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El Niño e altas temperaturas chama atenção para a dengue em Belém

Na Amazônia, mudanças no clima, armazenamento inadequado de água e recipientes expostos podem favorecer a manutenção de criadouros do mosquito transmissor da dengue

O Liberal

25 de outubro de 2026 às 09:00

Belém registra mais de mil casos de confirmados de dengue em 2026.

Belém registra mais de mil casos de confirmados de dengue em 2026. ( Foto: Imagem ilustrativa )

As altas temperaturas características do clima amazônico, associadas às possíveis alterações no regime de chuvas relacionadas ao fenômeno El Niño, reforçam a necessidade de atenção à proliferação do Aedes aegypti, mosquito transmissor da dengue, da zika e da chikungunya. O fenômeno climático, caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico equatorial, pode modificar os padrões de temperatura e precipitação em diferentes regiões do Brasil. Na Amazônia, essas mudanças, combinadas às condições de armazenamento de água e à presença de recipientes que acumulam água, podem influenciar a manutenção dos criadouros do mosquito.

Em Belém, foram registrados 1.261 casos confirmados de dengue entre janeiro e setembro de 2026, segundo dados da Secretaria Municipal de Saúde de Belém (Sesma). O número supera em 311 casos o total contabilizado durante todo o ano de 2025, quando foram registradas 950 confirmações. Em relação às notificações, a capital paraense contabilizou 2.765 casos nos nove primeiros meses deste ano, contra 2.771 ao longo do ano passado.

Embora o total de confirmações em 2026 seja 32,7% superior ao registrado durante todo o ano anterior, a comparação considera períodos diferentes. Para avaliar se houve aumento ou redução da doença em intervalos equivalentes, é necessário comparar os dados de janeiro a setembro dos dois anos.

A biomédica Lucyane Mendes Silva, doutora em Medicina Tropical e docente do Centro Universitário Martha Falcão Wyden, explica que o risco de transmissão resulta da combinação de diferentes fatores, e não apenas das condições climáticas. “O clima quente da Amazônia, associado às mudanças nos padrões de chuva e às condições de armazenamento de água nas cidades, pode favorecer a manutenção do Aedes aegypti. A relação entre clima e transmissão dessas doenças, porém, é complexa: temperatura, umidade e precipitação interferem no ciclo de vida do vetor, mas fatores como saneamento, urbanização, disponibilidade de criadouros e circulação dos vírus também determinam o risco de infecção”, destacou a especialista.

Calor pode acelerar o ciclo do mosquito

As temperaturas elevadas podem acelerar o desenvolvimento do Aedes aegypti, especialmente nas fases de ovo, larva e pupa. Estudos experimentais realizados no Brasil identificaram condições favoráveis ao desenvolvimento do mosquito em faixas próximas de 22 °C a 32 °C. No entanto, o calor excessivo também pode prejudicar a sobrevivência e a capacidade reprodutiva do inseto.

O biólogo Hyago Pereira, da Estácio, explica que temperaturas entre 25 °C e 30 °C costumam ser favoráveis ao desenvolvimento do mosquito, permitindo que ele complete mais rapidamente as etapas do ciclo de vida até chegar à fase adulta. “De modo geral, temperaturas entre 25 °C e 30 °C são bastante favoráveis ao desenvolvimento do Aedes aegypti. Nessas condições, o mosquito pode completar seu ciclo de vida de forma mais rápida, passando pelas fases de ovo, larva e pupa até chegar à fase adulta”, afirma.

O especialista ressalta, porém, que o aumento da temperatura não significa necessariamente uma elevação da população de mosquitos. “Temperaturas muito elevadas podem aumentar a mortalidade dos mosquitos e prejudicar seu desenvolvimento. Portanto, isso não significa que, quanto mais quente, maior será, necessariamente, a população de mosquitos”, explica.

A temperatura também interfere no tempo necessário para que o mosquito se torne capaz de transmitir um vírus. O infectologista Frederico Martins, do Instituto de Educação Médica (Idomed), explica que, depois de picar uma pessoa infectada, a fêmea precisa passar por um processo de desenvolvimento do vírus antes de conseguir transmiti-lo a outro indivíduo. “Uma pessoa doente, com o vírus circulando no sangue, é picada por uma fêmea que ainda não está infectada. A partir daí, começa um ciclo dentro do Aedes aegypti: o vírus se multiplica, circula pelos tecidos do mosquito e depois chega às glândulas salivares. Só então existe o potencial de transmissão para outra pessoa saudável. Em temperaturas em torno de 25 °C a 30 °C, esse processo leva, em média, de oito a 12 dias. As elevadas temperaturas podem reduzir esse intervalo, fazendo com que o mosquito se torne capaz de transmitir o vírus mais precocemente”, explicou o infectologista.

Hyago Pereira também destaca que o aumento da temperatura, dentro de uma faixa favorável, pode acelerar a multiplicação do vírus no organismo do mosquito e reduzir o tempo necessário para que ele se torne infectante. Esse processo é conhecido como período de incubação extrínseca.

Na prática, isso significa que o mosquito pode adquirir a capacidade de transmitir a infecção em menos tempo, aumentando potencialmente as oportunidades de transmissão. O efeito, entretanto, depende da temperatura atingida, do vírus envolvido e das condições ambientais. Temperaturas excessivamente altas também podem prejudicar a sobrevivência do inseto e a transmissão viral.

O risco não desaparece durante a estiagem

A reprodução do Aedes aegypti costuma ser associada aos períodos chuvosos, quando aumenta a possibilidade de acúmulo de água. Entretanto, os ovos do mosquito podem permanecer viáveis por vários meses em ambientes secos, aderidos às paredes dos recipientes, e eclodir quando entram novamente em contato com a água.

Essa característica torna a limpeza dos recipientes uma medida importante mesmo durante a estiagem. Frederico Martins alerta que apenas retirar a água acumulada pode não ser suficiente para eliminar os ovos. “Os ovos do Aedes aegypti têm potencial para sobreviver em períodos de seca. Eles podem durar muito tempo aderidos ao local onde foram depositados pela fêmea, mesmo sem água. Quando a água retorna, esses ovos podem eclodir e dar continuidade ao ciclo do mosquito. Por isso, simplesmente jogar a água fora de um recipiente não é suficiente. É preciso esfregar a parte interna com uma bucha ou escova para remover os ovos que ficam aderidos às paredes”, orientou o médico.

O biólogo Hyago Pereira reforça que a chuva não é a única fonte de água disponível para o mosquito. O armazenamento doméstico, quando realizado em recipientes sem vedação adequada, também pode favorecer a formação de criadouros. “Muitas vezes, as pessoas armazenam água em caixas-d'água, tonéis, pratinhos de plantas e outros recipientes que, quando não estão devidamente vedados, podem se transformar em criadouros. Além disso, os ovos do Aedes aegypti conseguem resistir por vários meses em ambientes secos, permanecendo aderidos às paredes desses recipientes. Quando entram novamente em contato com a água, podem eclodir em condições favoráveis”, explica.

Por isso, mesmo durante a estiagem, o risco de proliferação pode continuar elevado. A recomendação é limpar regularmente os recipientes, esfregar suas paredes internas e manter os reservatórios bem tampados.

A orientação vale para baldes, vasos, garrafas, pneus e outros objetos que possam acumular água. Caixas-d'água, tambores e demais reservatórios utilizados para armazenamento doméstico também precisam permanecer bem vedados.

Lucyane Mendes Silva ressalta que tanto as chuvas intensas quanto os períodos secos podem favorecer a manutenção dos criadouros, dependendo das condições de cada localidade. Enquanto a água da chuva pode se acumular em recipientes e resíduos expostos, a estiagem pode aumentar a necessidade de armazenamento doméstico. “A necessidade de armazenar água em caixas-d'água, tambores, baldes e outros recipientes pode criar ambientes favoráveis à reprodução quando esses reservatórios permanecem descobertos ou não recebem manutenção adequada. Pneus, garrafas, calhas, pratos de plantas e objetos descartados também podem acumular água suficiente para o desenvolvimento das larvas. Por isso, a quantidade de chuva não é suficiente, isoladamente, para explicar a presença do mosquito”, explicou a biomédica.

El Niño pode modificar as condições de proliferação

Outro fator que merece atenção é o El Niño, fenômeno caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico equatorial. Ele pode modificar a circulação atmosférica e influenciar os padrões de temperatura e precipitação em diferentes regiões do Brasil, com efeitos que variam conforme a localidade.

Frederico Martins destaca que essas diferenças precisam ser consideradas na avaliação dos possíveis impactos sobre as doenças transmitidas por mosquitos. Chuvas intensas e irregulares podem favorecer o acúmulo de água em recipientes, enquanto períodos de seca podem aumentar a necessidade de armazenamento doméstico. “O El Niño é um fenômeno climático sazonal, associado ao aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico, na região equatorial. Isso provoca alterações na atmosfera e pode modificar os padrões de temperatura e precipitação. É importante lembrar que o impacto do El Niño é distinto a depender do território do Brasil. Em áreas onde há chuvas intensas e irregulares, com possibilidade de acúmulo de água em recipientes, a população e o governo precisam estar atentos ao risco de aumento das doenças associadas a essas condições”, afirmou o infectologista.

Estudos sobre a sazonalidade da dengue em capitais da Amazônia brasileira também identificaram associações entre as variações do fenômeno El Niño-Oscilação Sul, os padrões de precipitação e as notificações da doença. Os resultados variam entre as cidades e não permitem atribuir automaticamente ao fenômeno um eventual aumento dos casos.

Sesma intensifica ações de combate

Em nota, a Sesma informou que o Programa Municipal de Controle da Dengue (PMCD) prioriza áreas com maiores índices de infestação vetorial. O planejamento considera os resultados do Levantamento Rápido de Índices para o Aedes aegypti (LIRAa) e o monitoramento por ovitrampas, dispositivos utilizados para acompanhar a presença e a atividade reprodutiva do mosquito.

Entre as medidas adotadas estão visitas domiciliares dos Agentes de Combate às Endemias (ACE), identificação e eliminação de criadouros, abordagens educativas, bloqueios de transmissão viral conforme a avaliação epidemiológica e utilização de Estações Disseminadoras de Larvicida (EDLs).

A Secretaria também destaca a importância da colaboração dos moradores para a realização das vistorias e o cumprimento das orientações preventivas. Segundo a pasta, “a participação da população é indispensável para o sucesso dessas ações”.

Prevenção exige cuidados diários

Para reduzir a proliferação do mosquito, os especialistas recomendam manter caixas-d'água e reservatórios bem vedados, esfregar as paredes internas dos recipientes durante a limpeza, desobstruir calhas e eliminar objetos que possam acumular água. Também é importante dar destinação adequada ao lixo e aos entulhos.

Hyago Pereira alerta para dois erros comuns na prevenção: acreditar que basta retirar a água dos recipientes e limitar o combate ao mosquito aos períodos mais quentes ou chuvosos. O biólogo também ressalta que o fumacê, embora seja uma ferramenta de controle, não elimina todos os ovos e criadouros. “A medida mais eficaz é eliminar os criadouros, impedindo que o mosquito encontre água disponível para se reproduzir. Isso envolve manter caixas-d'água bem fechadas, limpar as calhas, eliminar recipientes que acumulem água e higienizar as paredes dos vasos e reservatórios, onde os ovos podem ficar aderidos. Também é importante utilizar repelentes adequados e telas de proteção para reduzir as picadas”, orienta.

O especialista acrescenta que a prevenção precisa ser contínua e envolver toda a comunidade, pois a existência de focos nas proximidades também representa risco para os moradores.

Frederico Martins ressalta que o combate ao mosquito exige a participação da população e a continuidade das ações do poder público, inclusive nos períodos sem chuva. “É preciso não deixar acumular água, usar repelente, vacinar as pessoas que têm indicação para a vacina e desenvolver um trabalho comunitário de conscientização. Ao mesmo tempo, os serviços governamentais precisam atuar em nível populacional. A prevenção exige que cada pessoa cuide do seu ambiente e que o poder público também mantenha as ações de controle”, pontuou o infectologista.

Além dos cuidados contra os criadouros, a Sesma recomenda beber água regularmente, permanecer em locais frescos sempre que possível, utilizar roupas leves e evitar exposição prolongada ao sol nos horários mais quentes.

Como denunciar possíveis focos do mosquito

Moradores que identificarem possíveis criadouros ou situações suspeitas relacionadas a arboviroses podem entrar em contato com a Divisão de Controle de Endemias da Sesma pelo Disk Endemias: (91) 98402-0894.