacionados ao consumo e à autonomia, decorrentes do menor poder calorífico do etanol. Porém, do ponto de vista operacional, os veículos flex tendem a apresentar os menores riscos e as menores necessidades de adaptação”, detalha. Curiosidade e expectativa dos condutores Em Belém, motoristas estão com expectativas e curiosos para a aprovação da galorina E35. O produtor de eventos Daniel Bittencourt, de 39 anos, já costuma usar etanol no veículo e, para ele, o único ponto negativo da nova formulação é a redução da gasolina, que pode ser mal vista por demais condutores. Daniel aguarda o desenvolvimento dos testes para saber se haverá ou não aprovação, mesmo que não faça tanta diferença para o costume adotado. Sobre o uso do etanol, Daniel optou pelo custo-benefício: “É muito mais benéfico. É melhor para mim usar o etanol do que a gasolina. Não sinto diferença.” O Brasil, de acordo com o Governo Federal, é pioneiro na utilização do biocombustível em larga escala desde o final dos anos 1970. O país é o segundo maior produtor mundial e um dos que mais usa o produto. Daniel já utiliza etanol com mais frequência e tem curiosidade sobre o funcionamento da nova formulação (Foto: Thiago Gomes | O Liberal) “No meu caso, de carro flex, eu tenho que, de vez em quando, ficar colocando gasolina, para manter o carro sempre alinhado. Porque tem o sistema de troca de etanol e gasolina, então eu fico abastecendo com etanol e, de tempo em tempo, boto gasolina para manter o estado dele”, explica. Por outro lado, o contador Robson Mendonça, de 38 anos, utiliza mais gasolina e adota o etanol em casos de emergência. Para ele, a expectativa estpa na melhora de consumo do biocombustível: “Vai dar mais credibilidade, porque eu acredito que vai dar mais autonomia para a gente que usa com frequência.” Robson não tem receio de usar a nova formulação e acredita que não oferecerá riscos ao veículo. “A gente vai passar a usar até mais, com certeza”, conta. Robson pretende utilizar a gasolina E35, a depender do valor (Foto: Thiago Gomes | O Liberal) Entretanto, a compra do novo combustível depende do fator financeiro. “Hoje o valor, aqui em Belém, não está muito acessível. Eu moro para o distrito [de Icoaraci], então eu prefiro abastecer para lá”, afirma Robson. Conheça os possíveis problemas Cada componente do veículo pode apresentar um problema diferente com o aumento da concentração de etanol, segundo o engenheiro. Confira a lista abaixo. Carburador: alteração da mistura ar-combustível, dificuldades de regulagem, falhas e partidas difíceis; Tanque de combustível: possível desprendimento de depósitos antigos devido ao efeito solvente do etanol, aumentando a contaminação do sistema; Bomba de combustível: desgaste prematuro em modelos antigos não projetados para maiores concentrações de etanol; Bicos injetores: formação de depósitos ou entupimentos caso haja contaminação proveniente do tanque; Velas de ingnição: falhas de combustão podem acelerar desgaste ou carbonização em motores mal ajustados; Catalisador: pode sofrer sobrecarga caso ocorram falhas frequentes de combustão e combustível não queimado chegue ao escapamento; Mangueiras: ressecamento, inchamento ou degradação em materiais mais antigos; Vedações e juntas: perda de elasticidade, vazamentos e deterioração química em componentes antigos. Gasolina E35 aprovada, atenção redobrada Se a gasolina E35 for aprovada e passar a ser comercializada, Victor detalha o que os motoristas devem fazer para garantir a integridade e o bom funcionamento dos veículos. Veja a seguir. Recomendações prudentes: seguir rigorosamente o plano de manutenção do fabricante; verificar o estado das mangueiras, conexões e vedadores durante revisões; trocar o filtro de combustível nos intervalos recomendados; observar aumento anormal de consumo, falhas de funcionamento ou dificuldades de partida; e utilizar combustível de postos confiáveis. Para veículos antigos: inspecionar mangueiras, juntas e componentes de borracha; verificar regulagem do carburador; e avaliar o estado da bomba de combustível e do sistema de alimentação. O que pode ser desnecessário neste momento: trocar preventivamente todos os componentes do sistema de combustível sem evidências de desgaste; fazer modificações no motor antes da definição final das especificações e da conclusão dos testes técnicos; e utilizar aditivos ou produtos sem recomendação do fabricante.