A culinária vegana tem conquistado espaço e mostrado que é possível preparar pratos saborosos sem utilizar carne, leite, ovos ou outros ingredientes de origem animal. Receitas tradicionais da cozinha brasileira e paraense também podem ganhar novas versões com ingredientes vegetais, como soja, lentilha e grão-de-bico. A mudança vai além da alimentação e envolve escolhas relacionadas ao consumo e à preocupação com os animais. No Dia Mundial do Veganismo, celebrado em 1º de novembro, a discussão também chama a atenção para as possibilidades de adaptar receitas conhecidas sem deixar de lado os sabores da cultura regional.
Em Belém, o assistente jurídico Rodrigo Martins, de 32 anos, é ovolactovegetariano há seis anos e está em processo de transição para uma alimentação totalmente vegetal. Ele deixou de consumir carnes bovina, suína, aves e peixes, mas ainda utiliza ovos e laticínios. A decisão começou depois que teve contato com informações sobre o direito dos animais, a exploração animal e os impactos dos hábitos de consumo.

Rodrigo conta que, no início, a adaptação também foi um desafio porque não sabia cozinhar. Com o tempo, aprendeu a preparar refeições básicas e passou a conhecer novos ingredientes e formas de preparar alimentos.
“Eu não sabia cozinhar quando tomei essa decisão. Então, acabei aprendendo a fazer a cozinha básica, cozinhar um arroz, cozinhar macarrão. Com o tempo, fui aprendendo mais sobre a culinária vegetal e os métodos que precisava para alcançar determinados sabores. Cada vez era mais fácil ter uma alimentação à base de vegetais”, relata.
Segundo ele, o contato com estudos, documentários e debates sobre os direitos dos animais ajudou a fortalecer sua escolha. A reflexão também passou a fazer parte de outras decisões do cotidiano, como as roupas que utiliza e os produtos que compra.
Veganismo vai além da alimentação
Embora os termos sejam muitas vezes utilizados como sinônimos, vegetarianismo, veganismo e alimentação plant-based possuem diferenças.
O ovolactovegetarianismo exclui carnes, aves e peixes, mas permite o consumo de ovos, leite e derivados. Já o veganismo é uma filosofia de vida que busca evitar, sempre que possível, a exploração e a crueldade contra os animais. Isso envolve não apenas a alimentação, mas também roupas, cosméticos, produtos de higiene e outros itens de consumo.
A alimentação plant-based, por sua vez, é baseada principalmente em alimentos de origem vegetal. O termo está relacionado à composição da alimentação e não representa, necessariamente, o compromisso com todas as escolhas éticas que fazem parte do veganismo.
Para Rodrigo, essa diferença é importante porque a escolha não se limita ao que está no prato. “O veganismo convida a pessoa a ter uma reflexão para além da alimentação, para todo o consumo que ela tem. O vestuário que utiliza, os produtos de higiene e os produtos da indústria cosmética. Ele traz essa reflexão sobre como a nossa sociedade normalizou consumir e explorar animais”, explica.

Receitas paraenses também podem ser adaptadas
Um dos desafios de quem muda os hábitos alimentares é encontrar alternativas para pratos que fazem parte da cultura e das reuniões familiares. Na região amazônica, receitas como a maniçoba e o preparo com tucupi fazem parte da tradição gastronômica. Para Rodrigo, esses pratos também podem ganhar versões vegetais.
Ele explica que muitas receitas regionais já possuem uma base de ingredientes vegetais. Por isso, a principal mudança está na substituição das proteínas de origem animal por alternativas feitas com plantas.
No preparo com tucupi, por exemplo, é possível utilizar proteína de soja e outros produtos vegetais no lugar das carnes. Na maniçoba, os ingredientes tradicionais de origem animal podem ser substituídos por embutidos vegetais, como versões de calabresa e bacon veganas. “Se a gente analisar, são pratos e receitas que têm bases vegetais. O tucupi é uma extração da mandioca. O que a gente muda é a base da proteína”, afirma.
Rodrigo também destaca que atualmente existem produtos industrializados que ajudam na adaptação das receitas. A proteína texturizada de soja é uma das opções que utiliza para substituir a carne em diferentes preparações.
Além de cozinhar em casa, ele conta que já existem restaurantes e estabelecimentos em Belém e em outros municípios do Pará que oferecem pratos vegetais e aceitam encomendas de receitas adaptadas, como a maniçoba vegetal.
A mudança também pode despertar a curiosidade de familiares e amigos. Segundo Rodrigo, quando as pessoas percebem que é possível preparar refeições diferentes sem utilizar carne, muitas demonstram interesse em experimentar.
“Às vezes, a gente chega no churrasco e pensa: ‘O Rodrigo é vegetariano, ele não vai ter o que comer’. Mas existem alternativas, como a proteína texturizada de soja e outros produtos que podem ser adaptados para aquele tipo de refeição”, conta.

Alimentação precisa de planejamento
Apesar das diversas possibilidades de substituição, retirar alimentos de origem animal da rotina exige atenção à qualidade nutricional das refeições. A nutricionista Geane Oliveira explica que é possível manter uma alimentação vegana equilibrada, desde que exista planejamento e variedade de alimentos.
Entre as fontes vegetais de proteína estão feijão, lentilha, grão-de-bico, soja, edamame, tofu, tempeh, ervilha e sementes. Esses alimentos podem fazer parte das refeições diárias e ajudar a atender às necessidades do organismo. “Alguns alimentos vegetais se destacam como boas fontes de proteína, como feijão, lentilha, grão-de-bico, soja, edamame, tofu, tempeh, ervilha e sementes. O ideal é variar essas fontes ao longo do dia”, orienta.
A nutricionista também chama a atenção para nutrientes que precisam de atenção especial, como vitamina B12, ferro, cálcio, proteínas, zinco, vitamina D e ômega-3. A vitamina B12 merece cuidado porque suas fontes naturais são principalmente de origem animal. Por isso, quem segue uma alimentação vegana precisa avaliar a necessidade de consumir alimentos fortificados ou utilizar suplementação.
Geane recomenda acompanhamento nutricional para identificar possíveis inadequações e avaliar as necessidades de cada pessoa. A suplementação e a realização de exames podem ser indicadas de acordo com a alimentação, a fase da vida e as condições individuais.

É possível ser vegano sem gastar muito
Outro ponto importante é que uma alimentação vegana não precisa ser baseada em produtos industrializados ou em alimentos específicos vendidos como veganos. Segundo Geane, opções simples e acessíveis podem fazer parte da rotina.
Arroz, feijão, frutas, verduras, legumes, grãos e castanhas são exemplos de alimentos que ajudam a compor refeições variadas. Priorizar alimentos naturais e da época, além de preparar mais refeições em casa, também pode ajudar a reduzir os gastos.
A nutricionista alerta ainda para erros comuns de quem começa a seguir uma alimentação vegana sem orientação. Entre eles estão a ingestão insuficiente de ferro e outros nutrientes, o consumo inadequado de calorias e a falta de variedade de fontes de proteína.
Para Rodrigo, experimentar novos sabores é um dos primeiros passos para conhecer melhor a culinária vegetal. Ele acredita que muitas pessoas deixam de experimentar esses pratos por causa de ideias preconcebidas sobre a alimentação sem produtos de origem animal.
“Eu diria que as pessoas precisam ter a mentalidade aberta para novas experiências. O universo da gastronomia é muito amplo. Se a pessoa se abre para esse tipo de possibilidade, com certeza vai descobrir um universo de sabores e de adaptações”, aconselha.
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