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BELÉM

Exercícios ao ar livre se tornam alternativa em meio à pandemia do novo coronavírus

Especialistas apontam a necessidade dos exercícios para a manutenção da imunidade, mas alertam para cuidados obrigatórios

Tainá Cavalcante

21 de junho de 2020 às 07:00

( Foto: Thiago Gomes / O Liberal )

A prática de exercícios tem feito falta para muita gente. Com a pandemia, as academias precisaram ser bloqueadas provisoriamente - por serem ambientes fechados, são muito propensas à propagação do novo coronavírus e, como medida preventiva, um decreto estadual proíbe a abertura.

O afrouxamento do isolamento social e a tentativa de driblar a ausência das academias têm feito uma prática se intensificar nos últimos dias: os exercícios ao ar livre. Hoje, já não é incomum ver pessoas nas ruas praticando atividades físicas. Em praças, alguns professores chegam a reunir alunos em uma aula coletiva. Assim tem sido as atividades do professor de boxe Paulo Souza. Aos 44 anos, ele foi acometido pela covid-19 e chegou a ficar com 75% do pulmão comprometido, precisando passar dez dias internado no Abelardo Santos. Depois da internação, ficou 28 dias em casa e, ao se recuperar, voltou a dar aulas ao ar livre, partindo de uma recomendação médica de que ele deveria voltar aos exercícios.

"Voltei com a recomendação às atividades em praça, em local aberto, mas tomando todos os cuidados, como máscara, álcool em gel e melhorando minha alimentação", conta o professor, que agora reúne um grupo de alunos na Praça Brasil, três vezes por semana, para a prática do boxe recreativo. "A aceitação tem sido boa, o retorno está sendo sensacional, as pessoas estão procurando e o trabalho está sendo feito com muita vontade e dedicação para a melhoria de cada um", afirma.

A dentista Sabrina Carvalho, de 22 anos, é uma dessas alunas. Também já recuperada do novo coronavírus, ela conta que estava se sentindo muito sedentária e, por isso, viu a necessidade de se exercitar mais, para conseguir melhor condicionamento físico. "Como já peguei, tive coragem de iniciar a atividade física, mas eu sempre prezei por um lugar que fosse aberto para evitar aglomeração. Aqui na praça você consegue ter cuidados, evita contato com as outras pessoas, então, para mim, tem sido de grande importância, não só pelo condicionamento, mas pela saúde, porque exercício físico é saúde", diz.

Depois de se curar do novo coronavírus, o professor Paulo tem se dedicado aos exercícios ao ar livre
Depois de se curar do novo coronavírus, o professor Paulo tem se dedicado aos exercícios ao ar livre (Thiago Gomes / O Liberal)

Para alguns especialistas, a prática da atividade física, mesmo em meio a pandemia, é recomendável, mas é preciso cautela máxima: o uso de máscaras deve ser obrigatório, assim como o distanciamento de pelo menos dois metros entre as pessoas.

"Na nossa capital, já passamos o pico da pandemia. Podemos observar nos hospitais que os leitos destinados à doença não estão totalmente ocupados. A taxa de ocupação está abaixo de 80%. Isso é um bom sinal, porque significa que a oferta é maior do que a procura. Então, é o momento realmente de voltar às atividades, principalmente porque atividade física é importante para melhorar a imunidade", avalia a médica infectologista Andréa Beltrão, ao afirmar que "nesse momento é importantíssimo termos a imunidade a todo o vapor, então para que o paciente responda bem ao tratamento, para que ele tenha uma evolução não-grave da doença, é recomendado, sim, retomar às atividades físicas quando estiver bem".

Alguns especialistas têm recomendado a prática de exercícios, mas alertam para as medidas preventivas necessárias
Alguns especialistas têm recomendado a prática de exercícios, mas alertam para as medidas preventivas necessárias (Thiago Gomes / O Liberal)

A médica frisa, entretanto, que essa recomendação é, apenas, para atividades em casa ou ao ar livre. Em relação às academias, a atenção precisa ser triplicada e, para ela, a avaliação para uma possível futura retomada depende de diversos fatores.

"Ao ar livre, o risco é menor. Existe, mas é bem menor, porque as partículas virais não vão ficar suspensas no ar. Então, se você mantiver o distanciamento de dois metros entre as pessoas, a máscara e evitar tocar em locais para não se contaminar, o ambiente se torna um local com risco pequeno de adquirir a doença", afirma, ao explicar que "ao ar livre, geralmente chove, então os vírus vão se concentrar principalmente no solo, então, ao retornar para casa, é preciso ter cuidado redobrado com o sapato".

A médica também elenca outros cuidados necessários, como "escolher um local que não tenha muita gente e horários que não sejam de pico, para que você não se esbarre em outras pessoas ao praticar o exercício; manter a máscara e só tirar realmente para tomar algum líquido, mas ficar atento para manter o distanciamento de dois metros para evitar que, mesmo que tenha alguém doente, você se contamine; procurar não tocar em superfícies e ter, sempre que possível, álcool em gel para passar nas mãos". "É preciso manter também o cuidado com as roupas, lavagens de mãos e não se esquecer, de forma alguma, dos sapatos, porque é ali que vai concentrar mais vírus".

ACADEMIAS

Recentemente, um estudo japonês publicado no jornal científico Emerging Infectious Diseases, um periódico ligado ao CDC, órgão do governo dos Estados Unidos, identificou locais como academias e bares como ambientes de supercontaminação. Divulgado em 10 de junho, o levantamento contou com a avaliação de 3.184 pacientes confirmados com coronavírus e o local onde foram contaminados.

No estudo, 30% dos pacientes se contaminaram em unidades de saúde. Em relação às academias, cerca de 8% das pessoas se contaminaram nesses espaços. Os autores da pesquisa afirmaram que "muitos dos grupos de contágio estavam associados com respiração pesada muito próxima, como conversar no bar e se exercitar na academia".

Por motivos como esses, a infectologista Andréa Beltrão ressalta que o cuidado em academias precisa ser muito maior. "Esse retorno vai ser mais lento", admite, ao ponderar que as academias vão precisar se adequar. "Na maioria o ambiente é fechado e isso já facilita a permanência do vírus no ar, então serão mudanças radicais", diz, acrescentando que "o uso de máscaras deve ser obrigatório, precisará haver limite de alunos por horário e uma limpeza mais eficaz. O melhor é que a academia se responsabilize por essa limpeza e não mais o aluno, como costumava ser". Caso as academias ainda deixem isso a cargo dos alunos, a infectologista indica que eles sejam treinados, que tenham conhecimento sobre os produtos que estão usando e quais os riscos relacionados a esses produtos. "Eles precisam saber como ter certeza que está limpo adequadamente, então, a meu ver, é mais fácil colocar uma pessoa treinada para fazer essa limpeza em cada aparelho, fora a limpeza que vai ser feito no ambiente, incluindo o chão. Caso isso não seja cumprido, haverá um sério risco de transmissão", garante.

Para o professor Paulo, essa retomada é necessária, mas ele admite que os alunos ainda estão muito receosos. "A maioria dos alunos que eu tenho aqui na praça não quer voltar para as academias enquanto não estiver estabilizado", admite. Sua aluna Sabrina afirma que como prefere treinos individualizados, não pensa em voltar para a academia mesmo, mas acredita que "com controle e equilíbrio dá para conciliar as coisas e conseguir retornar às atividades, até porque muitas pessoas dependem disso".

A psicóloga Rebecca Moreira, 33, também não pensa em, tão cedo, voltar às academias. Em seu caso, nem às atividades ao ar livre são uma opção. Por ser asmática, ela prefere não correr riscos e, junto com a mãe, estão em uma rotina de treinos por videochamada. "A rotina de treinos não mudou tanto, o que mudou foi o formato da aula e as adaptações para ampliar a variedade dos exercícios, o que tem exigido criatividade e flexibilidade dos dois lados, minha e da personal", conta, ao afirmar que a decisão de manter os trenos é uma questão de saúde. "Eu estava em crise de asma quando iniciou o isolamento social e treinar em casa tem sido essencial para a melhora da minha capacidade respiratória".

Desde o início da pandemia, Rebecca tem feito seus exercícios por meio de videochamada com a sua personal
Desde o início da pandemia, Rebecca tem feito seus exercícios por meio de videochamada com a sua personal (Arquivo pessoal)

Sobre a volta aos treinos externos, ela avalia como "precipitados". "Não é o momento de reabrir locais de uso coletivo. Reconheço os benefícios da atividade física em academias, mas penso que precisamos buscar outras estratégias de manutenção da saúde física e mental", opina, ao reforçar que não se sente segura em frequentar lugares públicos ainda, “principalmente em uma cidade em que falta o principal: consciência coletiva do risco de disseminação do vírus”. "Não consigo imaginar quando vou me sentir seguro, mas o “como” com certeza será quando tivermos certeza de que a epidemia está controlada e existe possibilidade de cuidados para todos que vierem a se infectar ou quando tivermos vacina. Penso que preservar a vida é prioridade, tudo mais a gente pode encontrar caminhos alternativos para se adaptar e sobreviver. Por hora, sigo em casa, preservando a mim e aos que amo tomando todos os cuidados que estão em nosso controle", conclui.